Havana – Uma singular polémica entre cubanos que vivem nos Estados Unidos e residentes na ilha tenta precisar o alcance que terão em Cuba os investimentos dos emigrados, como parte do plano de reformas do presidente Raúl Castro.
Os polemistas abriram um amplo catálogo de temas, mas o foco de atenção concentra-se em dois assuntos-chave: o tamanho e o lugar dos investimentos, e o futuro perfil da economia cubana.
Em contraste com discussões de décadas entre os dois lados do estreito da Flórida, desta vez não há desqualificações mútuas, como “máfia terrorista”, ou “ditadura”. As partes reconhecem-se como interlocutores e aludem a que neste debate não participa o anticastrismo de ultra-direita.
Tudo começou em Maio, com declarações do empresário Carlos Saladrigas, antigo expoente da linha-dura dos exilados, ao Palabra Nueva, mensário do Arcebispado de Havana.
Seguiram-se artigos do académico e ex-diplomata Jesús Arboleya; do advogado, ex-deputado e ex-procurador-geral Ramón de la Cruz; do jornalista católico Lenier González e do politólogo Arturo López-Levy, investigador da Universidade de Denver.
Os artigos foram publicados no Progreso Semanal, una revista de temas cubanos e da Flórida, editado nos Estados Unidos, e no Espacio Laical, a publicação dos laicos de Havana.
Na entrevista e num artigo posterior, Saladrigas reivindicou que os cubanos emigrados sejam considerados nacionais para investir na ilha e possam associar-se com os residentes em Cuba, para formar um capital local, evitando que ressurja uma maioria de investidores estrangeiros.
Pediu um “marco legal claro e não ambíguo” e expôs que a ilha tem de reinserir-se na economia global, para o que se deve reconciliar com a diáspora, onde há capital e experiência em mercados. “Há muitos anos que temos medo uns dos outros”, acrescentou. “Devemos ultrapassar o medo e apertar as mãos”.
Também considerou que a emigração deveria fortalecer a soberania do país, unindo os recursos dessa comunidade para favorecer Cuba no diferendo com os Estados Unidos. “Aí radica o repto e o activo estratégico”.
Nova “burguesia nativa”
Arboleya aceitou o investimento em pequenos negócios mas não em grande escala, e estimou que a iniciativa de Saladrigas tende à “formação de uma nova burguesia nativa, alimentada e portanto dependente do capital estrangeiro”.
Acrescentou que “restabelecer o capitalismo não é o que actualmente se discute em Cuba e, do meu ponto de vista, no não reconhecimento desta premissa está o principal desfasamento” do empresário. Perguntou se os emigrados estão dispostos a “conviver com o socialismo cubano” e apontou que “talvez nisto radique a possibilidade de êxito do diálogo”. Advertiu que o “centro da questão” é que Saladrigas pede novas regras.
De la Cruz precisou que a lei vigente permite o investimento dos emigrados, e a reforma estimula o sector privado na ilha, proibindo a concentração da propriedade, “o qual requer, na minha opinião, uma definição legal mais exacta”. Pediu que não seja descartada de antemão a ideia de Saladrigas e recordou o consenso nacional sobre a necessidade de “actualizar o modelo económico”, que inclui reconhecer o mercado.
“O importante para Cuba nestes momentos é propiciar o crescimento económico, mantendo as grandes conquistas da revolução na saúde, na educação e na justiça social”, sem que o Estado abandone a direcção económica e o controlo dos principiais meios de produção e sem que a independência e a soberania saiam lesionadas, resumiu De la Cruz.
González considerou que Arboleya pode reflectir o pensamento de “um sector da classe política cubana e dos seus seguidores (opostos a um diálogo com o exílio)”, pelo que as suas palavras ajudam a construir uma agenda.
Vice-editor do Espacio Laical, González apontou que o modelo socialista cubano sugere muitas perguntas, pelo que o governo do presidente Raúl Castro Ruz “tem a responsabilidade de converter-se em facilitador de um processo ampliado de diálogo, onde participem o maior número de cubanos (de dentro e de fora da ilha), para chegar a consensos aceitáveis para a maioria”.
López-Levy apontou que “no nosso nacionalismo de matriz martiana e no socialismo há importantes semelhanças, mas não são a mesma coisa”, e considerou que “o filtro legítimo para o investimento de um cubano na sua pátria deve ser a conveniência para o desenvolvimento do país da actividade que propõe, o seu respeito à soberania nacional e às leis do país, não uma afinidade socialista”.
O investigador propôs fórmulas como abrir aos residentes no exterior o usufruto de terras ociosas ou a sua participação em zonas económicas especiais. Sugeriu a criação de câmaras bilaterais de comércio, para que, no marco institucional, os emigrados se comprometam a respeitar a soberania da ilha e a rejeitar o intervencionismo. “Sem abandonar a pluralidade ideológica emigrada (…) é necessário desterrar a aposta perversa no desmoronamento do sistema político actual”.
7 de Julho de 2011