Passos pressionou juízes numa festa ao som de vaias

17 de agosto 2013 - 13:25

No discurso na festa do PSD em Quarteira, o primeiro-ministro voltou a responsabilizar o Tribunal Constitucional pelas consequências dos prováveis chumbos de algumas medidas que prometeu à troika. A Comissão de Utentes da Via do Infante marcou presença junto ao comício, protestando com vaias e apelos à demissão do Governo. Para a deputada bloquista Cecília Honório, Passos deixou a garantia de que o próximo ano será ainda pior.

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Discurso de Passos teve receção mais efusiva do lado de fora do comício do que nas mesas dos apoiantes...

As vaias do grupo de utentes que alerta para as consequências da introdução das portagens na A2 - com o aumento brutal das mortes nas estradas alternativas e o prejuízo económico que trouxe ao Algarve - foram bem audíveis durante todo o discurso de Passos Coelho, que acabou mesmo por se referir aos protestos já na fase de conclusões. 

E os assobios até acabaram por ser a receção mais "quente" do público que ouviu Passos Coelho durante 45 minutos. Apesar das mesas do jantar no calçadão de Quarteira estarem cheias de candidatos e apoiantes do PSD, os comensais raramente aplaudiram o líder do partido, à medida que Passos os ia tentando convencer de que "não é possível fazer outro caminho" ou que "nenhuma consequência política nacional advirá do resultado das eleições autárquicas". Passos baixou as expetativas dos militantes, recusando comparações com o resultado "verdadeiramente extraordinário" do PSD nas autárquicas de 2009 e garantindo que uma vitória para o partido será manter a presidência da Associação Nacional de Municípios.

O discurso do primeiro-ministro ficou marcado pelo aproveitamento dos indicadores económicos do segundo trimestre do ano, revelados poucos dias antes, para responsabilizar antecipadamente o Tribunal Constitucional pela quebra futura desses indicadores. "Qualquer decisão constitucional não afectará simplesmente o Governo. Afectará o país. Esses riscos existem, eu tenho que ser transparente. Se esse risco se concretizar alguns dos objectivos terão que andar para trás”, afirmou Passos, numa altura em que, segundo revela este sábado o semanário Expresso, no Governo já é ponto assente que pelo menos os novos cortes para os reformados nunca terão luz verde dos juízes do Palácio Ratton. Para além desta medida, também a do despedimento massivo de funcionários públicos sob a capa da "requalificação" já foi entregue ao TC por Cavaco Silva, e o aumento do horário de trabalho para lá seguirá por iniciativa das bancadas parlamentares da oposição.

A par do "risco constitucional", a expressão de Passos que marcou este comício, o primeiro-ministro falou igualmente do "risco social" que os cortes recessivos que propõe irão causar ao Governo que lidera. Criticado por nunca falar do desemprego nos seus discursos, Passos quis emendar a mão nesta 'festa do Pontal', mas acabou por lhe sair um apelo algo desastrado para que os desempregados se empenhem mais em "criar valor para a economia". Logo em seguida, agradeceu aos reformados, a quem se prepara agora para tirar mais um mês e meio de pensão por ano, por terem gasto uma parte cada vez maior das reformas a ajudar os filhos e netos que foram o alvo das políticas de austeridade dos últimos anos. 

 

Cecília Honório: "O país pode esperar um ano muito pior do que o ano que passou"

A primeira reação do Bloco de Esquerda ao discurso da rentrée do PSD veio da deputada eleita pelo Algarve. Cecília Honório destacou "duas garantias" deixadas por Passos Coelho: a primeira foi a de "assumir uma guerra aberta com o regime constitucional, ao dizer claramente que entende que a Constituição é um empecilho ao corte dos salários e das pensões e ao plano de despedimentos de funcionários públicos". A segunda garantia dada pelo primeiro-ministro "é que o próximo ano vai ser pior", acrescentou. A deputada do Bloco sublinha que Passos Coelho "deixou um compromisso claro em continuar com a política de austeridade e os sacrifícios e uma vontade imparável de cortar pensões e salários e preparar o despedimento de milhares de funcionários públicos".

"Como é possível que numa democracia nós tenhamos um primeiro-ministro que não vê a Constituição como um quadro de garantias e direitos fundamentais mas sim como um empecilho e uma ameaça aos cortes que quer fazer a qualquer preço", interrogou-se a deputada do Bloco. Já sobre as perspetivas para a saída da crise, Cecília Honório notou que Passos Coelho "disse uma coisa e o seu contrário", nalgumas partes do discurso em tom de celebração pelo abrandar da recessão no segundo trimestre, noutras partes em tom mais pesado, avisando que a recessão vai continuar . Já sobre o balanço feito pelo primeiro-ministro do último ano de mandato, a deputada bloquista assinala que "quando nos disse que o país comeu o pão que o diabo amassou, esqueceu-se dizer que esse pão foi amassado pelo Governo".

Em conclusão, a deputada deixou também uma garantia: a de que "o Bloco de Esquerda estará contra esta política violenta de cortes e de ataque à Constituição. Estaremos no parlamento e nas ruas em defesa dos trabalhadores e dos pensionistas que trabalharam uma vida inteira e em defesa destas funções nobres do Estado Social, como o acesso ao SNS e à Escola Pública, porque são elas que qualificam a democracia".