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Perguntas e respostas sobre Jair Bolsonaro

Afinal, de onde veio este homem que está à beira de ser eleito presidente da República do Brasil? Em que circunstâncias abandonou o Exército este militar de carreira? Qual a coerência do político que hoje acusa a Venezuela depois de ter dito que Hugo Chávez era uma pessoa ímpar? Que propõe para o país o candidato que admite não entender nada de economia? O Esquerda.net esclarece. Por Luis Leiria.
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro

Bolsonaro terminou a sua carreira militar muito cedo. O que se passou?

O capitão Jair Messias Bolsonaro passou à reserva depois de ter sido denunciado o seu envolvimento num plano terrorista que preparava a explosão de bombas de baixa potência em quartéis do Exército no Rio de Janeiro, na Vila Militar e na Academia de Agulhas Negras, e até na adutora de água Guandu, que abastece a cidade do Rio. O objetivo seria mostrar o descontentamento de militares quanto ao índice de reajuste salarial prestes a ser anunciado pelo ministro do Exército.

O capitão publicara um artigo na revista Veja, em setembro de 1986, afirmando que a tropa vivia numa “situação crítica no que se refere a vencimentos” e que a causa da evasão de mais de oitenta cadetes da Academia Militar eram os baixos salários. Em outubro de 1987, a Veja denunciou o plano terrorista, que tinha o nome de código “Beco sem saída”, de autoria de Jair Bolsonaro e outro militar, Fábio Passos.

O capitão Jair Messias Bolsonaro passou à reserva não-remunerada depois de ter sido denunciado o seu envolvimento num plano terrorista que preparava a explosão de bombas de baixa potência em quartéis do Exército no Rio de Janeiro
O capitão Jair Messias Bolsonaro passou à reserva não-remunerada depois de ter sido denunciado o seu envolvimento num plano terrorista que preparava a explosão de bombas de baixa potência em quartéis do Exército no Rio de Janeiro

O capitão negou tudo, acusando a Veja de apenas querer vender revistas, e o ministro do Exército deu-lhe cobertura, dizendo: “Eu conheço a minha gente”. Vivia-se sob a presidência de José Sarney. A revista reafirmou a denúncia e forneceu esboços do esquema de colocação das bombas feitos pelo próprio punho de Bolsonaro. E uma perícia da Polícia Federal foi inequívoca ao concluir que as anotações nos esboços eram mesmo dele.

Por unanimidade, o Conselho de Justificação Militar (CJM) considerou, em 19 de abril de 1988, que Bolsonaro era culpado e decidiu que fosse "declarada sua incompatibilidade para o oficialato e consequente perda do posto e patente, nos termos do artigo 16, inciso I da lei nº 5836/72". Os três coronéis que investigaram o caso consideraram que “O Justificante [Bolsonaro] mentiu durante todo o processo, quando negou a autoria dos esboços publicados na revista VEJA, como comprovam os laudos periciais.” E concluíram que o capitão “revelou comportamento aético e incompatível com o pundonor militar e o decoro da classe, ao passar à imprensa informações sobre sua instituição”.

Bolsonaro recorreu então ao Superior Tribunal Militar (STM) que, por 8 votos a 4, o considerou “não culpado” já que havia dois laudos inconclusivos em relação à autoria dos esboços. A decisão foi tomada em junho de 1988 e ainda nesse ano o capitão passou à reserva e candidatou-se a vereador da Cidade do Rio de Janeiro, começando a carreira política aos 33 anos.

 

Hoje, Bolsonaro demoniza a Venezuela e os seus governantes. Mas não foi ele que elogiou Hugo Chávez?

A expectativa de Bolsonaro era que Chávez fosse como o Marechal Castelo Branco, autor do golpe militar de 1964
A expectativa de Bolsonaro era que Chávez fosse como o Marechal Castelo Branco, autor do golpe militar de 1964

Não só o elogiou, como afirmava que o líder da Revolução Bolivariana era uma "esperança para a América Latina" e que gostaria que a sua filosofia chegasse ao Brasil. “Acho ele ímpar”, disse o capitão ao Estado de S. Paulo em 1999. A idolatria era tanta que Bolsonaro tencionava "ir à Venezuela e tentar conhecê-lo. Quero passar uma semana lá e ver se consigo uma audiência".

A expectativa de Bolsonaro era que Chávez fosse como o Marechal Castelo Branco, autor do golpe militar de 1964, e que o militar venezuelano fizesse "o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força".

 

O candidato anticomunista já elogiou o comunismo?

Parece incrível, mas é verdade. Na mesma entrevista, Bolsonaro responde assim à pergunta sobre o apoio dos comunistas a Chávez: “Ele não é anticomunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei quem é comunista hoje em dia", afirmou.

 

Se eleito, Bolsonaro vai combater a corrupção?

A primeira pergunta que se deveria fazer a um político com tantos anos de exercício de cargos públicos é: qual era o seu património quando começou a exercê-los? Qual é esse mesmo património agora?

