A Frente Social Marroquina é um coletivo que junta quatro partidos de esquerda, sindicatos e associações, nomeadamente de defesa dos direitos humanos. Criada recentemente, teve a sua primeira prova de fogo este domingo com a convocatória de uma manifestação. Milhares de pessoas responderam ao seu apelo, saindo às ruas de Casablanca.
Desigualdades sociais crescentes, falta de democracia e exigência de libertação dos presos políticos foram as razões que mobilizaram os manifestantes. Foi o que Ali Boutwala, do secretariado nacional da FSM, confirmou à AFP: “é a primeira manifestação da Frente Social Marroquina para dizer stop às políticas anti-sociais e anti-democráticas, stop às degradações dos direitos humanos, stop às políticas que conduziram à degradação do poder de compra”.
Unir as lutas pelos direitos políticos e económicos é mesmo um dos objetivos centrais da FSM que foi oficialmente lançada em novembro passado na altura do congresso da Confederação Democrática do Trabalho. Younes Firachin, da direção desta estrutura social, declarou ao Jeune Afrique que “os direitos sociais obtêm-se graças às liberdades democráticas. Durante muito tempo, o campo progressista acreditou que era necessário fazer uma escolha entre lutas sociais e combates políticos.”
E a data da manifestação também era simbólica. O movimento de 20 de fevereiro de 2011, em plena Primavera Árabe, agitou Marrocos em defesa da democratização. Os manifestantes constatam que, quase uma década depois, promessas de democratização com que o rei Mohammed VI respondeu ao movimento não se concretizaram.
Depois do 20 de fevereiro, outras mobilizações se seguiram. Em 2016/17, o norte do país foi sacudido pelas manifestações que ficaram conhecidas com o Hirak do Rif marroquino. Estes protestos surgiram na sequência da morte de Mohcine Fikri, um vendedor de peixe que morreu esmagado num camião do lixo quando tentava recuperar o peixe que a polícia tinha confiscado e deitado fora. O regime respondeu prendendo mais de mil pessoas, incluindo os 53 ativistas considerados como o núcleo duro da organização das manifestações. 39 dos quais ainda estão presos. Por exemplo Nasser Zefzafi, um dos líderes mais populares do movimento, foi condenado em 2018 a vinte anos de prisão por “atentado contra a segurança do Estado”.
Outro dos presos políticos relembrados na manifestação é Simo Gnawi. O autor do rap “viva o povo” foi detido e mais tarde condenado por “insulto à polícia”. Na canção em causa, o rapper, para além de protestar contra as más condições de vida da juventude, insurge-se contra um ato de violência policial de que foi alvo. Depois desta detenção, o vídeo teve oito milhões de visualizações.
Das cerca de trinta organizações da Frente Social Marroquina, fazem parte, para além da CDT, as secções dos funcionários das comunas e empregados do ministério da Agricultura da União Marroquina do Trabalho, o Partido da Vanguarda Democrática e Socialista, o Congresso Nacional Ittihadi, o Partido Socialista Unificado e Via Democrática e Associação Marroquina dos Direitos Humanos.