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Presidenciais no Brasil (2º turno): a democracia no "bolso" da extrema direita

O 2º turno das eleições presidenciais do Brasil confirmou o que todas as pesquisas de opinião vaticinavam e se temia: o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, foi eleito presidente do país na mais dramática eleição presidencial desde o regresso do país à democracia. Análise de Jorge Martins.
Presidenciais no Brasil (2º turno): a democracia no "bolso" da extrema direita
Foto de Alessandro Dias/Flickr.

O 2º turno das eleições presidenciais do Brasil, que decorreu no passado domingo, confirmou o que todas as pesquisas de opinião vaticinavam e se temia: o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, que concorreu sob a “legenda” do Partido Social Liberal (PSL), foi eleito presidente do país, ao bater Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), da esquerda moderada. No cômputo final das mais dramáticas eleições presidenciais desde o regresso à democracia, que culminou com a aprovação da Constituição de 1988 e o início da 6ª República, o vencedor obteve 55,1% dos votos válidos contra 44,9% do seu opositor. O seu triunfo acabou por não constituir surpresa, já que, no 1º turno, realizado a 7 de outubro, já havia obtido 46,0% dos sufrágios válidos contra 29,3% do seu adversário. Por seu turno, os votos brancos e nulos totalizaram agora 9,6% da totalidade dos votantes, uma ligeira subida face aos 8,8% de então. Também a abstenção aumentou um pouco, atingindo 21,3% dos eleitores, contra os 20,3% registados três semanas antes. Como expliquei aqui, apesar de o voto ser obrigatório para a maioria do eleitorado, há grupos para quem ele é facultativo: eleitores com 16 ou 17 anos ou maiores de 70, analfabetos e residentes no exterior. Se acrescentarmos que as multas são pouco dissuasoras e que é possível justificar a ausência, temos a explicação para o facto de mais de 1/5 do eleitorado não ter comparecido nas urnas.

Uma luta entre um autocrata e um democrata

Apontei aqui as características dos vários candidatos e, como vimos, os dois apurados para a ronda decisiva não poderiam ser mais diferentes. A luta entre eles não foi apenas entre a direita e a esquerda, foi entre um adepto da ditadura militar e do seu cotejo de prisões, torturas e assassinatos, a par com a censura e a repressão da dissidência política, e um democrata, que foi um bom ministro da Educação, responsável por uma inédita abertura de oportunidades de acesso a esta e a qualificações superiores a pessoas até aí marginalizadas, desde famílias pobres a minorias raciais, e um não tão bom prefeito de São Paulo, mas, ainda assim, responsável por tornar a grande metrópole mais sustentável, através da construção de inúmeras ciclovias. O primeiro teve o apoio dos “donos do Brasil”, descendentes das elites escravocratas, que não permitem aos mais desfavorecidos acederem a um quinhão que seja da renda nacional. Por isso, sempre que alguém que tenha como programa a defesa e o empoderamento destes últimos aceda ao poder, aqueles tudo fazem para promover o seu afastamento, recorrendo à força para o efeito, se necessário. Para vermos o padrão histórico e estrutural dessa postura, podemos ver uma detalhada história política do país, aqui. São eles que pontificam entre o empresariado industrial, comercial e agrícola e no setor financeiro, na esmagadora maioria dos “media” e no aparelho judicial, tendo como guarda pretoriana as forças militares e policiais. A estes, há ainda que juntar as igrejas evangélicas, cujo crescimento é cada vez maior, a par com o “silêncio ensurdecedor” da Igreja Católica, que levaram alguns dos mais pobres a votar em quem os despreza e não passa de um instrumento ao serviço de quem sempre os explorou. Acresce, ainda, uma classe média emergente, assustada com a violência e a criminalidade crescentes, que mais não são que o fruto da pobreza e das desigualdades existentes, mas também, ressabiada face à ascensão das classes baixas e ao seu aparecimento em espaços e territórios que julgavam pertencer-lhes por direito e estar eternamente vedados aos eternos desvalidos da sociedade brasileira. Infelizmente, o segundo apenas conseguiu o apoio de uma parte dos mais pobres e de alguma intelectualidade. Na verdade, existe, por estes dias, tanto no Brasil como no resto do mundo, uma onda conservadora, que levou Bolsonaro à presidência. Como a esperança é a última a morrer e se diz, aqui em Portugal, que “até ao lavar dos cestos é vindima”, muitos de nós sonhámos com um qualquer sobressalto cívico, que contribuísse para uma histórica e milagrosa “virada” de última hora que derrotasse o candidato da extrema-direita. Mas penso que, no fundo, todos sabíamos que tal não passava de wishfull thinking, sem dúvida bem-intencionado, mas distante da realidade bem sombria por que o Brasil está a passar. 

As determinantes políticas das transferências de voto do 1º para o 2º turno

Vamos, agora, passar à análise dos resultados, começando por apresentar os do 1º turno de três formas: tendo em conta apenas os votos válidos; considerando todos os votos entrados nas urnas, incluindo brancos e nulos; e considerando, igualmente, as abstenções, sendo as percentagens referidas relativamente ao número de eleitores inscritos nos cadernos eleitorais. 

Eis, então, o quadro com as três modalidades de análise dos resultados do 1º turno:

Havia quem, em Portugal, comparasse a situação com a das presidenciais de 1986, quando Freitas do Amaral, então candidato da direita, com o apoio de PSD e CDS, obteve 46,3% dos votos válidos à 1ª volta, contra 25,5% de Mário Soares (candidato do PS), 20,8% de Salgado Zenha (apoiado por PRD e PCP) e os 7,4% de Maria de Lurdes Pintasilgo (independente, apoiada por intelectuais e outros independentes de esquerda e pela UDP). Nessa ocasião, os dois candidatos eliminados, ambos da esquerda, apoiaram, de imediato, a candidatura de Mário Soares, do centro-esquerda, apesar de terem grandes reservas face à sua governação, quando este foi primeiro-ministro, quer entre 1976 e 1978, quer, principalmente, entre 1983 e 1985, e ao seu papel na contenção do processo revolucionário. Os comunistas chegaram, mesmo, a realizar um Congresso extraordinário do partido, que deu o aval, por esmagadora maioria, à proposta da direção de votar no candidato do PS “contra Freitas”, mesmo que tal significasse, como afirmou, então, o seu líder histórico, Álvaro Cunhal, “engolir sapos vivos”. Mas, apesar do apoio de quase toda a esquerda, Soares venceu apenas de forma tangencial, com 50,8% dos votos contra 49,2% do seu opositor.

