Polícia portuguesa “apanhada” a encomendar software de espionagem

16 de julho 2015 - 15:18

Uma empresa italiana acusada de vender meios informáticos de espionagem de comunicações a várias ditaduras viu os seus emails divulgados pelo Wikileaks. Entre eles estão contactos da Polícia Judiciária, que estava interessada no sistema de interceção de endereços IP.

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Foto Global Panorama/Flickr

A Hacking Team estava há muito na mira de associações de defesa dos direitos humanos por causa dos seus negócios com os governos da Arábia Saudita, Sudão, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Azerbaijão, entre outros. As denúncias de que os programas de vigilância adquiridos à empresa serviam para perseguir jornalistas, opositores ao regime e ativistas dos direitos humanos tornaram a empresa num alvo dos hackers.

No início deste mês, 400Gb de informação da empresa foram partilhados na internet, entre os quais os emails com clientes estatais e privados. A Wikileaks revelou os emails, onde se encontra a troca de correspondência entre os responsáveis da empresa com a Secção de Investigação de Criminalidade Informática e Tecnológica da Polícia Judiciária.

A PJ procurava software de interceção de endereços IP (a “morada” dos utilizadores de internet) e dizia que a empresa vinha recomendada pelo Ministério do Interior italiano. Os contactos avançaram a partir de março até ao fim de junho, quando a Hacking Team se propôs fazer uma demonstração do software “Remote Control System” em Lisboa.

Contactado pelo site ComputerWorld, o coordenador da investigação criminal da Unidade Nacional de Cibercrime diz que o encontro em Lisboa não chegou a ocorrer e que a troca de emails não terá passado de um “contacto exploratório”, à semelhança do que a PJ fez com outras empresas do setor da vigilância informática, agindo “com toda a legalidade”.

Carlos Cabreiro adiantou também que a quebra de segurança que afetou a empresa italiana deixou a sua “reputação abalada”, pelo que não estão previstos futuros contactos com a Hacking Team, apesar de na troca de emails a PJ ter dito que solução oferecida preenchia “os principais requisitos” pretendidos pela polícia portuguesa.

Em junho do ano passado, a Hacking Team foi confrontada com a comissão da ONU que monitoriza as sanções ao Sudão por causa da venda de material de espionagem informática, mas a empresa recusou colaborar, argumentando que não se tratava de venda de armamento. Meses depois, o governo italiano congelou as exportações de material da empresa, mas a medida foi revogada pouco depois, graças à ação de lóbi da empresa junto de altas patentes militares italianas.

A falta de escrúpulo com respeito pelos direitos humanos dos seus clientes ficou bem patente num email do seu líder a outros responsáveis da empresa, a propósito das preocupações dos ativistas de ONG: “Como esta manhã estou muito bem disposto, deixo-vos só esta pergunta: POR FAVOR DIGAM-ME um único país “democrático” que não viole os direitos de alguém e tenha um registo TOTALMENTE limpo no que respeita aos direitos humanos”, questionou David Vincenzetti.