Pequenas Coisas Como Estas (título original Small Things Like These), de Claire Keegan, foi o livro escolhido para a última sessão de 2025 no Ler À Esquerda (clube de leitura). Obra finalista do Booker Prize e do Rathbones Folio Prize, e que obteve o Prémio Orwell de Ficção Política e o Prémio Kerry de Romance Irlandês do Ano.
A autora é reconhecida como uma grande escritora de histórias curtas, com uma escrita concisa, em que os silêncios e o não dito têm tanta importância e impacto nos e nas leitoras como as palavras ditas. Em entrevista ao The Booker Prizes (2022) salienta esta sua preferência na forma de escrita, “Há uma carta maravilhosa que Tchekhov escreveu ao seu irmão Alexander sobre o significado da graciosidade, como a graciosidade é quando se faz o mínimo de movimentos entre dois pontos – e esse tipo de prosa atlética sempre me atraiu, juntamente com a leveza e a contenção. Para mim, elegância é escrever o suficiente.”. [i]
A ação da novela passa-se numa pequena cidade irlandesa, New Ross, no ano de 1985, num ambiente dominado pela igreja católica e inspirando-se em acontecimentos verídicos, como nos é sugerido logo no início através da dedicatória da autora : “Esta história é dedicada às mulheres e crianças que foram mandadas para as casas de mães e bebés e para as lavandarias de Madalena da Irlanda” (p.5) [ii].
A história acompanha a vida de trabalho e familiar de Bill Furlong, um comerciante de carvão, de 40 anos, casado com Eilleen e pai de cinco filhas, e as reflexões, memórias e dúvidas que se vão instalando nos seus pensamentos. Põe em confronto a experiência de vida de Furlong, filho de mãe solteira, a cidade que se prepara para o Natal com os seus rituais religiosos católicos indiferente ao drama que se vive dentro dos muros do convento feminino que, com a cumplicidade das autoridades civis e eclesiásticas, esconde, aprisiona, maltrata e explora meninas e jovens mulheres que tiveram uma gravidez solteira.
Bill Furlong tem uma vida que parece organizada, o trabalho é duro mas tem muitas encomendas, especialmente neste período de Natal, tem o suficiente para o sustento da família e orgulha-se do que alcançou e das realizações das suas filhas.
Mas há um fundo de preocupação, de inquietação e de procura que vai crescendo ao longo da narrativa. Ele está grato pelo que tem, mas sabia que “Seria a coisa mais fácil do mundo perder tudo” (p. 13), compara a sua vida com a dos outros, vê a miséria à sua volta na cidade e nas estradas rurais, Afasta os seus receios, sentindo-se “mais determinado a seguir em frente, evitar problemas, ficar na boa estima das pessoas e contiuar provendo às sua filhas, vendo-as progredir e concluir seus estudos em St. Margaret’s, a única boa escola para as meninas da cidade.” (p.14)
Mas esta atitude de só se preocupar com o trabalho e com a família chocava de frente com as recordações de infância cada vez mais presentes nos seus pensamentos, no pai desconhecido, na mãe grávida aos 16 anos, e que “quando o problema se tornou conhecido e a família deixou bem claro que não queria ter mais nada a ver com ela” (p.9), foi graças à sra. Wilson, viúva protestante, que vivia num casarão a alguns quilómetros da cidade e com posses que manteve a sua mãe a trabalhar na casa e aceitou o bebé, que ele teve uma infância protegida, acesso a uma educação escolar, e que lhe deu alguns meios para começar a sua vida depois de casar. “O seu vínculo com o casarão dera-lhe certa margem de manobra, bem como certa proteção” (p.9), contrariando o destino das crianças nascidas ilegítimas.
Estas recordações, a sua experiência de vida, o ter sido amado, vai determinando o seu crescente questionamento sobre o sentido da sua vida, o que é ser cristão, o que é ajudar o próximo e alimentam o impulso que vai sentir de ajudar as meninas e as jovens com que se vai deparar no convento em situação penosa e a sua capacidade de se identificar com elas. Podia ter sido a sua mãe a estar ali, e o que lhe teria acontecido a ele?