Ora, não foi nada disto que se passou no Brasil. Na verdade, Bolsonaro obteve 46,0% dos votos válidos, a que havia que somar, para o 2º turno, a maior parte dos 1,3% do candidato da direita nacionalista, o Cabo Daciolo. Por outro lado, Haddad, que se ficou pelos 29,3%, tinha à esquerda apenas os 0,6% de Boulos e os 0,1% de Vera Lúcia e Goulart Filho. Mesmo que fosse buscar os 12,5% de Ciro, teríamos, então, 42,5% para o campo da esquerda e centro-esquerda. Os restantes 11,2% foram obtidos por forças de centro, centro-direita e direita moderada. Do ponto de vista dos números, esta situação estava mais próxima da que se verificou nas presidenciais austríacas de 2016, quando o candidato do FPÖ, partido da extrema-direita, Norbert Höfer, foi o mais votado no turno inicial e disputou a 2ª volta contra Alexander van der Bellen, independente, apoiado pelos Verdes. Na ronda decisiva, os candidatos centristas eliminados (social-democrata, liberal e conservador) apoiaram este último em nome da democracia e contra a possibilidade de a extrema-direita se assenhorear da presidência do país, mesmo que, na Áustria, os poderes do PR sejam relativamente limitados. É certo que, um ano mais tarde, na sequência das legislativas, os conservadores, com nova liderança, acederam à chefia do governo, fazendo, para o efeito, uma coligação governativa com o FPÖ, mas, pelo mesmo, contribuíram para lhe barrar a presidência.

Ora, como já referi nos textos acima citados, quase não existe no Brasil uma burguesia liberal. Assim, a maior parte da burguesia brasileira apenas aceita a democracia enquanto esta não coloca em causa os seus privilégios. Se assim não for, não se ensaia nada em subverte-la, seja através de golpes militares consumados, como em 1964, seja por via de golpes palacianos, como o que estamos a viver: numa 1ª fase, com o “impeachment” de Dilma; numa 2ª fase, com a prisão de Lula e, face à falência eleitoral dos candidatos da direita moderada, apoiando Bolsonaro e a solução “musculada” que ele representa. Daí que a atitude da maioria das formações políticas centristas tenha oscilado entre uma neutralidade que, neste contexto, é, no mínimo, um “lavar as mãos à Pilatos” face à perspetiva de um fascista chegar à presidência, quer, da parte de alguns dirigentes, um apoio explícito ao ex-militar. O caso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que lutou contra a ditadura, mas se recusou a apoiar Haddad, tal como a cúpula do PSDB, é paradigmático.

Os números das transferências de voto do 1º para o 2º turno

Analisemos, agora, de forma mais fria, os números da eleição, começando pelas transferências de votos ocorridas entre os dois turnos, fruto de uma análise empírica comparativa da votação por estado em ambas as etapas do processo eleitoral. 

Verificamos que o ex-militar conservou 96% dos que nele votaram no 1º turno, apenas deixando fugir 2% para o seu adversário, 1% para brancos e nulos e o mesmo para a abstenção. Já Haddad só segurou 94% dos seus eleitores de 7 de outubro, havendo 2% que se passaram para o seu opositor, 1% para os votos inválidos e 3% que não votaram, quiçá por sentimento de derrota. Apesar disso, como o “petista” teve menos votos, conseguiu recuperar umas décimas mais ao seu opositor que o contrário.  Embora Ciro Gomes, candidato do PDT, se tenha recusado a apoiar explicitamente Haddad, apenas pedindo, após a sua eliminação no 1º turno, para os seus eleitores votarem contra Bolsonaro e, na véspera da ronda decisiva, contra a violência, a verdade é que cerca de 80% daqueles terão transferido o seu voto para a candidatura do PT, algo que é bem visível no Nordeste. Mesmo assim, aproximadamente 10% terão apoiado Bolsonaro e os restantes 10% ido para brancos, nulos e abstenção. Já o eleitorado de Geraldo Alckmin, candidato do PSDB e grande desilusão do 1º turno, refletiu as divisões existentes no seio do partido, com cerca de 50% a votar no deputado, contra 30% que apostaram no ex-prefeito “paulista” e 20% que não optaram por qualquer deles. Por seu turno, os eleitores de João Amoêdo, do NOVO, partido da direita liberal, ligado ao mundo empresarial e financeiro, votaram massivamente no ex-militar, mesmo que o candidato se tenha mantido neutral, com 70% a decidir-se por Bolsonaro, contra apenas 5% no “petista” e 20% em branco ou nulo ou não comparecendo nas urnas. Como era previsível, apesar da animosidade entre os dois, que o levou a não dar indicação de voto, o eleitorado do Cabo Daciolo, candidato do partido nacionalista PATRI, optou quase em exclusivo pelo novo presidente, que foi buscar 95% deste, contra apenas 2% para o seu opositor e 3% para nenhum deles. Já os eleitores de Fernando Meirelles, candidato do MDB, se dividiram bastante, tal como o partido, que, aliás, nunca teve grande consistência ideológica: 45% apoiou Haddad, 40% seguiu Bolsonaro e os restantes 15% não optaram por qualquer um. Entretanto, os votantes da ecologista Marina Silva, da REDE, que, após se ter proclamado neutral, acabou por apoiar o candidato da esquerda na reta final da campanha do 2º turno, escolheram maioritariamente aquele, que obteve 70% dos sufrágios da candidata, enquanto o seu opositor só logrou 15%, ficando os restantes 10% nos brancos, nulos e abstenções. Por sua vez, Bolsonaro levou cerca de 80% do eleitorado de Álvaro Dias, candidato do Podemos (PODE), da direita populista, mesmo que este não tenha dado indicação de voto para o 2º turno, ficando 10% para o “petista” e havendo outros tantos que não apoiaram nenhum. Já Guilherme Boulos, candidato do PSOL, formação da esquerda, que apoiou expressamente Haddad, viu 98% dos seus eleitores seguir a sua orientação, com uns residuais 2% a votar em branco, a anular o voto ou abster-se. Por sua vez, os três candidatos “menores” apoiaram explicitamente o “petista”, que levou 75% dos seus parcos votos (a quase totalidade dos de Vera Lúcia, do PSTU, da extrema-esquerda, e de Goulart Filho, do PPL, da esquerda nacionalista), enquanto 15% (a esmagadora maioria de Eymael, da DC) foram para o candidato do PSL e 10% para ninguém. Por sua vez, a disputa pelos votos inválidos do 1º turno não trouxe grandes alterações, já que 75% desses eleitores mantiveram a mesma opção de voto, havendo, ainda, 15% que não compareceram nas urnas. Para os dois candidatos, ficaram cerca de 5% para cada um. Por fim, Haddad terá conseguido atrair mais abstencionistas do 1º turno que Bolsonaro, em especial em São Paulo, mas a diferença no total não foi grande (5% contra 3%) e, por isso, o candidato “petista” ficou longe da ansiada “virada”. Aliás, para além desses 8%, só cerca de 2% mais foi votar e em branco ou nulo. Ou seja, 90% dos que se abstiveram no dia 7 de outubro voltaram a fazê-lo agora. Para ilustrar o que escrevemos, apresentamos estes dois quadros: o primeiro, que deve ser lido nas colunas, com a percentagem de eleitores que cada um dos dois candidatos, bem como os sufrágios inválidos e a abstenção, conseguiram ir buscar aos eleitorados do 1º turno; o segundo, mostra a percentagem real de eleitores de então que optaram por um dos candidatos, que votaram em branco ou nulo ou se abstiveram. A soma das colunas dá o resultado do 1º turno, a das linhas o do segundo.

