Ricardo Vicente, um dos membros do Observatório Pinhal do Rei, criado pelo governo para responder aos incêndios de 2017 que destruíram a maior parte do Pinhal de Leiria, demitiu-se por considerar que este não está a cumprir a sua missão e a mata está de novo ao abandono.
Na carta de demissão, o engenheiro agrónomo reconhece que o Observatório foi criado com os melhores objetivos — acompanhar os trabalhos de planeamento e recuperação da mata e divulgar periodicamente os resultados — mas não está a consegui-los "ao nível da sua coordenação e, também, ao nível do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas" (ICNF), onde considera que "não há vontade política para que esta instituição responda aos seus compromissos".
Ricardo Vicente critica a falta de reuniões do Observatório, que deveria reunir todos os meses: "a última reunião do Observatório foi a 11 Dezembro de 2018. Há meio ano que não reunimos e já estamos em período de risco de incêndio". Nessa altura, o Observatório enviou um parecer técnico ao ICNF, do qual nunca obteve resposta. Manifesta também "indignação" por não ter sido cumprida a "decisão tomada por unanimidade em reunião do Observatório, para envio do nosso parecer a todos aos executivos das Câmaras Municipais e Assembleias Municipais das áreas abrangidas pelas Matas Litorais ardidas". A Assembleia Municipal da Marinha Grande chegou a pedir diretamente o Parecer, que também não foi enviado.
Foi apenas após pressão parlamentar, quando o Bloco de Esquerda fez uma pergunta ao governo sobre o assunto, que o INCF acabou por divulgar o parecer do Observatório e um relatório científico sobre a mata de Leiria. Vicente considera uma "falta de consideração" que o ICNF não tenha notificado os membros do Observatório, e que não tenha dado "qualquer resposta relativamente às sugestões que realizámos". Mas passado um mês e chegado junho, "nem estes acontecimentos parecem ser suficientes para que o Observatório volte a reunir". Sobram críticas ainda ao Ministro e ao Secretário de Estado da Agricultura e Florestas, que "vieram à Marinha Grande um ano após os fogos apresentar o Relatório da Comissão Científica" e "solicitaram-nos a emissão de um Parecer em poucos dias".
Em declarações à TSF, Ricardo Vicente explicou que nem nos 10% da mata que não ardeu "o Estado conseguiu garantir, através do Ministério da Agricultura, uma intervenção decente. Continuam plantas invasoras como os eucaliptos com uma densidade e altura elevada, o que indicia um elevado risco de incêndio". Na zona que ardeu, identifica também "uma progressão das plantas invasoras que estão a ocupar espaço e que dentro de alguns anos estarão prontas a arder num novo ciclo de fogo". Vicente manifestou esperança de que a sua demissão sirva de alerta para o abandono da Mata Nacional de Leiria.