A distorção do mercado da energia do gás em garrafa reflete-se numa fatura pesada para os consumidores que não têm acesso ao gás natural. Cada uma destas 2.6 milhões de famílias pagam por ano mais 119 anos do que pagariam pelo gás natural, revela a edição desta segunda-feira do Diário de Notícias.
As contas são da associação de consumidores DECO, que calcula um custo médio de 293 euros por ano para quem gasta uma garrafa de gás butano por mês. Um consumo idêntico - 170m3 - de gás natural faria a fatura baixar para 174 euros.
"O gás engarrafado tem uma flutuação difícil de perceber. O preço de referência não tem qualquer ligação com o valor de mercado", diz Pedro Silva, técnico responsável pela área de energia da Deco Proteste.
Para além desta diferença de preço, quem compra bilhas de gás pode pagar mais por ela, dependendo da região onde viva. Se em Viana do Castelo, o preço da garrafa de 13kg pode custar 23.32 euros, o consumidor de Beja paga 26.95 euros pela mesma garrafa, indicam as contas da DECO com base nos preços de venda em quase mil estabelecimentos. Garrafas com preço médio abaixo dos 24 euros podem ser adquiridas também nos distritos do Porto, Vila Real e Santarém, enquanto os consumidores de Setúbal e Faro compram a mesma garrafa acima dos 25 euros.

Para Pedro Silva, esta diferença não é nova e foi identificada desde 2001, quando a DECO começou a monitorizar o preço do gás em garrafa. "Não encontramos uma explicação minimamente razoável" que explique porquê ”os preços a sul são sempre superiores do que a norte”, acrescenta, explicando que não há uma razão logística que o justifique: “Levar de Leça da Palmeira uma garrafa de gás a Braga ou Bragança não tem um custo inferior a transportar uma garrafa de Sines a Évora”.
Os preços do gás engarrafado dispararam em Portugal nos últimos 15 anos. Em comparação com Espanha, onde existe um preço máximo tabelado de cerca de 13 euros, os portugueses estão a pagar quase o dobro (mais do dobro, no caso de quem vive em Beja). Em junho, o secretário de Estado da Energia manifestou abertura para avançar para a fixação administrativa de preços, caso o preço de venda das botijas não se aproxime do praticado do mercado espanhol.