A fratura geográfica: o Brasil meridional de Bolsonaro e o Nordeste de Haddad

A análise dos resultados mostra que a grande fratura ideológica entre os dois candidatos tem tradução geográfica e sociológica. 

Do ponto de vista da distribuição territorial, o que salta à vista é a fratura entre o Nordeste e a grande maioria do país. Assim, naquela região, Haddad venceu com grande maioria em todos os nove estados federados que a constituem, com uma votação que oscilou entre os 60% no Alagoas e os 77% no Piauí. Em contrapartida, no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, Bolsonaro obteve maiorias esmagadoras, com um mínimo de 58,2% em Minas Gerais e um máximo de 76% em Santa Catarina. Por curiosidade, refira-se que em São Paulo e no Rio de Janeiro o ex-capitão obteve, em ambos, 68% dos votos contra 32% do seu opositor. No Norte, as coisas foram mais equilibradas, à exceção dos estados fronteiriços mais remotos da Roraima, do Acre e da Rondônia, onde o candidato do PSL obteve maiorias sempre acima dos 70%. Foi, aliás, no Acre que obteve o seu melhor resultado nacional, com 77,2% dos sufrágios. Assim, votações equilibradas apenas ocorreram nos restantes quatro estados da região: no Amazonas e no Amapá, Bolsonaro venceu tangencialmente, enquanto nos dois estados adjacentes ao Nordeste, Haddad logrou um triunfo tangencial em Tocantins e por margem curta no Pará. Entre os residentes no exterior, o candidato do PSL venceu folgadamente, conseguindo 71% dos sufrágios válidos.

Acontece que essa repartição geográfica do voto tem uma explicação sociológica. O Nordeste é a região mais pobre do país e aquela onde vive a maioria da população negra. Ora, foram os mais pobres aqueles que mais beneficiaram das políticas sociais dos governos do PT (em especial, os programas Fome Zero e Bolsa Família) e, por isso, mantiveram-se fiéis ao partido. Por outro lado, os negros brasileiros, que, fruto da herança esclavagista, constituem grande parte da população pobre, beneficiaram também das políticas de ação afirmativa, em especial nas quotas de acesso às universidades para as minorias étnicas, algo que o candidato da extrema-direita disse pretender acabar. Se excetuarmos os três estados fronteiriços, frentes pioneiras povoadas, essencialmente, por grandes proprietários e aventureiros e onde o número de crentes evangélicos é maior, é no Norte, na floresta amazónica, que se encontra uma parte muito significativa de comunidades indígenas, também recetadoras dos programas sociais “lulistas”. Em todo o caso, é curioso verificar que, por exemplo, no Amazonas, o deputado venceu o estado por ter ganho em Manaus, onde vive a maioria dos eleitores estaduais, com 65% dos votos, enquanto Haddad venceu na quase totalidade dos municípios rurais. Só que estes são, em geral, constituídos por selva e pouca gente lá vive. Algo que se repetiu no vizinho Amapá. Na verdade, esse padrão de voto, em que as áreas rurais se revelam mais à esquerda que as urbanas, é típico de regiões com uma estrutura latifundiária, como, por exemplo, o Alentejo e a Andaluzia, pois é nas primeiras que habita a grande maioria dos trabalhadores sem terra. Contudo, tal fenómeno ocorreu, igualmente, em estados mais ricos e industrializados do Sudeste e do Sul, onde esse tipo de estrutura agrária ainda tem o seu peso nas áreas mais periféricas. Se algumas destas últimas deram a vitória a Haddad, nas grandes metrópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e a capital federal, Brasília, Bolsonaro venceu categoricamente.

As fraturas sociológicas: género, orientação sexual, raça, religião, classe social e idade

Para a maioria dos dados de natureza sociológica (em especial, sexo, idade, rendimento e escolaridade), servi-me da pesquisa da Datafolha, realizada na véspera da eleição, que acertou no resultado final. Quanto à influência da religião e da orientação sexual, usei a que foi efetuada dois dias antes, em 25 de outubro e que dava 56%-44% a favor do candidato da extrema-direita. Então, como aquelas pesquisas indicavam os indecisos, fiz a respetiva extrapolação e, no caso das duas últimas, uma correção dos dados mais adaptada aos números finais do ato eleitoral. A mesma metodologia utilizei quanto à variável racial, só que a última pesquisa onde ela esteve presente foi realizada em 10 de outubro, logo após o 1º turno. Acrescento, ainda, que, nesta análise, não entro com a abstenção, já que não possuo números fiáveis para a sua contabilização.

Mulheres divididas, homens e heterossexuais com Bolsonaro, LGBT com Haddad

Outra fratura que esta eleição deixou bem vincada é a de género. Assim, enquanto Bolsonaro teve um apoio esmagador entre os homens, com 56% a seu favor, contra apenas 37% do seu adversário e 7% de brancos e nulos, nas mulheres verificou-se um empate técnico, tendo-se dividido entre ambos os candidatos (cerca de 44% para cada um e 12% para os votos inválidos). Nada que surpreenda, dada a retórica sexista do ex-capitão ao longo da campanha, de onde ressaltaram tiradas do machismo mais larvar. E, não fora a influência da classe social e das igrejas evangélicas, que levaram parte do eleitorado feminino de classe média e alta, bem como as mais crentes dessas religiões, a votar no candidato da extrema-direita e talvez o desfecho tivesse sido diferente.

