O multimilionário Petro Poroshenko foi eleito presidente da Ucrânia com 54,5% dos votos expressos e uma abstenção inferior a 40%, segundo a imprensa ucraniana. Com uma fortuna estimada pela revista Forbes em 1600 milhões de dólares, dono da indústria chocolateira e de várias empresas de venda e produção de automóveis, camiões e autocarros, do canal televisivo Kanal 5 e da revista Korespondent, Poroshenko é um dos principais oligarcas ucranianos. Convém assinalar, no entanto, que o seu canal de tv goza de popularidade, devido ao tom mais crítico das informações que emite, e que ele próprio faz por oferecer uma imagem paternalista, anunciando que o salário médio nas suas empresas duplica o do conjunto do país (438 euros).
Um oligarca oportunista…
Em 1998, Poroshenko foi eleito deputado do Partido Social Democrata Unificado do presidente L. Kuchma. Mais tarde criou o seu próprio partido de “centro esquerda”, Solidariedade, antes de organizar a campanha eleitoral da coligação de oposição “Nova Ucrânia”, do futuro primeiro-ministro e posterior presidente, Victor Yushchenko (padrinho das suas duas filhas). Em 2002, passou para a presidência da comissão orçamental do parlamento, sendo acusado de ter “extraviado” 8.9 milhões de dólares e de ter sido responsável pela venda da empresa pública Nikopol Ferroalloy ao oligarca V. Pinshuk por 80 milhões de dólares, quando o seu valor se cifrava em mil milhões…
Depois, em 2005, e novamente em 2009, passou a ser secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, a partir do qual defendeu a entrada na NATO. Em 2007-2012 presidiu ao Conselho do Banco Central e em 2009-2010 foi ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Yulia Timochenko… o que não o impediria de assumir em 2012, durante nove meses, o ministério do Comércio e Economia no governo do presidente Yanukovich, depois deste ter destituído e mais tarde posto Timochenko na prisão. Finalmente, assinale-se que em dezembro de 2004 apoiou a “revolução laranja”, que permitiu a eleição de Yushchenko e, em novembro de 2013, o movimento popular da Maidán… Em suma, o presidente recém-eleito é um oligarca capaz de mudar de camisa a tempo e de utilizar os seus instrumentos políticos e mediáticos para incrementar o seu poder.
… e um movimento social paralisado
Como é que isto foi possível quando há apenas três meses havia centenas de milhares de pessoas a ocupar a Praça (“Maidán”) da Independência em protesto contra a tirania do oligarca Yanukovich e contra a corrupção, a pobreza e o poder absoluto da oligarquia? O grau de autoorganização do movimento de Maidán nunca foi muito avançado, refletindo o peso da atomização, a falta de uma cultura de organização e a recusa da política, identificada com o afã de enriquecimento da sociedade. O movimento não se dotou de uma direção eleita e por isso os partidos políticos da oposição e os pequenos grupos paramilitares da extrema-direita nacionalista, popularizados pelos media, conseguiram apoderar-se do governo e do parlamento, onde os deputados favoráveis a Yanukovich mudaram de camisa ou fugiram de Kiev.
O novo poder, débil, tratou de desviar o conflito para o âmbito étnico e lingiístico, contando para isso com o apoio da Rússia de Putin, que utilizou o mesmo método para apoderar-se da Crimeia e ressuscitar o nacionalismo grã-russo. Os bandos contratados por Yanukovich contra o movimento de massas (os “titushki”) e o aparelho repressivo e administrativo das regiões orientais e meridionais da Ucrânia puderam assim ocupar os edifícios administrativos na Crimeia e no Leste do país, onde proclamaram “repúblicas populares” atemorizando a população e fazendo-a acreditar que em Kiev governa uma “junta neonazi” que aterroriza quem se lhe oponha.
Convém assinalar que os candidatos da extrema-direita nestas eleições presidenciais, O. Tyahnybok, do partido Svoboda, e D. Yarosh, do Setor Direito, obtiveram respetivamente 1,16% e 0,7% dos votos emitidos, coisa que deveria fazer refletir os que viam na Ucrânia um ascenso do nazismo…
Convém assinalar que os candidatos da extrema-direita nestas eleições presidenciais, O. Tyahnybok, do partido Svoboda, e D. Yarosh, do Setor Direito, obtiveram respetivamente 1,16% e 0,7% dos votos emitidos, coisa que deveria fazer refletir os que viam na Ucrânia um ascenso do nazismo… Foi este início de guerra civil - entre um governo que confiscou a vitória popular da Maidán e os bandos armados pró-russos - que travou o desenvolvimento do movimento social, dividiu os protestos e permitiu a eleição de um oligarca à cabeça do Estado.
No entanto, Petro Poroshenko ainda não restaurou um Estado forte na Ucrânia. As medidas de austeridade impostas pelos credores ocidentais e aplicadas pelo governo de Kiev, o fim dos enfrentamentos nacionalistas - porque o grande capital ucraniano precisa de estabilidade - e as eleições legislativas anunciadas para o outono, se forem democráticas, podem trazer de novo as aspirações populares por cumprir ao primeiro plano da cena política.
Artigo de Jan Malewski publicado no portal do NPA. Tradução de Luís Branco