Paquistão: Após a prisão de Imran Khan, o que se segue?

13 de maio 2023 - 17:42

As divergências de Imran Khan com os militares em questões fundamentais, como a economia, as relações Índia-Paquistão e o governo talibã no Afeganistão, parecem ter contribuído para a sua queda. E a sua estratégia aventureira para evitar a detenção fez ricochete, colocando o seu partido em fuga. Por Farooq Tariq.

PARTILHAR
Apoiantes do ex-primeiro-ministro Imran Khan erguem cartaz com a sua fotografia.
Apoiantes do ex-primeiro-ministro Imran Khan erguem cartaz com a sua fotografia. Foto de Shahzaib Akber/EPA

A situação no Paquistão é altamente instável e volátil, com as crises políticas e económicas a intensificarem-se e a agravarem-se mutuamente. A recente detenção de Imran Khan [NT: libertado esta sexta-feira sob fiança por ordem do Supremo Tribunal após dois dias preso], antigo primeiro-ministro e líder do partido Pakistan Tehreek Insaaf [PTI, Movimento Paquistanês pela Justiça], desencadeou reações violentas por parte dos seus apoiantes, que levaram a ataques contra instalações militares e edifícios civis. Os militares, que anteriormente tinham apoiado Khan, mostraram contenção face à violência, mas também prometeram tomar providências judiciais contra os envolvidos nos ataques.

Imran Khan chegou ao poder nas eleições gerais de 2018, que foram alegadamente manipuladas a seu favor pelo establishment militar. A relação entre ambos foi interrompida após 2020 devido a vários factores. A personalidade de Khan era mais egocêntrica e egoísta, o que levou a confrontos com os generais do exército sobre a nomeação de altos funcionários. Além disso, a economia não estava a crescer, o que provocava pressões económicas crescentes de ambos os lados. Embora Khan se recusasse a normalizar as relações com a Índia, o comandante-chefe militar considerava-o uma estratégia fundamental. Khan também tinha uma visão favorável do governo talibã no Afeganistão e tentou aproximar-se do chefe do ISI [serviço de informações] para dividir a lealdade do exército. Khan repatriou mais de 5.000 talibãs paquistaneses do Afeganistão sob o pretexto de reabilitação, uma ação a que se opuseram os generais. Era favorável a negociações com o governo talibã no Afeganistão, o que levou alguns a especular que pretendia tornar-se uma versão dos talibãs melhor do que a original.

As divergências de Imran Khan com os militares em questões fundamentais, como a economia, as relações Índia-Paquistão e o governo talibã no Afeganistão, parecem ter contribuído para a sua queda. A sua estratégia aventureira para evitar a detenção fez ricochete, provocando detenções generalizadas de militantes do seu partido e a sua fuga. Na sua tentativa de se tornar novamente primeiro-ministro, Khan dissolveu os seus próprios governos provinciais no Punjab e em Khyber-Pakhtunkhwa - duas importantes províncias da federação paquistanesa -, mas as suas iniciativas foram frustradas pelo atual governo e pelo establishment militar, ao adiarem as eleições.

O que se passou até agora?

A 9 de maio, dia em que Imran Khan foi preso, foram mortas dez pessoas e a maior parte do país, incluindo as auto-estradas, permaneceu encerrada. Esta resposta violenta bem planeada, como alega o atual governo, foi o resultado das instruções de Imran Khan aos seus líderes e quadros. O governo alega ainda que Imran Khan esperava desencadear uma resposta violenta por parte do poder militar, pedindo aos seus apoiantes que os confrontassem diretamente. O seu plano, como sugere o Governo, era desestabilizar o regime ao ponto de os militares assumirem o controlo do Governo e declararem a lei marcial.

A 10 de maio, os militares emitiram um comunicado de imprensa declarando o dia 9 de maio como o dia negro da história do Paquistão, anunciando uma resposta moderada ao incêndio dos seus edifícios e avisando que não tolerariam quaisquer ataques futuros. Foram igualmente instauradas ações judiciais contra as pessoas envolvidas nas manifestações violentas.

Em todo o Paquistão, foram efetuadas detenções maciças de activistas do PTI, tendo sido detida a maior parte dos principais dirigentes do partido. Ao abrigo da legislação antiterrorista, foram registados casos de homicídio e de tentativa de homicídio. O partido PTI está agora a pagar caro a sua estratégia aventureira para contrariar a detenção do seu líder, e o partido está em fuga. No entanto, pequenos grupos de apoiantes do PTI continuam a incendiar veículos sempre que possível, mas a reação em massa à detenção desapareceu.

O que está para vir?

Com a crescente utilização da violência e a intervenção dos militares nos assuntos civis, parece que o futuro das forças democráticas no Paquistão não augura nada de bom. Com a desculpa de manter a lei e a ordem, o controlo dos militares sobre os assuntos civis vai aumentar. O asfixiamento da dissidência continuará, a liberdade de expressão será criminalizada e as classes trabalhadoras do país serão ainda mais empurradas para a pobreza.

É preciso notar que não existe qualquer contradição fundamental entre Imran Khan e o poderoso establishment militar do Paquistão. Khan está simplesmente a tentar persuadir ou coagir o establishment militar a levá-lo de volta à sede do poder. Para o fazer, no seu anterior governo, Khan tentou reforçar os militares. O seu governo aprovou uma célebre lei que criminaliza qualquer crítica às forças armadas e que está agora a ser utilizada contra ele. Durante o seu mandato como primeiro-ministro, utilizou o organismo de controlo anti-corrupção do Paquistão, o National Accountability Bureau, para perseguir os seus opositores. Hoje, o mesmo NAB está a ser utilizado contra ele.

O colapso da economia, associado ao coronavirus e às catástrofes climáticas, conduziu a uma pobreza e a uma desigualdade graves no Paquistão. A aplicação de políticas neoliberais e o domínio dos militares na vida civil são suscetíveis de reduzir ainda mais o espaço democrático e de agravar a pobreza e a desigualdade no país. É provável que sejam as pessoas comuns a suportar o ónus das lutas pelo poder e das crises políticas no país.

As disputas palacianas entre a elite política e o poder militar do Paquistão agravaram as condições económicas do país. O reforço das forças democráticas exigiria uma revisão completa do sistema, incluindo políticas que favorecessem o povo. A elite paquistanesa consome 27 mil milhões de euros de subsídios para manter o seu estilo de vida. Qualquer força política que não ponha em causa esta desigualdade gritante continuará a estar em conluio com o poder militar, aumentando a pobreza económica do seu povo.


Farooq Tariq é o Secretário-Geral do Comité Kissan Rabita do Paquistão, uma rede de 26 organizações de agricultores e membro da coligação da plataforma internacional La Via Campesina. Artigo publicado em Europe Solidaire Sans Frontières. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

Termos relacionados: Internacional