Também a orientação sexual marca uma grande e previsível fratura, atendendo ao discurso abertamente LGBTfóbico do candidato vencedor. De acordo com os dados ajustados da referida pesquisa, 52% dos heterossexuais optaram por Bolsonaro e apenas 38% pelo candidato do PT, enquanto 10% votaram em branco ou nulo. Já entre a comunidade LGBT o resultado foi o oposto: 61% votaram em Haddad, 31% no ex-militar e 8% em nenhum. Aqui, a interseccionalidade com o fator classe explica o facto de um número apesar de tudo apreciável de elementos desse grupo ter apoiado um candidato com um discurso que lhes era tão hostil enquanto gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais.

Brancos com Bolsonaro, negros com Haddad e mestiços dividido

A fratura racial é, igualmente, notória. Assim, nos mestiços (“pardos”, na designação brasileira), que constituem quase metade dos habitantes do país, registou-se um empate técnico entre os dois contendores (45% para cada um e 10% de boletins inválidos). A eleição foi, então, decidida pela população branca, que representa, ainda, mais de 40% do eleitorado: esta deu 58% dos sufrágios a Bolsonaro e apenas 33% a Haddad, ficando 9% em branco ou nulos. Já os negros (“pretos” nas estatísticas do Brasil), que são pouco mais de 8% dos brasileiros, apoiaram maioritariamente o candidato do PT, que recebeu 55% dos votos deste grupo étnico contra 35% do ex-militar e 10% em nenhum deles. Os grupos ultraminoritários, ou seja, os asiáticos e os indígenas, fizeram escolhas diferentes: os primeiros apostaram no presidente eleito, que conquistou aí 53% dos sufrágios, ficando 38% para o ex-prefeito de São Paulo e 9% para ninguém; os segundos, tal como os mestiços, dividiram-se entre o “petista” e o candidato do PSL, com 44% para um e outro e 12% de boletins em branco ou nulos. Nada que se estranhe, já que, em geral, quanto mais claro for o tom da pele, maior será a possibilidade de fazer parte das classes de maior rendimento. Também os asiáticos (na sua maioria, de origem japonesa) tendem a integrar o grupo dos mais abastados. Já a divisão dos indígenas entre os dois candidatos pode parecer surpreendente, mas, se é certo que Bolsonaro declarou querer acabar com a demarcação de terras a favor dessas comunidades, a verdade é que beneficiou do apoio das igrejas evangélicas para penetrar nelas, em especial no Pantanal, situado na região Centro-Oeste. Logo, a comunidade negra, mais pobre e que mais beneficiou das políticas sociais do PT, foi a única que apoiou maioritariamente Haddad, algo que, como referimos acima, explica os bons resultados deste no Nordeste, a região com maior número de negros. Ao invés, o Sul, onde os brancos constituem a maioria, votou massivamente em Bolsonaro. Aliás, o seu segundo maior resultado a nível nacional ocorreu no estado mais branco e mais rico do país, Santa Catarina, onde vivem importantes comunidades de origem germânica. 

Católicos divididos, evangélicos com Bolsonaro, não religiosos com Haddad

A religião marca, igualmente, uma das grandes linhas de fratura desta eleição. Com efeito, se, entre os católicos, que ainda são mais de metade da população, ocorreu um empate técnico (45% para os dois opositores e 10% para nenhum deles), entre os evangélicos, que já contam com quase 30% de crentes no país, a supremacia de Bolsonaro foi enorme, com 63% a dar-lhe o voto, contra 28% para o seu opositor e 9% em branco ou nulo. Do ponto de vista da religião, foi neste grupo que alicerçou a sua vitória, algo a que não são estranhos os apoios declarados do bispo Edir Macedo e do pastor Silas Malafaia, líderes, respetivamente, da IURD e da Assembleia de Deus, as duas principais igrejas evangélicas neopentecostais do Brasil. No que se refere às confissões minoritárias, o presidente eleito venceu, esmagadoramente, entre judeus, muçulmanos e adeptos das religiões orientais, com 70% dos votos, contra 20% do “petista” e 10% em nenhum, e entre os espiritistas, embora por menor margem (50%-40% e 10% inválidos), enquanto Haddad triunfou folgadamente entre os crentes das religiões afro-brasileiras, somando 62% dos votos destes, face a 38% do seu opositor, o que é consistente com o voto maioritário dos negros no ex-prefeito de São Paulo. O candidato da esquerda superiorizou-se, igualmente, entre os não crentes (10% dos eleitores), obtendo, entre estes, 51% dos sufrágios, com o seu adversário a ficar-se pelos 40% e 9% a não optar por ninguém.

Classes médias e altas com Bolsonaro, classes baixas com Haddad

Mas a fratura mais determinante para o resultado eleitoral foi a diferença de classe, algo que não espanta naquele que é um dos países mais desiguais do mundo. Se considerarmos os níveis de rendimento, verifica-se que Haddad vence entre os mais pobres, para o efeito considerando como tal os que ganham menos de dois salários mínimos mensais: o candidato do PT conquistou 51% dos votos das classes baixas, contra apenas 39% de Bolsonaro e 10% para nenhum deles. E a diferença só não foi maior devido à elevada taxa de penetração das igrejas evangélicas nesta faixa da população. Em contrapartida, o candidato da extrema-direita obteve o favor dos restantes grupos sociais: conseguiu 57% dos sufrágios da classe média-baixa (entre dois e cinco salários mínimos), onde o “petista” se ficou pelos 33% e os restantes 10% foram para boletins não válidos; foi buscar 63% à classe média alta (entre cinco e dez salários mínimos) contra 29% do seu opositor e 8% para nenhum, e a mesma percentagem à classe alta, onde o ex-prefeito de São Paulo teve o apoio de 31% e os brancos e nulos não passaram dos 6%.

Paradigmática dessa fratura social é o diferente comportamento do eleitorado de acordo com os níveis de escolaridade, que varia, em geral, na razão direta do rendimento. Daí que Haddad tenha vencido entre os menos escolarizados (só com a escolaridade fundamental ou menos), onde arrecadou cerca de 49% dos votos contra 42% do seu opositor e 9% inválidos. Ao invés, Bolsonaro arrebatou, de forma esmagadora, a votação dos possuidores de maiores habilitações escolares: entre os que frequentam ou possuem a escolaridade média obteve 54%, o candidato da esquerda 36% e não escolheram nenhum 10% daqueles; entre os que possuem formação superior, a vantagem ainda foi maior (57%-33% e 10% em branco ou nulos).

