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Pedro Lamares estreia podcast esta terça à noite

Como se desenha uma casa? O episódio piloto de “um possível podcast” de Pedro Lamares estará alojado a partir das 21h30 numa plataforma criada pela comunidade jesuíta Brotéria. O primeiro convidado é o seu próprio pai.
Pedro Lamares. Fotografia de Vitorino Coragem
Pedro Lamares. Fotografia de Vitorino Coragem

"Como se desenha uma casa"? Sai hoje, terça-feira, o episódio piloto de “um possível podcast” de Pedro Lamares que estará alojado na plataforma Aos Vossos Lugares, criada para este momento de pandemia pela comunidade jesuíta Brotéria.

Os convidados serão sempre íntimos, próximos, que poderiam estar na sua sala - e o estarão virtualmente - não necessariamente em sintonia de voz e em formalidade de conversa, mas antes de recortes, passagens, espectros, micro-história. São menos as pessoas e mais as suas histórias que são convocadas. É nesse espírito que Pedro Lamares convida, invoca para este primeiro episódio o seu próprio pai, Gustavo, num reencontro possível que promete música, textos e, como sempre, poesia. 

Pedro Lamares com o seu pai

O modelo de encontros entre amigos sob o título de Pina “Como se desenha uma casa?” foi criado para o encerramento de campanha legislativa do Bloco de Esquerda no Porto, quando Pedro Lamares convidou seis artistas e amigos para o palco do Cinema Passos Manuel. A ideia está pronta já para ser reproduzida noutros lugares e com outros convidados amigos, ainda que para já, e por força das circunstâncias, tenha de surgir em modelo online. Assim se metamorfoseia em episódio piloto de algo parecido com um podcast. Por enquanto não há promessas de regularidade. Apenas que será um nascimento, em experiência ou tentativa, sem qualquer constrangimento temático e com toda a liberdade. 

Foi na última edição dos seus Diários de Quarentena (que já vai no 17º episódio e evolui agora para outra coisa) que Pedro Lamares anunciou a construção desta nova sala numa casa de cultura jesuíta, a convite do seu amigo João Sarmento.

João Sarmento - (quase ordenado) padre, licenciado em filosofia e em escultura, mestre em teologia, cabeça questionante - pertence a uma comunidade jesuíta bastante particular, uma Casa de Cultura chamada Brotéria e sediada no Bairro Alto em Lisboa. O local foi sede da revista de botânica com o mesmo nome, agora recuperado para um novo centro cultural onde, e podemos ler no site, “as culturas urbanas contemporâneas e a fé cristã se cruzam”. No centro cultural que é comunidade jesuíta (e que é encontro e que é revista ainda) a religião dialoga com cultura, filosofia e pensamento crítico, sempre com a maior das liberdades. 

É desta comunidade e em contexto de confinamento que surge o site Aos Vossos Lugares, que convida dezenas de artistas com intervenções que passam pela música, performance, texto, vídeo, pintura, sob o mote “Cada um ao seu lugar, até que os nossos lugares possam voltar a ser o mesmo.” Convidados a entrar neste lugar foram Miguel Guilherme, Inês Lopes Gonçalves, Raquel Morão Lopes, Frederico Dinis, Paulo Pires Do Vale, Moreno Veloso, Kalaf Epalanga, Joana Bernardo, Gonçalo M. Tavares, Capicua, Salomé Lamas, Eurico Carrapatoso, Marco Mendes, Chapitô, Ana Luísa Amaral, Musa Paradisiaca e, claro, Pedro Lamares. 

Vale a pena gastar algum tempo a percorrer este lugar. 

Aos vossos lugares! Lá estaremos hoje.

 

COMO SE DESENHA UMA CASA

O último livro de poemas de Manuel António Pina lança a escada: como se desenha uma casa? Desenha-se de amigos, ideias, poemas, utopias, música, vinho. Desenha-se a casa dentro e fora de casa. Na casa cidade, na casa de afectos, na casa que desejamos de encontro às cores do mundo porque é assim que o queremos habitar. Como ‘aos amigos’ de Herberto Helder, "não os chamo e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio, de paixão".

Desenhemos a primeira forma: simples, geométrica, segura, salvaguardando janelas para olhar o mundo. Depois o telhado, para que a imprevisível beleza do céu seja uma escolha. E uma porta, claro. A maravilhosa passagem. Finalmente, uma árvore. A exuberância do que, sendo fora, também conta alguma coisa sobre nós, de alguma forma. Uma casa aberta a quem vier por bem, indiferente a credos, ideologias, origens ou outros detalhes com que sustentamos a frágil aranha a partir da qual olhamos o mundo. Os traços que nos definem, entre o dentro e o fora, onde nos enredamos até ao conforto de uma imobilidade elástica. E assim vamos sorrindo à inevitabilidade de que as definições convidam a limites, medos, e outras humanidades patuscas que mais fecham janelas do que lançam escadas. Que mais levantam muros do que pontes.

“Brotéria, cristianismo e cultura” é um espaço físico, uma revista e uma comunidade – provavelmente na ordem inversa, se houvesse alguma. Uma casa afectos, liberdade, reflexão e espiritualidade – aquela palavra que atrai ou repele com a mesma pujança. Uma Távola para os que normalmente não se sentam à mesma mesa. Um convite à criação e usufruto de artes plásticas, música, teatro, literatura, pensamento político, filosofia... Um lugar de reflexão histórica assente na contemporaneidade e nas mudanças. No futuro

“Aos vossos lugares” é um projecto da comunidade da Brotéria, lançado nestes “dias de inquietação que são pura novidade”. “Lembra-nos que aquilo que fazemos, lemos, vemos e ouvimos continua a poder ser um remédio para o desassossego”. “Como se desenha uma casa” é um podcast feito por mim, Pedro Lamares, a olhar o mundo desde o apartamento onde vivo para esta outra casa. Maior, porque mais aberta aos outros. Cantando como a cigarra, atiro este mínimo tijolo com que desejaria ajudar a servir a ponte. E como a formiga, preciso dos amigos para a construir, porque “estes não são lugares passivos de observação onde tudo ficará na mesma. São lugares que transformam. Porque quem não junta, dispersa.”

O primeiro amigo que convido é o meu pai. Gustavo. O homem que me deu a voz e a vontade de a usar mais junto ao meu, ao nosso, aos vossos lugares. “Cada um ao seu, até que os nossos lugares possam voltar a ser o mesmo”. A casa é nossa.

 

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