Pois bem: quando foi eleito pela primeira vez para um cargo político, em 1988, Bolsonaro declarava ter um Fiat Panorama de 1983, uma moto do mesmo ano e dois lotes de pequeno valor em Resende, no interior no Rio de Janeiro, avaliados em pouco mais de 10 mil reais em valor atual.

Em 1988, Bolsonaro declarava ter bens avaliados em pouco mais de 10 mil reais em valor atual. Desde essa data até hoje, o deputado declarou apenas o salário de parlamentar e o que recebe do Exército como capitão na reserva. No entanto, nesse mesmo espaço de tempo, o seu património e o da sua família multiplicaram-se exponencialmente

Desde essa data até hoje, o deputado declarou apenas o salário de parlamentar e o que recebe do Exército como capitão na reserva. No entanto, nesse mesmo espaço de tempo, o seu património e o da sua família multiplicaram-se exponencialmente. Hoje, o candidato a presidente e os seus filhos possuem um património de 13 imóveis com preço de mercado de pelo menos 15 milhões de reais, a maioria em pontos altamente valorizados do Rio de Janeiro, como Copacabana, Barra da Tijuca e Urca, segundo levantamento da Folha de S. Paulo. Os bens dos Bolsonaro incluem ainda carros que vão de 45 mil a 105 mil reais, um jet-ski e aplicações financeiras, num total de 1,7 milhão de reais. Segundo a revista Época, a família Bolsonaro possui ainda pelo menos 30 lojas no Vale do Ribeira, região onde o capitão nasceu. Apesar de o salário de deputado ser generoso (para dizer o mínimo), nem este, nem o soldo de capitão na reserva seriam suficientes para acumular um património semelhante. A explicação também não pode vir dos filhos do capitão, três dos quais atualmente dedicados à política, com mandatos eletivos: Carlos foi eleito vereador no Rio de Janeiro, aos 17 anos, em 2000, sem património declarado; Flávio foi eleito deputado estadual do Rio de Janeiro de 2002, declarando como património um automóvel Gol 1.0, ano 2001; quando o filho Eduardo foi eleito deputado federal em 2014, o património da família já ascendia a cinco apartamentos, quatro casas, uma mota d’água, cinco carros e uma moto.

Depois de publicada a reportagem da Folha, Bolsonaro apenas respondeu indiretamente, num blog da família, falando em “calúnia”.

Além disso, o capitão esteve muitos anos dentro do PP, o partido de Paulo Maluf, um dos mais antigos símbolos da corrupção no Brasil (atualmente em prisão domiciliar) e não se lhe conhece qualquer incómodo nem qualquer denúncia quanto à corrupção endémica que reinava naquele partido. Recentemente, o deputado federal Onyx Lorenzoni admitiu ter recebido 100 mil reais em dinheiro da empresa JBS, como contribuição de saco azul (caixa 2) para a sua campanha, o que é totalmente ilegal. Um ex-diretor de relações institucionais da empresa afirma que o valor recebido pelo deputado foi maior: 200 mil reais. Ignorando a denúncia, Bolsonaro apontou Lorenzoni como o futuro chefe da Casa Civil do seu governo. Depois de tudo isto, parece claro que a única corrupção a que Bolsonaro pretende pôr fim é apenas aquela de que ele não se beneficia.

 

O capitão tem conhecimento dos dossiers essenciais da governação?

Julgue por si mesmo. Num país mergulhado numa profunda crise económica, com cerca de 13 milhões de desempregados, Bolsonaro confessou candidamente que não entende nada de economia. “Não entendo mesmo. Não entendo de medicina, de agricultura, não entendo um montão de coisa. Acho que temos que ter bom senso para governar. Foi o que falei para a equipe do Paulo Guedes.”

Desconhecedor dos temas mais básicos da economia, o capitão considera Guedes o seu “posto Ipiranga”. A referência é a uma campanha publicitária desta rede de distribuição de gasolina. No anúncio, um tipo saloio, meio sonso, meio bonachão, responde a qualquer dúvida com a frase “pergunta lá no posto Ipiranga”.

Assim, quando o candidato não sabe o que responder a questões específicas, como a taxação dos dividendos de aplicações no mercado financeiro, limita-se a passar a resposta para o economista.

 

Mas quem é esse Paulo Guedes?

É um economista ultraliberal, um dos fundadores do Banco Pactual, gestor de fundos de investimentos e empresas. Trata-se de um ferrenho defensor da privatização de todas as empresas estatais, incluindo a Petrobrás. “A União tem que vender ativo. A Petrobrás vende refinaria. E o governo pode vender a Petrobrás, por que não?” , disse.

Paulo Guedes – Foto Fernando Frazão/agência Brasil
Paulo Guedes – Foto Fernando Frazão/agência Brasil

Guedes também pretende reduzir o IRS dos mais ricos, com uma reforma tributária que isentaria todos os que ganham até cinco salários mínimos e aplicaria uma alíquota única de 20% a todos os que ganham acima desse valor. Defende também uma menor taxação sob os lucros de empresas.