Adultos e idosos com Bolsonaro, jovens divididos

A única variável que não revela uma clara fratura é a idade. Na verdade, Bolsonaro triunfou de forma confortável em todos os escalões etários, à exceção do dos mais jovens (entre os 16 e os 24 anos), onde terá vencido tangencialmente (46%-44% e 10% inválidos). Nos restantes, obteve maioria absoluta em todos, menos um. Assim, nos adultos jovens (25-34 anos), conquistou 51%, contra 39% do seu adversário e 10% para nenhum; nos adultos maduros (35-44 anos) chegou aos 52% face aos mesmos 39% do “petista”, com 9% sem destinatário; nos eleitores de meia idade (45-59 anos) ficou-se pelos 50%, enquanto Haddad registou 41% e os brancos e nulos 9%; por fim, nos mais idosos (60 anos ou mais), o resultado foi-lhe favorável, com 51% a apoiá-lo face aos 39% do seu adversário e 10% de boletins inválidos. Contudo, é um dado importante ver que foi a juventude que menos aderiu ao candidato da extrema-direita, algo que se deverá ao facto de muitos jovens de classe baixa terem conseguido acesso a estudos superiores, graças às políticas de bolsas e de ação afirmativa dos governos do PT. Por sua vez, o escalão dos 45-59 anos é aquele onde se encontram alguns dos que lutaram mais ativamente contra a ditadura e se envolveram no movimento pelas “diretas”, que levaria à democratização do país, em meados dos anos 80, o que explicará o desempenho menos negativo do candidato da esquerda nessa faixa etária.

Podemos, agora, estabelecer o eleitor-tipo de cada um dos candidatos. O de Bolsonaro é homem, heterossexual, branco, adulto ou idoso, evangélico, de classe média ou alta, com escolaridade média ou superior e residente numa das três regiões meridionais do país. Por seu turno, o de Haddad é mulher, negra ou mestiça, jovem, católica ou sem religião, de classe baixa, com baixo nível de escolaridade e do Nordeste.

A criação de um clima político favorável à direita e hostil ao PT

Após a análise geográfica e sociológica, é altura de passar à análise política, considerando que para a eleição do candidato da extrema-direita contribuiu o clima que os “donos do Brasil” criaram no país. Vejamos, agora, em que é que ele consistiu:

1º) A maior parte da comunicação social protagonizou uma campanha nunca vista de “linchamento mediático” do PT, que criou, na mente da maioria dos brasileiros, a ideia de que nunca a corrupção foi tão grande como no período da sua governação e que o partido atuava como uma “máfia”, tendo “Lula” como o “capo” principal. Infelizmente, essa campanha teve êxito, levando a que os índices de rejeição de Haddad acabassem por se tornar muito superiores aos de Bolsonaro: de acordo com a pesquisa da Datafolha, na véspera do ato eleitoral, 52% dos inquiridos declarou que não votaria no primeiro de “jeito nenhum” contra 44% no segundo. 

2º) A legitimação dessa campanha por parte de um amplo setor do poder judicial, com destaque negativo para o juiz Sérgio Moro, que, desde o início da operação Lava-Jato, tem atuado de forma facciosa, procurando incutir na opinião pública essa ideia, como foi notório com a divulgação, uma semana antes do 1º turno, e quando o candidato “petista” estava a ganhar apoio, das declarações do antigo ministro da Fazenda, António Palocci, obtidas ao abrigo da “delação premiada”, em que aquele incrimina “Lula” e outros dirigentes do partido. Não é por acaso que o referido magistrado já manifestou a sua disponibilidade para aceitar o convite do novo presidente para integrar o governo ou o Supremo Tribunal Federal (STF). 

3º) O apoio do empresariado brasileiro ao candidato que prometeu a liberalização económica, com privatizações de setores estratégicos, redução dos direitos trabalhistas e submissão aos interesses do agronegócio e do extrativismo, terminando com a demarcação das terras dos indígenas e dos quilombolas e permitindo a desmatação da Amazónia, quer para a expansão da agropecuária, quer da exploração mineira. Os ataques da comunicação social, quase toda ela controlada pelos grandes grupos económicos nacionais, estaduais ou locais, ao PT e o seu apoio explícito ou, no mínimo, a simpatia ou tolerância face a Bolsonaro são disso amplamente reveladores.

4º) A intensa campanha feita pelas principais igrejas evangélicas e seus bispos e pastores, numa inacreditável promiscuidade entre religião e política, que permitiram anular a natural rejeição do candidato da extrema-direita por parte de muitas mulheres, negros, indígenas e gente pobre, em geral. Não é por acaso que este foi o grupo religioso em que o deputado obteve maior apoio. 

5º) A insistência do ex-militar em duas questões que muito preocupam os brasileiros (a corrupção, por um lado; a criminalidade e a insegurança nas ruas, por outro) deu frutos. Assim, relativamente à sua pauta (agenda) anticorrupção, afirmou-se como uma espécie de virtuoso, que, alegadamente, vinha de fora do sistema, não estando corrompido pelos seus vícios: o “mito”, como lhe chamam os seus apoiantes. E a verdade é que ele é isso mesmo: um mito, nada conforme à realidade, mas que foi muito pouco escrutinado. E, sobre a insegurança, limitou-se ao discurso populista mais básico, como se esse problema não tivesse as suas principais causas nas profundas desigualdades sociais que caracterizam a sociedade brasileira e uma política mais “musculada”, com a polícia e a tropa a atirarem a matar e penas de prisão mais pesadas ou, pior ainda, a posse de armas pelos cidadãos resolvessem a questão. A presença de inúmeros antigos militares e polícias nas listas do PSL e de outras forças políticas de direita foi um chamariz para o voto de gente que se sente insegura e que acha que tudo se resolve à bala. 

6º) A grande vantagem que Bolsonaro obteve na 1ª volta, a par com as numerosas vitórias eleitorais de apoiantes seus nas legislativas federais e estaduais e nas governatoriais que ocorreram no mesmo dia, criou uma “onda conservadora” que empolgou os seus apoiantes e desanimou os opositores. Daí a direita e a extrema-direita terem tomado conta das ruas, mostrando toda a sua arrogância e falta de cultura democrática, traduzida em agressões físicas (algumas delas mortais) a apoiantes da esquerda, membros da comunidade LGBT e pessoas pertencentes a outros grupos mais vulneráveis. 

