O filme chama-se “Especial de Natal: A Primeira Tentação de Cristo” e foi lançado no início de dezembro na versão brasileira da plataforma de streaming Netflix.
Ao longo dos 46 minutos de duração do especial, Jesus Cristo é apresentado como um homem homossexual que questiona a sua vocação para pregar a palavra de Deus.
Dias depois, na passada semana, foi criada uma petição no site Change.org onde se apela ao “impedimento” da publicação do especial da Porta dos Fundos “por ofender gravemente os cristãos". A petição ultrapassou em pouco tempo um milhão de assinaturas.
Para além da organização de uma petição, alguns líderes religiosos cristãos vieram a público criticar o filme e apelar ao boicote à Netflix. É o caso do bispo católico brasileiro Henrique Soares da Costa, que usou o Facebook para informar que tinha cancelado a subscrição do serviço da Netflix e apelar a que outros cristãos fizessem o mesmo, noticiou a agência Lusa.
"Em pleno tempo de preparação para o Natal do Senhor, a Netflix deu um bofetão no rosto de todos os cristãos, cuspiu na nossa cara, troçando da nossa fé. Certamente, instigada pela força demoníaca que tem inspirado tantos corações e mentes nestes tempos de neopaganismo, esta empresa ofereceu na sua programação como 'Especial de Natal' um filme blasfemo, vulgar e desrespeitoso (...) com a fé de todos os cristãos", escreveu o bispo.
"Como bispo da Igreja, eu exorto vivamente aos cristãos: neste Natal, proclame o seu amor, a sua fé, o seu respeito em relação a Nosso Senhor Jesus Cristo, mostre que o seu amor por Ele é real e ativo: cancele a assinatura da Netflix e lá, no menu apropriado, explique o motivo: 'desrespeito por Jesus Cristo', 'desrespeito pelo cristianismo'", escreveu no seu perfil do Facebook.
A @NetflixBrasil acaba de lançar um "Especial de Natal" onde Jesus Cristo (@gduvivier) é gay e tem relações com @FabioPorchat, além de se recusar a pregar a palavra de Deus
Somos a favor da liberdade de expressão, mas vale a pena atacar a fé de 86% da população? Fica a reflexão. pic.twitter.com/OtgLJ8ryGu
— Eduardo Bolsonaro (@BolsonaroSP) December 11, 2019
Eduardo Bolsonaro, filho do atual presidente do Brasil e deputado federal por São Paulo, também recorreu às redes sociais para criticar o especial de comédia.
ÓTIMO ponto https://t.co/4j6YhH9P3E
— Gregorio Duvivier (@gduvivier) December 12, 2019
Gregório Duvivier e Fábio Porchat, que no especial de Natal interpretam respetivamente Jesus Cristo e o seu namorado, já reagiram publicamente aos apelos à censura. Duvivier lembra que no especial de Natal de 2018 também satirizavam a figura religiosa sem que tivessem surgido quaisquer críticas, e que a diferença de um ano para o outro se devia ao facto de Jesus ter sido representado enquanto heterossexual no especial anterior. Já Porchat apela a que os críticos se foquem de igual forma nas desigualdades que existem no Brasil.
Gente, pode deixar que eu me resolvo com Deus, tá de boas, não precisa se preocupar não. Agora pode voltar a se indignar com a desigualdade que destrói nosso país. Mas tem que se indignar com o mesmo fervor, tá? ❤️
— Fabio Porchat (@FabioPorchat) December 11, 2019
Mas não foram só os cristãos a criticar publicamente a sátira humorística. A Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI) do Brasil, cujo objetivo passa pela defesa dos direitos e interesses da comunidade islâmica brasileira, divulgou publicamente uma nota de repúdio contra a Porta dos Fundos e a Netflix.
"É com imenso pesar que a ANAJI repudia a atitude do Porta dos Fundos e Netflix, que em vídeo deturpa a imagem do profeta Jesus e sua mãe, Maria. O artigo 5.º da Constituição brasileira deixa bem claro a proteção e respeito ao sagrado", cita a agência Lusa.
A ANAJI aponta ainda o caráter “relativo” da liberdade de expressão: "a liberdade de opinião e de expressão, também garantida pela Constituição, tem caráter relativo, podendo ser exercido tão somente dentro dos limites impostos pelo ordenamento jurídico, de maneira que não haja o desrespeito e o fomento de aversões ou agressões a grupos religiosos, caso contrário implica na tipificação de crime".