A cidade prepara-se para o Natal, a luzes coloridas, as lojas, as compras e os presentes, o presépio na praça, o coro, as missas. Na família cumprem-se, também, os rituais de Natal, fazem-se os doces e o bolo de Natal, as meninas escrevem as cartas para o Pai Natal. Furlong sente-se distante, pensa que “Era sempre a mesma coisa, (...); prosseguiam mecanicamente, sem pausa, até à tarefa seguinte. Como seria a vida, ele se perguntou, se lhes fosse dado tempo para pensar, refletir sobre as coisas? Suas vidas seriam bem diferentes, ou mais ou menos a mesma coisa - ou só perderiam o rumo?” (p.16). Vai crescendo nele o desejo de uma outra vida, de um outro lugar. (p. 33)
Furlong não gostava de acreditar no que se dizia (p.26), mas uma noite em que foi fazer uma entrega de uma encomenda, entra no espaço do convento e chegou “a uma pequena capela iluminada, onde encontrou mais de um dezena de moças e meninas de quatro, diante de antiquadas latas de polidor de lavanda e de trapos, polindo o chão exaustivamente, em círculos.(...) E nenhuma delas usava sapatos – andavam de meias pretas e uma espécie de horroroso vestido largo cinzento.”(p.27). Uma das meninas, de cabelo cortado grosseiramente e com sotaque de Dublin, pediu-lhe ajuda para chegar ao rio, para sair dali, não tinha ninguém, tudo o que queria era se afogar (p. 27).
Furlong não consegue esquecer mais o que viu. Vai fazer uma segunda entrega ao convento num domingo de madrugada, ao abrir o depósito de carvão encontra uma jovem fechada nos meio dos seus excrementos, o que sugere que teria passado lá mais do que uma noite, de cabelo cortado grosseiramente, que mal se tinha de pé, descalça com as unhas dos pés compridas e pretas de carvão. Quis saber o seu verdadeiro nome, Sarah Redmond. Soube que tinha um bebé de 14 semanas que lhe foi retirado pelas freiras, desconhecendo onde estava e o que lhe aconteceu. Vê a forma como a Madre Superiora trata a jovem como se fosse reponsabilidade dela estar fechada no depósito de carvão e a situação não passasse de uma brincadeira, de um equívoco.(p.40)
A autora mostra o contraste entre alguma ostentação de zonas do convento com a pobreza da indumentária das meninas, intencionalmente desfeadas (p. 38). Também torna visível o quadro de valores da classe dominante nas ordens religiosas femininas, pelas palavras da Madre Superiora – a arrogância, a ameaça velada, a misogenia, considerando ser dececionante ter cinco filhas e nenhum filho homem para continuar o nome (p. 39) e xenofobia “O senhor não se importa em trazer os estrangeiros para cá. “(p.40). Furlong começa a desafiar o senso comum e a autoridade inquestionável da Madre Superiora, mostrando orgulho na sua origem e na sua mãe.
Apesar dos avisos que recebe de Eileen, “Se quiser subir na vida, há coisas que deve ignorar para poder seguir em frente” (p. 29), e da sra. Keohe que o aconselha a ter cuidado com as freiras, “há só uma parede separando aquele lugar de St. Margaret’s. (....). Elas pertencem a diferentes ordens (...), mas acredite em mim aquilo é tudo igual.”(pp.52-53) e apesar das suas próprias dúvidas, entre o desejo de segurança, de virar costas ao que viu e ir para casa e o sentir-se culpado por nada fazer, sente a necessidade de ajudar aquela jovem que cada vez mais identifica com a sua mãe.
Já não sente ser o seu lugar em nenhuma parte. Volta a casa “Com um novo tipo de relutância, vestiu então as suas roupas de domingo “ (p.42), vai à missa, “A missa, naquele dia, pareceu longa .” (p.44) , de novo em casa “ uma necessidade de ir embora se apoderou dele, que se imaginou lá fora sozinho em suas roupas velhas, caminhando por um campo escuro.” (p.45). Vai visitar o Ned, que não está em casa, fica a saber que provavelmente ele era o seu pai.
Tudo se encaminha para o final que já é previsível. É véspera de Natal e Furlong depois andar pela cidade e agir como era esperado, viu-se “caminhando de volta para o rio e em direção à ponte (...). ” (p.56), vai a pé até ao convento, dirige-se ao depósito de carvão onde encontra de novo a jovem como temia, diz-lhe que a vai levar para sua casa.