7º) A pretexto do atentado que sofreu no início da campanha para o 1º turno, em que foi, alegadamente, esfaqueado por um desequilibrado, não compareceu, então, a qualquer debate com os outros candidatos, embora não se tenha coibido de dar uma entrevista “fofinha” à TV Record, pertencente à IURD, exatamente à hora em que os restantes candidatos debatiam na Globo. Depois, recusou-se a discutir com Haddad, alegando razões médicas. No fundo, algo que nos permite questionar a alegada gravidade do seu ferimento, parecendo estarmos em presença de uma verdadeira “fak(e)ada”. É que, se tivesse ido a debate, a vacuidade da sua candidatura seria posta a nu e poderia ser “a morte do artista”. 

8º) O verdadeiro bombardeamento de “fake news” nas redes sociais e na Internet em geral, a exemplo do que aconteceu na última campanha presidencial dos EUA, que levou Trump à presidência, e na do referendo ao Brexit, no Reino Unido. Assim, as mentiras que procuraram afetar os candidatos da esquerda circularam à velocidade da luz e sem qualquer escrutínio, sendo rapidamente partilhadas pela tribo bolsonarista, de forma a chegar ao maior número de pessoas. E, como diria Göbbels, o propagandista nazi, “uma mentira mil vezes repetida passa por verdade”. 

Tudo estava, pois, montado para o triunfo de Bolsonaro e este só não aconteceria se se desse um acontecimento extraordinário, que o mostrasse tal como é e desfizesse, de vez, o mito do “mito”. Na verdade, poucos o questionaram sobre o facto de, estando quase 30 anos como deputado federal e tendo passado por oito partidos diferentes, só ter conseguido fazer aprovar dois projetos em todo esse tempo e, de todos os que apresentou, nenhum tendo como objetivo combater a corrupção. O mesmo sobre a investigação à forma como, nesse período, acumulou, juntamente com os filhos, um património muito superior ao que tinham quando entraram na política ou, ainda, as promoções supersónicas da sua mulher, secretária no Congresso. .A investigação da Folha de São Paulo, uma exceção entre os principais órgãos da comunicação social brasileira, mostrando que o candidato recebeu dinheiro de empresários para colocar, na aplicação WhatsApp, várias “fake news” contra o PT e a pessoa de Haddad, poderia, noutro contexto, ter sido esse ponto de viragem. Porém, face à fanatização da turba bolsonarista, dificilmente essa ou qualquer outra revelação teria tido efeitos sérios na maioria dos seus apoiantes. Claro que, sendo aquela prática ilegal, já que configura a existência de uma chamada “caixa 2” (ou seja, um “saco azul”), a sua candidatura deveria (e ainda poderá ser) invalidada. Porém, dificilmente o Supremo Tribunal Federal terá a coragem necessária para o fazer. Até porque as ameaças dos apoiantes de Bolsonaro foram explícitas: um dos seus filhos, eleito deputado federal com uma enorme votação, ameaçou que fecharia o STF e que, para tal, bastariam “um cabo e um soldado” (sic). Se aquele tribunal aceitasse a impugnação, é muito provável que as tropas de choque da extrema-direita “incendiassem” o país, criando um clima de pré-guerra civil, que serviria de pretexto para uma intervenção militar.

Os principais erros cometidos pelo PT

Claro que a derrota eleitoral da esquerda também se deve aos erros estratégicos cometidos pelo PT e que passamos a enunciar:

1º) O partido foi incapaz de ter a humildade democrática necessária para fazer a autocrítica dos erros cometidos durante a sua governação, em especial o de não apenas ter sido incapaz de mudar o sistema político, mas também de acabar por se envolver nas suas práticas mais perversas, que levaram algumas das suas principais figuras a envolver-se nos esquemas de compra de votos, clientelismo e corrupção, habituais na política brasileira. Para uma força política que se dizia diferente das restantes, isso foi politicamente devastador e abalou em muito a sua credibilidade, em especial junto das classes médias, tornando o partido vulnerável à fortíssima ofensiva da direita. Ao optar por uma postura de vitimização, não assumindo ou desvalorizando esses aspetos negativos da sua passagem pelo poder, o PT acabou por dar mostras de alguma arrogância, que o deixou desarmado face aos ataques (uns justos, outros injustos) de que foi vítima. E não teria sido difícil assumir esses pecados, pedindo desculpa aos eleitores, sem deixar de denunciar o golpe em curso, com a destituição de Dilma e a prisão de “Lula”, e de “puxar dos galões” das suas políticas sociais, mesmo se, também nesse campo, muito ficou por fazer, como a melhoria dos serviços públicos, uma verdadeira política de habitação social ou a reforma agrária. 

2º) A insistência na candidatura (que se sabia inviável) de “Lula” foi errada, desde logo pelas razões expressas no ponto anterior. Não significa isto que o partido deixasse o ex-presidente entregue à sua sorte, mas a verdade é que, tendo aquele sido condenado por corrupção, havia que ter alguma prudência política, mesmo que o processo que levou à sua condenação (em especial, no contexto em que decorreu) deixe muitas dúvidas. Por outro lado, o PT acreditou, ingenuamente, que a popularidade do seu líder histórico se transferiria automaticamente para um qualquer substituto por ele designado, o que estava muito longe de ser verdade. O paralelo que alguns dirigentes “petistas” estabeleceram com Dilma era irrealista: em 2010, “Lula” era um presidente que terminava dois mandatos com grande apoio popular, pelo que houve condições para transferir grande parte desse ativo para a sucessora que designou. Só que, agora, o ex-chefe de estado estava na cadeia, condenado (mesmo que, porventura, injustamente) por um crime de corrupção. Por outro lado, quando Haddad lançou, no limite do prazo legal, a sua candidatura, ainda era um ilustre desconhecido para grande parte do eleitorado fora de São Paulo, o que prejudicou, em muito, a sua afirmação junto dos eleitores.

