A inteligência artificial reduz “o poder económico” dos “eleitores democratas com ensino superior, geralmente mulheres” e aumenta o dos “eleitores da classe trabalhadora com formação profissional, geralmente homens”, declarou recentemente Alex Karp, CEO da Palantir, numa tentativa de fazer passar isso como uma preocupação com as consequências sociais do desenvolvimento tecnológico, mas, na realidade, pode ser um aceno ao seu maior cliente, o Governo dos Estados Unidos liderado por Donald Trump.
Fundada em 2003, no contexto da guerra antiterrorista de George W. Bush, por Peter Thiel e Alex Karp, a empresa de análise de dados Palantir teve entre os seus primeiros investidores a in-Q-tel, o fundo da CIA, e sempre esteve ligada às agências de serviços secretos. Mais de metade das suas receitas provém de administrações estatais, especialmente as dos Estados Unidos.
Em 2019, foi notícia porque assumiu o contrato para desenvolver o projeto Maven, uma iniciativa do Pentágono para criar armamento assistido por IA, que a Google tinha abandonado face aos protestos do seu pessoal, preocupado com possíveis violações dos direitos humanos.
Atualmente, é uma empresa estreitamente ligada ao governo de Donald Trump, tanto a nível económico como ideológico. Em agosto de 2025, assinou um contrato de 10 mil milhões de dólares com o Pentágono, o maior da sua história. É uma das empresas que mais está a crescer na bolsa. O valor das suas ações multiplicou-se praticamente por dez desde janeiro de 2024, quando cotavam a cerca de 16 dólares. No momento da redação deste artigo, em março de 2026, o seu valor é de 154 dólares. Em outubro de 2024, a Palantir foi incluída no índice SP500, formado pelas 500 empresas com maior capitalização dos Estados Unidos.
As suas ferramentas têm sido utilizadas nas perseguições e prisões em massa do ICE nos Estados Unidos e na peculiar reestruturação do IRS, a segurança social norte-americana, gerida pelos adolescentes do DOGE de Elon Musk.
Os dois produtos mais conhecidos da Palantir chamam-se Foundry e Gotham. O Foundry foi concebido para a gestão empresarial, embora cada vez mais administrações públicas o utilizem e Alex Karp o tenha definido como “o sistema operativo dos governos”. O Gotham está mais orientado para as forças de segurança. Perante as acusações de ser uma empresa dedicada à vigilância, a Palantir costuma argumentar que os seus produtos não recolhem dados por si próprios, mas servem para centralizar, ordenar e analisar mais rapidamente os dados que as organizações já recolheram anteriormente. No entanto, é evidente que a automatização destas tarefas facilita a vigilância em massa.
A Palantir sempre tentou envolver-se numa certa mística. Os seus dois fundadores estudaram filosofia.
Um deles, Peter Thiel, é o principal impulsionador da carreira política de JD Vance e, ultimamente, dedica-se a dar palestras alertando para a chegada do Anticristo na forma de Greta Thunberg. A sua frase mais célebre é “já não acredito que a democracia e a liberdade sejam compatíveis”. Disse-o em 2009. O outro fundador, Alex Karp, que também é o CEO da empresa, cresceu num ambiente hippie e tem votado nos democratas, mas gaba-se de que a sua empresa é “anti-woke”. Gosta muito de falar do potencial destrutivo dos seus produtos e da importância do uso da força para preservar “o domínio da civilização ocidental”.
A Palantir também tem um acordo estratégico com Israel. Karp é um defensor acérrimo do Estado judaico. No entanto, a empresa nega oficialmente ter desenvolvido os sistemas Habsora e Lavender, utilizados pelo exército israelita para selecionar alvos nos seus bombardeamentos massivos de Gaza.
A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada em novembro de 2025, estabelece entre os seus objetivos impedir o “apagamento civilizacional” da Europa. Segundo este documento, os problemas mais graves do continente não são de natureza económica, mas sim “as atividades da União Europeia e de outros organismos transnacionais”, “as políticas migratórias que estão a transformar o continente e a criar conflito” e “a perda da identidade nacional e da autoconfiança” dos países europeus.
Donald Trump manifestou em várias ocasiões a sua intenção de que os Estados Unidos se apropriem da Gronelândia, um território que se encontra atualmente sob a soberania da Dinamarca, um país da União Europeia. Segundo a radiotelevisão pública dinamarquesa, vários países europeus, entre os quais a França, realizaram operações militares na Gronelândia no início deste ano em resposta a esta possível ameaça.
No entanto, várias administrações e empresas dos países europeus integraram o software da Palantir no seu trabalho. A hostilidade da nova administração Trump para com os seus aliados europeus levou os riscos desta situação ao debate público, mas investigadores como Olivier Tesquet alertam para as dificuldades de se livrar da infraestrutura da Palantir uma vez que o trabalho se tenha adaptado a ela.
A Palantir aproveita as crises para se expandir. Em 2020, ofereceu as suas ferramentas gratuitamente aos países europeus para ajudar a controlar a pandemia da COVID-19. Pelo menos o Reino Unido, os Países Baixos, a Grécia e a Lituânia aceitaram.
Na guerra da Ucrânia, os sistemas da Palantir são utilizados pelo exército ucraniano para selecionar alvos e outras tarefas da “guerra algorítmica”.
