Prémio a Soares dos Santos causa indignação

12 de junho 2014 - 1:23

Carta subscrita por 30 personalidades católicas contesta a decisão de entregar o prémio “Fé e Liberdade” ao ex-presidente do grupo Jerónimo Martins e questiona os critérios seguidos Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica: “Que valores merecem apreço explícito por parte da UCP?”

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Alexandre Soares dos Santos e Passos Coelho: benefícios fiscais e fuga ao fisco.  Foto de Nuno André Ferreira
Alexandre Soares dos Santos e Passos Coelho: benefícios fiscais e fuga ao fisco. Foto de Nuno André Ferreira

Mais de 30 personalidades manifestaram indignação pela decisão do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de atribuir o prémio "Fé e Liberdade" a Alexandre Soares dos Santos, ex-presidente do grupo Jerónimo Martins. A carta, a que a agência Lusa teve acesso, foi enviada à Reitoria da Universidade Católica e é assinada por Frei Bento Domingues, o historiador José Mattoso, o musicólogo Rui Vieira Nery, os jornalistas Jorge Wemans e António Marujo e a professora universitária Isabel Allegro de Magalhães, entre outros.

Os subscritores dizem que foi com "grande perplexidade, tristeza e indignação" que tiveram conhecimento do prémio a um dos “homens mais ricos de Portugal".

O que é que se pretende enaltecer?

"Um prémio tem um valor simbólico e testemunhal, pelo que, nas presentes circunstâncias, ocorre perguntar: O que é que se pretende enaltecer? Que valores merecem apreço explícito por parte da UCP? Quais os conceitos de fé e de liberdade que estão implícitos nesta atribuição?", questionam.

A carta de protesto lança ainda uma série de dúvidas sobre o que se pretende distinguir na personalidade de Alexandre Soares dos Santos.

Uma colossal fortuna pessoal? Uma forma de enriquecimento baseada nos ganhos do capital e sua acumulação? Práticas de exploração do trabalho humano (baixos salários, horários excessivos, precariedade nas relações laborais)? Expedientes fiscais para fugir aos impostos?.Um modelo de economia que permite o desemprego massivo, a grande concentração do património individual e correspondente poder político, com risco para a democracia e para a coesão social?, lê-se no documento.

Notando que a decisão vai também contra aquilo que tem sido o ensinamento e os apelos mais recentes do papa Francisco, os subscritores gostariam de ver a UCP empenhada na denúncia de "uma economia que mata", em especial pelo que produz "de grande pobreza, desemprego maçiço, excessivas e crescentes desigualdades, riscos ecológicos sérios", naquilo que é uma das maiores ameaças à liberdade e à democracia.

Queria restringir o direito de greve

Recorde-se que Soares dos Santos ainda recentemente defendia a restrição do direito de greve, afirmando que não se pode fazer greve por “dá cá aquela palha”.

Ao mesmo tempo, a Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS, da família Soares dos Santos, recebeu 79,9 milhões de euros de benefícios fiscais em 2012. Foi a segunda entidade que mais benefícios fiscais teve nesse ano. O agora premiado também ficou famoso por ter transferido as ações do grupo para a Holanda, para pagar menos impostos.