A taxa de inflação não conta esta história. A portuguesa está próxima da do resto dos países da zona euro. Mas uma análise separada dos produtos cujos preços mais aumentaram mostra que os preços dos bens alimentares estão a aumentar mais em Portugal do que na zona euro.
A análise é do Público, a partir de dados do Eurostat, e mostra oito dos dez bens e serviços que tiveram maiores subidas de preços no nosso país foram produtos alimentares. De acordo com este jornal, os preços de perto de vinte bens e serviços subiram mais de 10% do que na zona euro e outros nove ficaram mais de 10% abaixo.
Destaca-se o gás natural que em dezembro, segundo o INE, registou uma inflação homóloga de 143,2%, contrastando com 51,9% na zona euro. Mas para além do gás são os bens alimentares que mais marcam presença. O segundo lugar da lista é ocupado pelos ovos, que tiveram uma inflação de 53,1% em Portugal e de 23,9% na zona euro. Depois, leite fresco, fruta em conserva, comida de bebé, carne de porco, açúcar, legumes e arroz também aumentaram mais no país do que naquele espaço monetário.
Em sentido inverso, foi nos produtos energéticos, tirando o gás natural, que os preços portugueses menos cresceram em comparação com o espaço da moeda única. Por exemplo, o carvão subiu 27,8% em Portugal mas 66,3% na zona euro e os combustíveis líquidos 21%, e zona euro 42,9%.
Sobre quem, para além dos consumidores, perde ou ganha com esta subida de preços, aquele diário limita-se a ouvir duas versões. Por um lado, Eduardo Diniz, diretor-geral do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, apoia-se nos dados das Conta Económicas da Agricultura de dezembro, da responsabilidade do INE, para afirmar que os preços na produção não acompanharam os do conjunto da União Europeia: num ano, em 2022, aumentaram 13,8% “bem aquém dos 23,1% contabilizados na União Europeia a 27”. Assim, já que “o agravamento dos preços ao nível do produtor” é “menos acentuado face à realidade da média europeia em 2022” haveria indícios de “que as diferenças indicadas ao nível dos preços no consumidor só em parte se devem à subida dos preços na produção”, apontando-se para “a cadeia de abastecimento alimentar, afastada das condições de concorrência perfeita e mais próxima de mercados com características oligopolistas e oligopsonistas” que “integra várias fases de acréscimo de valor, desde a produção ao consumidor final que contribuem para o custo final do produto”.
O lado dos patrões deste setor, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, tem uma versão própria contrapondo que “o aumento teria sido maior caso não tivesse havido uma preocupação por parte da distribuição de não transferir a totalidade do acréscimo de custos de produção, reduzindo e até esmagando margens, evitando que o ónus para o consumidor fosse muito superior”.