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Primórdios do rap português contados num livro apresentado esta quinta-feira

Num momento em que o mundo do RAP discute o machismo e a violência doméstica, na sequência da publicação de um vídeo de Valete, Soraia Simões de Andrade apresenta Fixar o (in)visível os primeiros passos do RAP em Portugal (1986 - 1998) um livro que tem também como linha de investigação a invisibilização das mulheres.
Fixar o (in (visível) os primeiros passos do RAP em Portugal (1986-1998)
Fixar o (in (visível) os primeiros passos do RAP em Portugal (1986-1998)

É lançado esta quinta-feira, em Lisboa no Largo Café Estúdio, às 18 horas, e não podia ser mais atual porque vai ao encontro da grande polémica que atravessa o mundo do hip hop português na sequência da publicação de um vídeo de Valete sobre femícidio.

Mas o intuito de Soraia Simões de Andrade não era responder à polémica do dia. Fixar o (in)visível os primeiros passos do RAP em Portugal (1986 - 1998) é o resultado de uma investigação académica profunda dedicada ao contexto social e cultural de onde emergiram os porta-vozes iniciais do Rap em Portugal.

Na nota prévia deste livro, a autora considera-os "protagonistas sociais, actores também das suas próprias condições de vida, numa fase primeira e, ao chegar à indústria, um megafone que retirou da invisibilidade alguns grupos de população mais vulneráveis ou marginalizados socialmente amplificando as condições da sua existência".

Soraia Simões de Andrade partiu do conteúdo das letras gravadas e/ou editadas discograficamente e do discurso assumido pelos primeiros autores durante as suas performances para analisar a forma como, entre a segunda metade da década de oitenta e a primeira metade da década de noventa," o RAP assumiu quase uma missão na cultura popular. Uma demanda que outras práticas musicais não tinham representado até então na cultura popular urbana. Fez a reportagem das ruas e dos bairros, que os primeiros autores denominaram RAPortagem, alertando para aquilo que era um distinto conjunto de problemas de uma primeira geração de filhos de imigrantes ou de afrodescendentes nascidos em Portugal, como os do racismo, da exclusão social, da pobreza, da xenofobia."

A compreensão dos pioneiros do rap português pretende contudo escapar ao modo apologético. Neste livro também se encontra "um conjunto de outras desigualdades, como as relacionadas com a condição feminina" que são reproduzidas pelo movimento nascente. A autora olha para a "subvalorização" que encontrou " nas análises que foram realizadas acerca destes primeiros anos, ou seja, a não inscrição dos assuntos relatados nos repertórios e discursos falados das primeiras rappers, como a violência com base no género e o sexismo."

Portanto, para Soraia Simões de Andrade, pioneiros também se deve escrever pioneiras, tendo as protagonistas femininas do movimento e as suas temáticas sido invisibilizadas nas narrativas que se foram a posteriori construindo acerca dos momentos iniciais do rap português.

Um momento inicial marcado por duas balizas. A primeira é o programa de rádio Mercado Negro, transmitido na Correio da Manhã Rádio a partir de 1986. Soraia identifica aqui a inspiração inicial para uma geração que "tinha entre os dez (o mais jovem) e os quinze anos de idade (o mais velho)" de jovens que " estudavam em escolas secundárias das periferias de Lisboa e aí tiveram as primeiras experiências musicais e trocas culturais.". No mesmo ano formavam-se os B Boys Boxer, "um grupo grande de entusiastas da cultura hip-hop" que se juntava "para improvisar, trocar cassetes, dançar e outros experimentavam os primeiros sprays e tintas nos murais de rua".

A segunda é o ano de 1998, com a Expo 98 a ser "para vários dos responsáveis pelo arranque do RAP na indústria de gravação de discos, o espaço onde deram os seus últimos espectáculos em frente a uma grande plateia e com um resultado, sob o ponto de vista financeiro, satisfatório".

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