Gaza

Polícia britânica prendeu académico judeu e acusou-o de terrorismo pró-Palestina

04 de novembro 2024 - 18:58

Haim Bresheeth, dirigente da Rede Judaica pela Palestina, considerou numa manifestação que Israel não conseguiria vencer os seus inimigos. Foi o suficiente para a polícia detê-lo ao abrigo da lei anti-terrorismo permanecendo agora “sob investigação”. Não é caso único.

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Haim Bresheeth
Haim Bresheeth

Haim Bresheeth é um académico judeu reformado. Filho de pais sobreviventes do Holocausto nazi, viveu em Israel durante vários anos. É também fundador da Rede Judaica pela Palestina. Na sequência de uma manifestação à porta da residência do embaixador israelita, Tzipi Hotovely, em Londres, foi preso de acordo com a lei anti-terrorismo do Reino Unido.

Na altura da detenção, filmada e publicada esta segunda-feira na Al Jazeera, um polícia dirige-se-lhe explicando que está preso por ter feito um “discurso de ódio”, não conseguindo justificar a fundamentação da acusação nem explicando que parte da sua intervenção poderia incorrer naquele crime.

Mais tarde, em declarações da polícia à Skwawkbox, soube-se que era acusado de um alegado apoio a “organização proibida” por ter considerado que “Israel não consegue vencer o Hamas”. E que a prisão faz parte de uma política de ação para “prevenir a intimidação e graves perturbações nas comunidades”.

O que disse na intervenção foi: “Israel não alcançou nenhum dos seus objetivos declarados, nem em Gaza, no Líbano, no Irão ou em qualquer outro lugar. O que conseguiu? Assassinato, caos, genocídio, racismo, destruição, é nisso que são bons. Mas não conseguem combater a resistência que enfrentam, têm perdido sempre. Não podem vencer o Hamas, não podem vencer o Hezbollah, não podem vencer os Houthis. Não podem vencer a resistência unida ao genocídio que iniciaram.”

Bresheeth acabou por ser libertado depois de passar uma noite na prisão. Sobre ele não recai agora nenhuma acusação conhecida mas diz-se que continua “sob investigação”.

A lei anti-terrorismo tem sido utilizada pelas autoridades para prender jornalistas que cobrem o genocídio cometido por Israel em Gaza. Foi o caso de Richard Medhurst, a 15 de agosto, detido quando voltava ao país, alegadamente por causa das suas reportagens sobre a Palestina. No início de outubro, anunciou nas redes sociais que tinha sido informado que a investigação contra ele iria ser estendida mais três meses.

Foi ainda o caso de Sarah Wilkinson, uma semana depois dele, na sequência de uma rusga de madrugada à sua casa feita por agentes de rosto coberto, supostamente por causa das suas publicações online. Em outubro, a casa da jornalista Asa Winstanley também foi alvo de uma rusga, tendo sido confiscados os seus aparelhos eletrónicos, igualmente devido a publicações nas redes sociais consideradas “encorajamento do terrorismo”.

Os jornalistas estão a ser obrigados a revelar as passwords dos seus aparelhos. De acordo com a lei anti-terrorista, recusar fazê-lo é só por si um crime. No caso de Wilkinson, foi denunciado ainda que a polícia a quis obrigar a revelar detalhes sobre os seus contactos na Palestina, ou seja queria forçá-la a violar a sua deontologia profissional.

Uma onda repressiva

Ao longo dos últimos meses, ativistas e jornalistas têm sido alvo das autoridades britânicas que invocam a lei anti-terrorista e até a lei anti-máfia. Contra os ativistas pró-Palestina mas também contra ativistas ambientais.

O grupo Defend Our Juries conta 40 apoiantes destas causas presos desde julho, ou condenados a penas prisão ou em prisão preventiva. A Polícia Metropolitana tinha anunciado, em dezembro do ano passado, ter feito 630 detenções de ativistas do Just Stop Oil apenas nesse mês. Michael Forst, relator especial da ONU para os defensores do ambiente, considera a situação a pior no país em termos de repressão desde a década de 1930 com o direito ao protesto a ser posto em causa.

A lei anti-terrorista dá à polícia poderes especiais. Permite, por exemplo, isolar e negar contactos, ter as pessoas detidas sem acusação durante sete dias, com a possibilidade de mais 14 adicionais.

Um relatório do grupo Network for Police Monitoring de outubro considera que a repressão se baseia nas leis anti-protesto de 2022/23. Mas nos últimos meses a polícia tem sido influenciada por “uma campanha cada vez mais coordenada de pressão pública através de meios de comunicação social, ministros e oponentes pró-Israel da solidariedade com a Palestina, que exigem que a polícia 'faça mais' para reprimir alegados 'protestos inaceitáveis'."

Kat Hobbs, uma das porta-vozes desta rede, disse ao Middle East Eye estão a “testar coisas diferentes para visar protestos disruptivos e ver o que é aceite em tribunal. O que funcionar será expandido ao resto do movimento”.