3º) O slogan “Lula é Haddad, Haddad é Lula”, se, num primeiro momento, teve um efeito de “puxar” pelo candidato do PT, garantindo a sua passagem ao 2º turno, acabou por revelar-se limitativo para este, em especial quando partiu para a batalha final. A verdade é que, para além das afinidades ideológicas, os dois não poderiam ser mais diferentes: “Lula”, ex-operário metalúrgico e sindicalista, com poucos estudos, é um líder carismático, de verbo fácil e que se sente como “peixe na água” junto do povo, em especial o mais pobre, que o vê como um dos seus e cujo trajeto admira e respeita; ao invés, Haddad, de ascendência libanesa, é um académico bem preparado, mas que não tem, nem de perto nem de longe, o carisma e o à-vontade do líder histórico do partido, em especial no seio do “povão”. Apesar de tudo, o candidato tinha, face ao ex-presidente, a vantagem de ter “ficha limpa”, isto é, não ter o seu nome envolvido em práticas de corrupção, circunstância de que não pôde tirar partido, dada a sua colagem a “Lula”. Ao mesmo tempo, esta deixou sempre a sensação de que Haddad seria um mero “pau mandado” daquele, o que estava muito longe de ser verdade, como provou na reta final da campanha do 2º turno. 

4º) O PT não terá entendido nem a extensão da rejeição que o partido suscitava na sociedade brasileira nem o perigo que representava a candidatura de Bolsonaro. Os erros cometidos pelo partido durante a sua governação, a par com a “barragem de fogo mediática” de que foi vítima e a que acima fizemos referência levaram a que a maioria do eleitorado considerasse a formação “petista” como a responsável por todos os males que afetam o Brasil, sem que este conseguisse esboçar uma reação à altura. Esse descrédito foi visível nos resultados das eleições legislativas e governatoriais, em que o partido foi fortemente penalizado. Foi esse “antipetismo” primário que a candidatura de Bolsonaro soube aproveitar, tirando, igualmente, partido do descrédito que atingiu também as forças políticas de centro-direita (em especial, o PSDB e o MDB), associadas, não só à corrupção, mas também ao impopular governo de Temer. Perante este quadro, a única opção que o PT teria para evitar este desfecho seria lançar uma candidatura (de Haddad ou outra) sem o patrocínio de “Lula” e sem grande ambição ganhadora. Se esta se afirmasse por si própria e passasse ao 2º turno, poderia ter alguma esperança de vitória; caso contrário, haveria de apoiar, na ronda decisiva, Ciro Gomes, um candidato de centro-esquerda com reais hipóteses de aí derrotar o candidato da extrema-direita, pois tinha menores taxas de rejeição popular e maior capacidade de captar o eleitorado centrista. Então, o partido iniciaria uma necessária “cura” de oposição, aproveitando para refletir sobre os erros da sua governação e se reorganizar em novas bases num quadro político que manteria intacto o essencial do regime democrático consagrado na Constituição de 1988. No fundo, seguir a velha máxima leninista de “dar um passo atrás para poder dar dois à frente”. 

5º) A campanha de Haddad foi demasiado mansa face ao que estava em jogo. De início, o candidato foi tolhido pelo guião da campanha do 1º turno: ir-se afirmando como um sucedâneo de “Lula”, o que, já vimos atrás, teve um efeito limitado. No final daquele, cometeu o gravíssimo erro político de ir a Curitiba visitar o ex-presidente na prisão, dando ideia que lhe ia pedir instruções para o 2º turno. Só quando, utilizando uma expressão brasileira, deixou de “andar bancando de Lula”, o ex-prefeito de São Paulo se soltou e começou a mostrar personalidade e ideias próprias. E, aí, até conseguiu recuperar alguns pontos, embora insuficientes para a “virada”. Na verdade, a direção do PT mostrou algum excesso de confiança, subestimando, claramente, o potencial da candidatura de Bolsonaro. Provavelmente, apostou (tal como Alckmin e o PSDB) que este se “espalharia” nos debates e que, dessa forma, aquela se esvaziaria. O efeito “fak(e)ada” permitiu ao ex-militar evitar combater em campo aberto, com uma justificação médica credível aos olhos dos seus apoiantes e compreensível para os indecisos. A dada altura, pareceu que o núcleo duro do partido, na perspetiva de uma cada vez mais provável derrota, estava interessado, fundamentalmente, em assegurar a liderança da oposição. Uma estratégia que faria sentido face a um “tucano” (PSDB) da “velha guarda”, como Alckmin, Serra, Aécio ou FHC, mas não face a um candidato de extrema-direita, cujo respeito pelas instituições e pelos mais básicos direitos, liberdades e garantias constitucionais deixa muito a desejar, para ser benévolo. Por isso, já só na reta final da campanha, impulsionada por um sobressalto cívico da base militante do partido e da esquerda em geral, “partiu para cima” do seu adversário. Mas, então, já era tarde. Uma questão: tendo o candidato da extrema-direita estado quase 30 anos como deputado federal e tendo acumulado, nesse tempo, um vasto património, será que não tem (ou tem) nenhum “rabo de palha”, que denunciasse a hipocrisia do seu discurso anticorrupção e a sua pretensa virgindade nesse campo? Numa época em que a vida das figuras públicas é constantemente escrutinada, a única coisa que se encontrou foi a autoria das fake news e, mesmo esta, no quadro de uma investigação jornalística? Não terá havido um claro excesso de confiança do PT e demasiado desprezo pelo adversário e pelo perigo que ele representava?

As responsabilidades do centro-direita e do centro-esquerda

Claro que não é apenas o PT que tem culpas “no cartório”. Como dissemos no início deste artigo, a atitude dos partidos da direita clássica (em especial, o PSDB e o MDB) e de algumas das suas figuras principais, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), mantendo-se neutros na disputa do 2º turno, foi o equivalente ao “lavar as mãos como Pilatos” face à ameaça fascistoide. Inclusivamente, alguns dos seus candidatos a governadores, como o “tucano” João Dória, eleito em São Paulo, “cavalgaram a onda” e declararam o seu apoio ao candidato do PSL. Talvez pensem que “alimentando o jacaré, o comem. Só que, no fim, é o bicho que acaba por comê-los”. O golpe contra Dilma e o que se seguiu deveria seguir-lhes de lição: eles, que o armaram, acabaram “engolidos” pelo que criaram. Alguém afirmou que uma contrarrevolução é apenas uma revolução de sinal contrário. E, tal como sucede em muitas revoluções, os seus mentores acabam tragados por elas. Foi isso que aconteceu ao centro-direita brasileiro em todo este processo golpista. 

