PP e Vox acusados de censura, esquerda recupera nas sondagens

05 de julho 2023 - 23:00

A poucas semanas das eleições de 23 de julho, a sondagem do CIS coloca esta quarta-feira a soma do PSOE e Sumar à frente da do PP e Vox. Personalidades da Cultura insurgem-se contra a censura de espetáculos nas autarquias agora governadas pelo PP e Vox.

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Comício do Sumar em La Laguna, Canárias.
Comício do Sumar em La Laguna, Canárias. Foto Sumar/Facebook

Na contagem decrescente para as eleições legislativas antecipadas em Espanha, as sondagens eram até agora consistentes em dar a vitória ao PP e a maioria absoluta à direita em caso de acordo entre os populares e a extrema-direita do Vox, como tem acontecido em várias autarquias e regiões após as eleições municipais e regionais do fim de maio. Acordos que têm representado recuos para os direitos sociais e levantado a polémica interna no PP, ao negociar a entrada nos seus executivos de um partido abertamente xenófobo e homofóbico em plena campanha eleitoral onde precisa de conquistar eleitores ao PSOE.

A sondagem publicada esta quarta-feira projeta pela primeira vez a maioria absoluta dos deputados à esquerda, embora coloque o PP como o partido mais votado (31,4% e 122 a 140 deputados), com o PSOE a obter 31,2% entre 115 e 135 deputados. O Sumar, que aparece nesta sondagem já depois da inclusão do Podemos na coligação, podia obter 16,4% e eleger entre 43 a 50 deputados. O grande perdedor nestas intenções de voto é o Vox, que perderia metade da atual bancada parlamentar, passando a ter entre 21 a 29 deputados com 10,6%. Ao todo, segundo o Centro de Investigações Sociológicas (CIS), os dois maiores partidos da esquerda somariam 47,6% dos votos e os da direita 42%.

Na mesma sondagem, a avaliação dos líderes partidários dá o primeiro lugar a Yolanda Díaz, a ministra do Trabalho que encabeça a candidatura do Sumar, com uma nota de 4,7. Segue-se o primeiro-ministro Pedro Sánchez com 4,6, o líder do PP Alberto Núñez Feijóo, com 4,3 e o líder do Vox, Santiago Abascal, com 2,9.

Com os dois grandes partidos em empate técnico nas sondagens e a previsível impossibilidade de alcançarem sozinhos a maioria absoluta, o debate eleitoral é dominado pelas suas escolhas na formação de um governo em função da aritmética dos resultados. O PSOE aproveita a projeção internacional que a presidência rotativa da UE dá ao seu líder, apostado em conquistar o voto do centro que quer impedir a chegada da extrema-direita ao Governo, enquanto o líder do PP responsabiliza os socialistas se isso acontecer, desafiando-os a absterem-se e a viabilizarem um eventual governo minoritário liderado por Feijóo. O PSOE responde que nas últimas eleições o PP se aliou com o Vox mesmo onde não foi o partido mais votado e veem no apelo de Feijóo um sinal de desespero ante a aproximação do PSOE nas sondagens.

A recusa do líder do PP em participar em mais do que um debate televisivo também é vista pelos socialistas como um sinal de medo. "Está a esconder-se. Ou não se sente forte ou tem vergonha dos pactos com o Vox", referem fontes do PSOE citadas pelo Publico.es.

Quem também tenta aproveitar a mudança na opinião pública e a atribui à "coligação do ódio" entre PP e Vox é a líder do Sumar, com o objetivo assumido de revalidar o atual governo de coligação. "Teremos um governo progressista se o Sumar for grande", afirmou Yolanda Díaz à Telecinco, apelando à mobilização do eleitorado da esquerda com "propostas positivas" como a redução do horário de trabalho ou a criação de uma "herança universal" de 20 mil euros para todos os jovens que atinjam a maioridade, a investir em projetos da sua inserção laboral, empreendimento empresarial ou formação. A medida tem um custo previsto de 10 mil milhões de euros por ano e seria financiada por um imposto sobre as grandes fortunas.

Figuras da Cultura insurgem-se contra a censura nas autarquias do PP e Vox

As sucessivas notícias sobre espetáculos cancelados pela gestão municipal do PP e Vox que tomaram posse em junho levaram à criação de um movimento que junta figuras da cultura espanhola e associações de artistas para lutar contra a "incrível situação que se está a passar nas Artes Cénicas e na Música, com cancelamentos de espetáculos estritamente motivados por critérios políticos e partidários".

Em Valdemorillo, na Comunidade de Madrid, era suposto subir ao palco a premiada peça "Orlando: uma biografia", a partir do texto de Virginia Woolf de 1928 onde o protagonista é um jovem inglês da Idade Moderna que viaja à Turquia e acorda no corpo de uma mulher imortal, com o enredo a percorrer 350 anos da história britânica e a questionar os tabus vitorianos da sexualidade e homossexualidade. A peça do Teatro Defondo madrileno tinha sido contratada pela anterior gestão do PP e Ciudadanos. Agora, a nova maioria PP e Vox, partido que detém a pasta da Cultura, cancelou-a.

Em Burgos, aconteceu o mesmo à peça sobre o professor republicano fuzilado Antoni Banaiges, aprovada pela anterior gestão PSOE e agora cancelada pela do PP, alegando questões financeiras. Em Palma de Maiorca, o PP não chegou a acordo com o Vox para governar a cidade, mas o seu executivo cancelou uma peça sobre transtornos alimentares, aprovada pela gestão PSOE, Més e Unidas Podemos, com a nova gestão a alegar questões financeiras mas também a falta de "sintonia" com o novo governo municipal. Ann Perelló, a atriz que protagoniza o monólogo de uma jovem que "regressa a Maiorca e reencontra os seus fantasmas", diz ter ficado surpreendida com o cancelamento, por tratar-se de "um tema que não conhece as cores políticas".

A pulsão censória da direita espanhola chegou ao cinema na autarquia de Bezana, na Cantábria, única localidade da região com o Vox no governo com o PP, ocupando a pasta da Cultura. Depois de mandarem retirar a bandeira LGBTQI+ do edifício da autarquia, desta vez o alvo foi o filme infantil da Disney Buzz Lightyear e a razão apontada é o beijo lésbico que acontece numa das cenas. Para substitui-lo, a escolha da direita em Bezana recaiu no filme Os Mauzões.