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Mesmo tendo ficado de fora da votação da segunda volta para a Prefeitura de São Paulo, o candidato Pablo Marçal (PRTB) será reconhecido como o grande fenómeno político destas eleições. Que merece ser observado para além dos resultados eleitorais imediatos que obteve e dos desvios éticos antigos e recentes.
Em consequência da divulgação, pouco antes da primeira volta no final de setembro, de um laudo forjado acusando o seu adversário Guilherme Boulos (PSOL) de ser utilizador de drogas, o candidato poder-se-á tornar inelegível em futuras disputas eleitorais. Ainda assim, uma parcela considerável da população sentiu-se representada pela figura do ex-coach e o seu discurso que alinha aspetos religiosos, disciplina militar e métodos de desenvolvimento pessoal.
A emergência de Marçal evidencia que há mais espaços, anseios e públicos em disputa no eleitorado brasileiro a serem identificados. É necessário analisar essa nova dinâmica no cenário político neste momento em que identidades e narrativas estão em transformação.
A presença e atuação de Marçal no campo chamado de nova direita, extrema-direita ou direita populista no Brasil revela, por exemplo, que parte desse segmento evoluiu para um posicionamento mais autónomo em relação ao ex-capitão Jair Bolsonaro (PL). Vê-se que há oportunidades para novas lideranças que possam, inclusive, contrariar o ex-presidente.
Diferente de outros atores políticos que se distanciaram de Bolsonaro moderando o seu discurso e deslocando-se para o centro (como o ex-juiz Sérgio Moro, os ex-deputados Alexandre Frota e Joice Hasselmann e o ex-governador de São Paulo João Doria), Marçal radicalizou. Dobrou a aposta no radicalismo anti-sistema, muitas vezes indo além do próprio bolsonarismo no que diz respeito à rejeição das instituições estabelecidas. E, obviamente, divulgou as suas posições por meio de uma muito bem montada estrutura de redes sociais. Estes elementos fizeram toda a diferença para que Marçal pudesse sobreviver e ter vida própria além de Bolsonaro.
O ex-coach distingue-se das outras figuras da direita brasileira por fundamentar seu discurso na fusão de três pilares: a religiosidade evangélica calçada na teologia da prosperidade, o desenvolvimento pessoal orientado para o empreendedorismo (que, no universo coach, mistura elementos de pseudo-ciências como a PNL e exercícios práticos de tradições da Psicologia) e a ética militar. Este trio de influências cria uma narrativa onde a fé, a disciplina rígida e o desenvolvimento pessoal constituem a fórmula para a prosperidade.
O candidato escancarou também que o eleitor evangélico não segue cegamente a indicação política dos seus pastores. Mesmo com todo o esforço das lideranças religiosas de grandes Igrejas, as sondagens identificaram que boa parte dos evangélicos se recusou a apoiar Ricardo Nunes (MDB) e preferiu Marçal.
Neste aspeto, novamente, Marçal apresentou-se como o mais genuíno representante do segmento religioso cristão. O atual prefeito e candidato Nunes é católico, enquanto Marçal é evangélico. Para se afirmar, o ex-coach utilizou vários elementos da linguagem e da visão de mundo evangélica na sua campanha. Anunciou que estava a fazer jejum, citou muitos versículos bíblicos, comparou-se a personagens da Bíblia e alinhou-se a bandeiras evangélicas, como a oposição à “ideologia de género” e ao aborto.
Prosperidade, disciplina militar e religião
O movimento religioso criado por Marçal, denominado Quartel-General do Reino (QGR), não é definido como uma Igreja, mas sim como uma espécie de comunidade que se reúne em células, gerando uma estrutura menos hierárquica e mais descentralizada. Essa configuração permite uma conexão mais íntima com os seus seguidores.
As reuniões ocorrem em salões, casas, associações e espaços improvisados. Este formato também dispensa a necessidade de um grande público para que os encontros sejam viáveis. Ao contrário do que acontece com os templos gigantescos, que possuem alto custo e, se vazios, geram imagens desastrosas em termos de marketing.