Guedes defende também a contrarreforma da Previdência (Segurança) Social nos moldes da de Temer e a maior precarização do trabalho. As suas posições ajudaram a atrair o apoio dos mercados financeiros a Bolsonaro. É por isso que Bolsonaro muitas vezes aparece ao lado de Guedes nas emissões via net da sua campanha.

 

Quem, além de Guedes, faz parte da equipa de Bolsonaro?

Gustavo Bebianno - Foto Fernando Frazão/agência Brasil
Gustavo Bebianno - Foto Fernando Frazão/agência Brasil

O site informativo The Intercept Brasil publicou uma excelente reportagem sobre o tema, extremamente completa, que vale a pena ler na íntegra: Conheça a trupe de Bolsonaro. Por ela ficamos a saber que o responsável pela articulação política de Bolsonaro é o advogado Gustavo Bebianno, que até há dez anos vivia nos EUA, lutando jiu-jitsu e trabalhando como sócio de um integrante da família Gracie, lutadores brasileiros de ascendência escocesa onde figuram aqueles que são considerados os pais do jiu-jitsu brasileiro. Bebianno não sabe muito bem como foi parar na presidência do PSL: “Eu não sei o que eu tô fazendo aqui, nunca me envolvi em política, não entendo nada de política, não tenho perfil político, sou um cara impaciente. Não era para estar aqui, não era para estar aqui. É inexplicável”.

Onyx Lorenzoni – Foto Marcelo Camargo/agência Brasil
Onyx Lorenzoni – Foto Marcelo Camargo/agência Brasil

O coordenador da campanha é o deputado Onyx Lorenzoni que ficou famoso por bradar contra a elite política do país, dizendo que ela “apodreceu, perdeu credibilidade, perdeu o respeito do eleitor, da eleitora, do cidadão, do trabalhador”. Isto depois de ter sido revelada a famosa gravação entre Temer e a JBS, a empresa que distribuiu um forte manancial de luvas entre deputados, senadores e membros do governo. Mas um dia após essa declaração moralizadora, Onyx apareceu como recebedor de contribuições para o seu saco azul justamente da JBS.

Na equipa tem lugar cativo Alexandre Frota, ex-ator de novelas da Globo que também trabalhou como DJ, ator porno, cantor de funk, modelo, comediante, jogador de futebol americano Chegou a ser recebido em Brasília pelo ministro da Educação de Temer, e foi convidado por Bolsonaro para ser ministro da Cultura.

Na lista figura ainda Joice Hasselmann, jornalista famosa por ter plagiado mais de 60 textos escritos por 42 jornalistas, e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que é descendente de Dom Pedro.

E não esquecendo o general Mourão, candidato a vice-presidente, que defende o fim do 13º salário, a mudança da Constituição feita por um grupo de pessoas nomeadas pelo governo e admite a possibilidade de uma vez eleitos, Bolsonaro e ele darem um autogolpe, acabando com a democracia e as eleições.

 

É mesmo verdade que Bolsonaro é contra a democracia, defende a tortura e os assassinatos extrajudiciais, as ditaduras, é xenófobo, racista, misógino e homofóbico?

Como já tanto foi escrito sobre este tema, parece inútil escrever de novo. Veja Bolsonaro por ele mesmo, neste vídeo.

 

Que diz o capitão sobre os direitos dos trabalhadores?

Bolsonaro defende que é preciso que os trabalhadores aceitem ter menos direitos para que os empresários criem mais emprego. Daí a sua proposta original: a criação de uma “carteira de trabalho verde e amarela”. O seu guru da economia, Paulo Guedes, explica assim a proposta:

"Quem tiver 16 e 17 anos, pode escolher. Porta da esquerda: tem sindicato, legislação trabalhista para proteger, encargos. Porta da direita: contas individuais, não mistura assistência com previdência", afirmou Guedes. "Não tem encargos trabalhistas e a legislação é como em qualquer lugar do mundo. Se for perturbado no trabalho, você vai na Justiça e resolve."

Em resumo, a proposta é a precarização total: fim da proteção legal, contratos individuais para as novas gerações.

 

O capitão é um candidato antissistema?

Jair Bolsonaro conseguiu construir essa imagem por nunca ter exercido nenhum cargo de governo e nunca se ter candidatado à Presidência. O seu discurso radical de direita fala para os que estão contra “tudo o que está aí”, frustrados com anos de governos do PT e de polarização PT-PSDB.

Mas o capitão é o mais sistémico que se possa imaginar. Está na política há 30 anos, foi deputado por diversos partidos, na maior parte do tempo filiado ao PP, um dos centros de corrupção do país.

Acumulou fortuna nesses 30 anos em que viveu do erário público. O seu atual partido, o PSL, foi o que mais votou a favor das iniciativas do governo Temer, mais ainda do que o próprio MDB. Na verdade, dizer que Bolsonaro é antissistema é a maior de todas as fakenews.

Artigo de Luis Leiria para esquerda.net

 

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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