Mas também Ciro Gomes ficou muito aquém do que se lhe exigia, quando, após o 1º turno, apelou apenas a votar contra Bolsonaro, mas não em Haddad, apesar de o seu atual partido (o PDT) o ter feito. E, nas vésperas da eleição, talvez por perceber que a partida estava perdida, limitou-se a um pífio apelo ao voto contra a violência. Na verdade, o ex-governador do Ceará quis posicionar-se para o futuro, quiçá aparecendo como a alternativa de esquerda a Bolsonaro daqui a quatro anos, não querendo, por isso, ficar associado ao PT. Só que, se aquele provocar uma rutura na ordem constitucional, esse cálculo pode sair-lhe “furado”.

Os problemas que esperam Bolsonaro 

Resta, agora, saber qual o futuro próximo do Brasil e como será o governo de Bolsonaro.

Apesar de o Congresso ser extremamente conservador, em especial a Câmara dos Deputados, e poder aprovar a pauta conservadora do novo presidente em matéria de costumes, restringindo os direitos das minorias étnicas e sexuais, designadamente acabando com as medidas de ação afirmativa (como as quotas nas universidades) e a educação sexual nas escolas, ou medidas securitárias como o direito da polícia atirar a matar, a redução da idade legal de imputabilidade, o aumento das penas, a criminalização dos movimentos sociais e a legalização da posse de armas por parte dos cidadãos, ou, ainda, a redução das restrições de caráter ambiental ao investimento não será, seguramente, uma caixa de ressonância do Palácio do Planalto. O PSL, formação política do novo chefe de estado, tem apenas 52 dos 513 deputados (ou seja, pouco mais de 10% da Câmara) e 4 dos 81 senadores (cerca de 5%). Mesmo que acabe por congregar outras formações conservadoras, em especial após a entrada em vigor da nova legislação que veda aos partidos mais pequenos financiamento estatal, exceto se criarem uma federação com outro(s) de maior dimensão no seio do Congresso, terá um número de parlamentares insuficiente para governar sem alianças. Por isso, o mais natural é que, apesar de toda a retórica do novo presidente, acabe por fazer o que fizeram os seus antecessores: comprar votos no Congresso em troca de cargos governamentais ou em empresas públicas ou uma diversidade de favores políticos e económicos. Este esquema é um dos principais mecanismos da corrupção na política brasileira, tendo sido ele a base do “Mensalão”, o primeiro escândalo que abalou o PT. Por outro lado, existem algumas contradições entre a base de apoio do presidente eleito, em especial em matéria económica: por um lado, Paulo Guedes, conselheiro de Bolsonaro para os assuntos económicos, é um neoliberal da escola de Chicago, adepto da privatização das principais empresas, dos serviços públicos e da Previdência (Segurança Social); por outro, os militares, com uma perspetiva nacionalista, tendem a ser favoráveis ao controlo das empresas estratégicas (como a Petrobras e a Eletrobras) nas mãos do Estado, algo que veem como um garante da independência nacional. A própria reforma regressiva da Previdência, no sentido de aumentar a idade da reforma e de introduzir esquemas de capitação, pode não ser consensual em sede parlamentar, até porque se trata de uma medida altamente impopular. Esta poderá ser aproveitada pela oposição de esquerda para endurecer a sua oposição, quiçá transferindo-a para as ruas. Por isso, o novo presidente não terá tarefa fácil e arrisca-se a perder, em pouco tempo, a popularidade que ganhou, se, como é previsível, frustrar as esperanças de muitos que nele acreditaram e votaram. Resta saber se não terá a tentação de dar um autogolpe à Fujimori, de quem se confessou admirador. Nesse caso, a posição das Forças Armadas será fundamental e Bolsonaro só poderá levá-lo avante com a cumplicidade dos principais setores militares. Pode, mesmo, acontecer que, após ter conseguido aprovar a legislação mais reacionária em termos económicos e sociais, com auxílio das suas políticas autoritárias, a direita se descarte dele, se perceber que a sua permanência no cargo suscita uma oposição que possa desestabilizar demasiado o país, pondo em causa os interesses das elites que representa.

Qual o futuro imediato da esquerda brasileira?

Por fim, que papel para a esquerda? Passado o choque inicial, há que ter sempre presente que perder uma batalha não é perder a guerra e que a luta continua. No imediato, haverá que lutar, fundamentalmente, para preservar o regime democrático, recorrendo a todas as formas de combate possíveis em diversas frentes: parlamentar, judicial, mediática e também na rua, sempre que necessário. No entanto, não tenhamos ilusões: a relação de forças é altamente desfavorável e, a partir de agora, ela vai ser travada em condições bastante mais difíceis, quiçá dramáticas. Com efeito, para além de dominar a Presidência da República, a direita e a extrema-direita dominam o Congresso, a maior parte dos estados federados (à exceção de alguns do Nordeste), grande parte do poder judiciário (e mais ainda se Sérgio Moro aceitar ser ministro da Justiça ou do Supremo Tribunal Federal), as Forças Armadas e as polícias e a maioria da comunicação social, além das principais igrejas evangélicas. Ou seja, Bolsonaro tem, para já, os maiores poderes fáticos do seu lado. Por isso, a esquerda viverá momentos difíceis. Haddad já declarou querer liderar uma ampla frente da oposição, mas fê-lo à revelia do PT. Porém, há setores do aparelho deste, mais próximos do “lulismo”, que parecem desejar continuar a “correr em pista própria”, liderando a oposição sem quaisquer alianças ao centro, esperando um rápido desgaste de Bolsonaro para surgir novamente como a única alternativa de esquerda aquele. E há ainda Ciro e as suas ambições políticas, que poderão passar pela formação de uma grande aliança centrista, que o leve à presidência em 2022. Por outro lado, os principais movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e Sem Teto (MTST), que têm capacidade de mobilização, correm risco de ilegalização ou, no mínimo, de criminalização das suas ações, enquanto os sindicatos parecem enfraquecidos. Resta a juventude universitária, que se mostrou bastante ativa na parte final da campanha e que liderou alguns movimentos de contestação ao governo de Temer, mas a sua ação poderá ser, igualmente, dificultada pelo previsível aumento da repressão. 

Bolsonaro só tomará posse no próximo dia 1 de janeiro. Até lá, há que “lamber as feridas”, refletir sobre os erros cometidos e gizar uma estratégia consistente de oposição, tendo em conta a existência de uma realidade muito negativa. Só assim evitaremos que o Brasil seja metido no “bolso” da extrema-direita.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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