A partir dos seus Quartéis-Generais do Reino, Marçal afirma e propaga uma forma inovadora de religiosidade e prática política, em que a ligação direta com Deus e a responsabilidade pessoal são enfatizadas, sem a necessidade de intermediários tradicionais, como pastores. Essa visão desafia o status das lideranças evangélicas estabelecidas, criando tensões no campo religioso brasileiro.
O posicionamento agressivo do pastor-empresário e político Silas Malafaia, que durante a campanha e principalmente após o primeiro turno das eleições atacou todo o campo bolsonarista que não condenou veementemente Marçal, é um forte sinal de que as lideranças religiosas institucionalizadas se sentem ameaçadas pelo surgimento de um tipo de religiosidade que disputa com as velhas lideranças o próprio mercado religioso.
O caráter militar de Marçal está presente na disciplina e na forma como ele organiza os seus seguidores. A sua mensagem enfatiza rigor, compromisso e determinação como elementos essenciais para alcançar o sucesso – seja ele financeiro ou espiritual.
A promessa vai além da vida eterna ou da salvação: o ex-coach sustenta a ideia de que os seus seguidores podem transformar as suas vidas aqui e agora, através de uma combinação de fé, esforço pessoal e treino psicológico.
A combinação de promessas religiosas com o discurso da prosperidade, frequentemente associado ao sucesso pessoal e financeiro, ressoa fortemente nos setores mais vulneráveis da população.
Especialmente entre os evangélicos de baixo rendimento, a narrativa de prosperidade é uma abordagem muito acolhedora e envolvente. Marçal repete incansavelmente que, com fé e disciplina, o sucesso é possível na vida terrena. Isso ressoa com as aspirações de jovens periféricos que, muitas vezes, não veem no mercado de trabalho tradicional uma via de ascensão.
A possibilidade de ascensão social pelas vias tradicionais (educação ou carreira) mostra-se, afinal, a cada dia mais inacessível. O “sonho do trabalhador”, que envolvia a ascensão pelo trabalho em postos da indústria ao longo do tempo, já não é uma possibilidade há décadas. A precarização do trabalho e as perda de força do ensino superior como motor de mobilidade social ajudaram a destruir os horizontes. Neste cenário, são as redes sociais que vendem sonhos. Nelas, jovens são expostos a apostas, plataformas e estratégias que prometem enriquecimento. Muitos, nesse contexto, sonham com a carreira de influenciadores.
O apelo a uma revolta contra o sistema político tradicional também ecoa nessas camadas sociais, que são diretamente atingidas pela ineficácia do Estado para solucionar desde questões relacionadas com a sobrevivência como relativas à mobilidade social. Pois em vez de uma mudança sistémica, Marçal acena com a ideia de uma mudança pessoal radical como solução.
O futuro político a Deus pertence?
A ascensão de Marçal e o possível aparecimento de novas figuras com abordagens similares pode marcar o início de uma nova fase na política brasileira. Embora ele tenha saído da corrida à prefeitura por pouco, por um erro de campanha (na verdade, um crime eleitoral), o fenómeno que representa está longe de ser encerrado.
O crescimento de movimentos como o QGR sugere que existe um público, principalmente entre os mais pobres e jovens, que busca alternativas fora do espectro tradicional. Com a institucionalização do bolsonarismo em partidos como o PL e os Republicanos, o espaço para uma nova direita, mais radical, pode estar a ser preparado.
O avanço de Marçal e dessa proposta depende da capacidade do ex-coach de manter o vínculo emocional e espiritual com os seus seguidores, ao mesmo tempo em se afirma como uma liderança que contesta as estruturas políticas e religiosas tradicionais.
A questão agora é se veremos novos “Marçais” emergirem no cenário político brasileiro. O seu modelo de liderança – anti-sistema, disciplinado e messiânico – parece ser apenas o começo de uma nova dinâmica na política brasileira, especialmente num país que enfrenta tanta desigualdade.
Vinicius do Valle é sociólogo, doutorado em Ciência Política (USP), diretor do Observatório Evangélico e professor de pós-graduação no Instituto Europeo de Design.
Artigo publicado originalmente no The Conversation. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.