Voltam para casa a pé, há incómodo nas pessoas que o cumprimentam quando percebiam que não era uma das suas filhas, como menina da lavandaria continuava a ser invisível para toda a gente, “Nem uma única pessoa se dirigiu a Sara ou perguntou para onde ele a estava levando.” (p.59)
Sentindo uma enorme felicidade, um imenso medo e alguma esperança, Furlong está a chegar a casa. E assim termina a novela, com um fim em aberto, em que cabe aos leitores e leitoras imaginar o que poderia ter acontecido depois, quais as consequências da decisão pessoal de Furlong, para a sua mulher e para as suas filhas, para a jovem Sarah e para ele próprio. Mas não deixa de nos dar uma pista de reflexão e do caminho possível - “O pior ainda estava por vir, ele sabia. Já podia sentir um mundo de problemas esperando por ele atrás da próxima porta, mas o pior que poderia ter acontecido também já havia passado: a inação, o que poderia ter acontecido - algo com que teria que conviver pelo resto da vida” (p.60).
Da conversa sobre esta novela, outras ideias e associações vieram enriquecer os sentidos que demos a esta leitura. A descrição do frio intenso e do escuro do carvão, do rio e dos corvos, dando a dimensão do isolamento e do medo que silencia; a personagem de Eilleen, que não se esgota no preconceito e no fechar de olhos ao que se passa no convento, mas que com o seu pragmatismo assegura a gestão da casa, o bem estar das filhas e o seu futuro; a articulação entre capitalismo, patriarcado, instituições da igreja católica e as conceções religiosas assentes na ideia de inferioridade das mulheres e no conceito de “mulheres caídas”, para justificar a exploração do trabalho forçado e gratuito destas mulheres assim como o negócio das adoções dos seus bebés; a existência de instituições idênticas noutros países de pendor católico ou protestante e também ao serviço do poder colonial.
Mas fundamentalmente a interrogação de como foi possível a permanência destas instituições até 1996 na Irlanda , data do encerramento da última Lavandaria Madalena?
Claire Keegan dá-nos algumas informações na nota sobre o texto que publicou no fim da novela (pp. 61-62) apontando para uma estimativa de cerca de 30 mil meninas e mulheres que foram encarceradas e forçadas a trabalhar nestas instituições.
No site Justice for Magdalenes Research[iii] encontramos informações mais pormenorizadas sobre o seu funcionamento na República da Irlanda, entre 1922 e 1996, geridas por quatro ordens religiosas e financiadas pela Igreja Católica e pelo Estado.
Concluo que estas instituições foram uma forma de poder exercido por mulheres de ordens religiosas, que assumiam os valores patriarcais e misógenos da sociedade e da Igreja católica, sobre outras mulheres, exercendo um poder delegado pelo poder judicial, pelas autoridades civis e eclesiáticas, hospitais psiquiátricos e pelas próprias famílias que abandonavam estas jovens e mulheres, por temor do escândalo relacionado à maternidade solteira e à ilegitimidade, ao abuso sexual, ao incesto, à violência doméstica, à deficiência e à doença mental. Eram as vítimas que eram punidas e escondidas.
Tinham poder económico, geravam negócios comerciais e lucrativos, principalmente lavandarias e bordados, usando a exploração do trabalho não remunerado das meninas e mulheres, recebiam encomendas de padres, hospitais, prisões, casas de gente abastada, restaurantes e pensões, casas de repouso; a que se acrescenta o negócio das adoções de bebés para os Estados Unidos e Austrália.
Exerciam um poder punitivo e carcerário sobre as mulheres consideradas “promíscuas”, mas também as enviadas pelo sistema judicial, usavam a violência física e psíquica, obrigando-as a viver com o mínimo, tirando-lhes tudo, dos seus bebés recém nascidos ao seu nome, isolando-as, até se esquecerem de si própias, de quem são, perderem a sua individualidade e autoestima.[iv]
Hoje já não existem estas lavandarias de Madalena, mas quanto destes valores permanecem no nosso tempo, em ideias e práticas, mesmo só falando das sociedades ditas ocidentais ?
A atuação individual, o ato de consciência ou de redenção de que nos fala esta novela é importante, mas só com ação coletiva enfrentaremos as permanências e os novos ataques aos direitos das mulheres.
Notas:
[i]Em https://thebookerprizes.com/the-booker-library/features/claire-keegan-interview-small-things-like-these (consultado em 15/12/2025).
[ii]Foi usada a edição brasileira da obra : Pequenas Coisas Como Estas (2024), Belo Horizonte : Relicário Edições. Todas as páginas referidas estão de acordo com esta edição.
[iii]Em https://jfmresearch.com/home/preserving-magdalene-history/about-the-magdalene-laundries/ (consultado em 18/12/2025).
[iv]Idem.