O Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental foi lançado esta terça-feira na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Trata-se de uma investigação feita em colaboração entre o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) e o Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade (CHANGE) e em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que avaliou o risco de extinção de mais de 800 espécies de insetos, aranhas, gastrópodes, bivalves e crustáceos e as conclusões são preocupantes: pelo menos mais de 200 espécies de invertebrados correm risco de extinção em Portugal.
Os investigadores realçam que o número de espécies ameaçadas pode ser ainda maior porque sobre outras 200 das estudadas não foi possível apurar informações sobre o seu estado de ameaça. Em Portugal estima-se haver mais de 20 mil espécies de invertebrados.
Entre as espécies ameaçadas, várias “apresentam distribuições geográficas muito restritas ou são altamente especializadas no seu habitat, pelo que se encontram muito vulneráveis a alterações ambientais e a outro tipo de pressões”. Ou seja, algumas delas, para além de só existirem em Portugal, também só marcam presença em áreas bastante limitadas. Exemplo disto são a aranha-cavernícola-do-Frade (da espécie Anapistula ataecina que só existe no sistema cavernícola do Frade, na Arrábida), o caracol Xeroplexa coudensis (que vive apenas no vale da Couda, em Leiria), o camarão-girino (Lepidurus apus que só se encontra num charco em Ponte de Lima) e a abelha Halopanurgus baldocki (que só vive em algumas zonas de sapal do Algarve).
Somando isto ao facto de que em Portugal apenas 14 espécies de invertebrados terrestre têm estatuto de proteção ao abrigo da diretiva Habitats, é necessário “que as medidas e estratégias de conservação sejam efetivas e adequadas ao nosso território e que contribuam para o esforço internacional de travar a perda de biodiversidade a nível mundial”.
No mesmo documento, os especialistas realçavam que os invertebrados são “a face oculta” da crise da biodiversidade. Uma face “geralmente ignorada” mas cujo desaparecimento terá “graves consequências em processos ecológicos importantes, como a polinização, a reciclagem de nutrientes ou a dispersão de sementes, podendo, em casos extremos, levar ao seu colapso”.
Em declarações citadas pelo Público, Carla Rego, coordenadora executiva do projeto e investigadora do cE3c, salienta que “ainda temos muitas lacunas de conhecimento sobre a sua abundância, distribuição, ecologia e as ameaças que enfrentam no nosso território”.
Também a este jornal, Mário Boieiro, coordenador científico do estudo e investigador do cE3c da Universidade dos Açores, destacou que estes invertebrados enfrentam diversas ameaças: “a maioria encontra-se ameaçada pela diminuição ou destruição do seu habitat em resultado de atividades humanas, sendo alguns dos fatores apontados o desenvolvimento urbano, turístico, a intensificação das práticas agrícolas e florestais”. O investigador defende que é preciso criar micro-reservas, recuperar habitats, adotar práticas e sistemas de produção agrícola e florestal mais sustentáveis, controlar a poluição e realizar acções de divulgação e educação ambiental.