A proibição do telemóvel nas escolas faz sentido?

09 de agosto 2013 - 16:56

Adotar as tecnologias digitais na educação é um caminho sem volta. Mas não é preciso reinventar a roda. Acrescentar o telemóvel como ferramenta pedagógica já pode ser um excelente começo. Proibir o seu uso nas escolas faz com que os alunos se sintam numa prisão, de acordo com uma investigação desenvolvida pelo CEBRAP. Por Luciana Maria Allan

PARTILHAR
Em vez de coibir o uso do telemóvel, as escolas deveriam incorporá-lo como um recurso que já tem uma forte ligação à rotina dos estudantes. Fotografia de Sean Dreilinger

“A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo o que a elas se propõe.”

A frase, de Jean Piaget, não poderia ser mais atual, mas precisa encontrar eco nos novos desafios agora impostos aos educadores na formação de uma geração de estudantes que são nativos digitais.

Não é incomum ouvir pessimistas de plantão incrédulos com a adoção das novas tecnologias nas escolas, especialmente nas instituições públicas, que recebem estudantes com condições sociais mais precárias, sob o argumento de que não só não há recursos para investir na compra de equipamentos e de que a escola tem outras prioridades mais urgentes, mas também de que estes jovens não teriam a cultura necessária para utilizar computadores, tablets, software ou pesquisar na Internet.

Será mesmo? Antes de fazer uma análise do ambiente escolar, cabe avaliar o comportamento desta nova geração no acesso e uso das tecnologias digitais. Basta um olhar mais atento para perceber que, assim como aconteceu com o rádio e depois com a TV, os telemóveis, os tablets e computadores, de uma forma geral, estão cada vez mais presentes nos domicílios das classes menos favorecidas, criando assim um cenário bastante favorável para adoção deste tipo de tecnologia nas escolas.

De acordo com uma investigação recente realizada pelo CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planeamento), com o apoio da Fundação Victor Civita, com estudantes do Ensino Médio na faixa etária entre 15 e 19 anos, residentes em São Paulo e Recife e rendimento familiar inferior a R$ 2.500 reais (cerca de 820 euros), quase 60% possuem um telemóvel ou tablet com acesso à Internet e mais de um quarto deles já os utilizou para estudar e realizar atividades escolares.

Em vez de coibir o uso do telemóvel, as escolas deveriam incorporá-lo como um recurso que já tem uma forte ligação à rotina dos estudantes. Se bem aplicados e com um planeamento bem elaborado, eles podem contribuir fortemente para envolver os alunos num processo de aprendizagem baseado em projetos, envolvendo atividades desafiadoras e que são ligadas ao quotidiano do aluno. As escolas devem estimular a criação de conteúdos e o desenvolvimento de projetos educacionais e pedagógicos que o transformem numa poderosa ferramenta de ensino e aprendizagem.

Está nas primeiras páginas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que o objetivo final do Ensino Médio é preparar o aluno para dar continuidade aos seus estudos, ingressar no mercado de trabalho e exercer a sua cidadania. Mas será que a organização das nossas estratégias de ensino estão a suportar efetivamente estes desafios?

Ao que tudo indica, ainda não. Num inquérito realizado com 63 presidentes de grandes empresas, publicado pela revista Você S/A, os mesmos mencionaram que buscam jovens que saibam comunicar-se bem pela oralidade e pela escrita, tenham um bom raciocínio lógico, saibam pesquisar, relacionar-se bem, usar tecnologias, administrar bem o tempo, preservar o meio ambiente e fazer trabalho voluntário. Ou seja, muito mais do que pessoas com conhecimento técnico, as empresas estão à procura de pessoas que tenham atitude, iniciativa, criatividade e resiliência.

Para que a escola consiga envolver e motivar estes alunos da geração que já nasceu digital, é preciso avaliar alguns pontos, como se a grade curricular que está a ser trabalhada é relevante e faz sentido para os alunos; se as estratégias de ensino são instigantes e desafiantes, colocando o aluno no centro da aprendizagem e colaborando no desenvolvimento das suas competências e habilidades básicas para serem mais participativos na sociedade; e, claro, se os recursos que apoiam estas iniciativas são os mais adequados.

O telemóvel pode permitir aos alunos pesquisar na Internet, criar textos, gravar vídeos, tirar fotos, produzir podcasts, armazenar dados e compartilhar todo o material nas redes sociais e blogs, possibilitando, inclusive, desenvolver projetos colaborativos envolvendo alunos de várias escolas e até mesmo de outros países, entre diversos outros recursos que irão tornar o processo de ensino e aprendizagem muito mais empolgante.

Adotar as tecnologias digitais na educação é um caminho sem volta. Mas não é preciso reinventar a roda. Acrescentar o telemóvel como ferramenta pedagógica já pode ser um excelente começo. Proibir o seu uso nas escolas faz com que os alunos se sintam numa prisão, de acordo com a investigação desenvolvida pelo CEBRAP.

Já há diversas empresas desenvolvendo software e aplicativos para smartphones com fins educativos. Afinal, se o telemóvel é uma ferramenta para uso profissional, por que os alunos não podem utilizá-la na escola? Um dos principais papéis da escola não é justamente preparar os estudantes para o mercado profissional? Então, qual o sentido de obrigar o aluno a deixá-lo em casa?

Luciana Maria Allan é diretora do Instituto Crescer para a Cidadania e doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em tecnologias aplicadas à educação.

Artigo publicado originalmente no site O Porvir.