Analisamos o que foi publicado sobre a utilização da Palantir por instituições de países europeus. Em muitos casos, a utilização destas ferramentas foi mantida em segredo e veio a lume a partir de investigações jornalísticas.
Espanha
Em setembro de 2023, o Ministério da Defesa espanholadjudicou um contrato à Palantir no valor de 16,5 milhões de euros. Este contrato foi negociado sem publicidade e permite a utilização do software Gotham pelas forças armadas durante três anos. O Ministério não forneceu mais informações a este respeito.
A empresa aeroespacial Airbus, cujos principais acionistas são os Estados francês, alemão, espanhol e britânico, utiliza desde 2015 a ferramenta Foundry da Palantir como base da sua plataforma Skywise, que não só gere informações relativas à organização da produção, como também dados registados pelos aviões em voo. De acordo com o site da Palantir, 49% dos aviões da Airbus estão atualmente ligados a esta plataforma. A Airbus é o maior fabricante de aviões comerciais do mundo e também fabrica aviões militares.
Reino Unido
O vice-presidente executivo da Palantir no Reino Unido é Louis Mosley, neto de Oswald Mosley, líder dos fascistas britânicos na década de 1930 e simpatizante de Hitler. Segundo consta em The Philosopher in the Valley, a biografia de Alex Karp recentemente publicada por Mike Steinberger, quando Mosley compareceu à entrevista de emprego, Karp começou a recitar de memória um discurso do seu avô. Naquele momento, Mosley temeu que o seu passado familiar o impedisse de obter o cargo, mas não foi assim.
A expansão da Palantir no Reino Unido contou com o apoio do lóbi Global Counsel, dirigido por Peter Mandelson, ideólogo do Novo Trabalhismo de Tony Blair. O atual governo de Keir Starmer nomeou Mandelson embaixador nos Estados Unidos, mas demitiu-o meses depois devido à sua aparição nos ficheiros Epstein. Mandelson é acusado de partilhar informações confidenciais com o criminoso sexual estadunidense.
A Palantir contratou vários ex-altos cargos do Governo britânico, incluindo dois ex-ministros da Defesa. Em setembro, Barnaby Kistruck, que acabara de deixar o cargo de diretor de estratégia industrial do Ministério da Defesa, começou a trabalhar na Palantir. Três meses depois, a empresa anunciou o seu maior contrato até à data com o Ministério da Defesa britânico, no valor de 240 milhões de libras.
De acordo com a investigação do meio de comunicação independente The Nerve, várias instituições do Reino Unido adjudicaram à Palantir pelo menos 34 contratos no valor de 670 milhões de libras.
Em 2023, o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) adjudicou à Palantir a maior parte de um contrato de 330 milhões de libras para a criação de uma plataforma de gestão de dados de saúde. A Associação Britânica de Médicos (BMA) manifestou a sua oposição à utilização desta ferramenta. Este contrato termina em fevereiro de 2027 e organizações como a Amnistia Internacional estão a fazer campanha para impedir a sua renovação.
Alemanha
A polícia utiliza ferramentas baseadas no software da Palantir em pelo menos três dos 16 estados alemães: Hesse, Baviera e Renânia do Norte-Vestfália. A polícia de um quarto estado, Baden-Wurtemberg, prevê começar a utilizá-las em breve e a sua adoção a nível federal também está a ser discutida, embora a Palantir suscite desconfiança na sociedade civil alemã, onde a preocupação com a privacidade faz parte do debate público.
A polícia de Hesse foi a primeira a adotar uma versão da ferramenta Gotham em 2017. No entanto, em 2023, uma decisão judicial obrigou-os a limitar a sua utilização.
O Tribunal Constitucional Federal da Alemanha considerou que a ferramenta Gotham da Palantir “permite à polícia, com um único clique, criar perfis exaustivos de pessoas, grupos e círculos”, o que atenta contra a privacidade de pessoas que não estão envolvidas em crimes, caso estas sejam identificadas como suspeitas. Esta decisão travou a adoção dos sistemas da Palantir em Hamburgo.
Alex Karp concedeu uma entrevista em dezembro ao meio de comunicação alemão Handelsblatt, na qual apresentou opiniões sobre a política alemã muito em linha com a doutrina trumpista. Afirmou que a Alemanha deveria concentrar-se em fechar as suas fronteiras e recuperar o seu orgulho nacional e que não pode “dar-se ao luxo” de ter conflitos judiciais com a Palantir.
Karp disse que a segurança da Alemanha dependia da Palantir devido à sua contribuição para o esforço bélico ucraniano. “Alguém está nos a agradecer?”, perguntou-se ele, “em vez disso, estão a criticar-nos por agir de forma inconstitucional, o que não faz sentido”.
França
A Direção-Geral da Segurança Interna (DGSI), a agência de informações francesa que opera em território nacional, começou a utilizar as ferramentas de software da Palantir em 2016, pouco depois do ataque de terroristas islâmicos à sala de concertos Bataclan, em Paris.
A última renovação deste contrato, por um montante desconhecido, ocorreu em dezembro de 2025, segundo informou a agência AFP. Fontes da DGSI declararam que o contrato tinha sido renovado por mais três anos enquanto aguardavam “o desenvolvimento de uma nova alternativa soberana”. No entanto, já em 2019 faziam esta mesma afirmação para justificar a continuidade do contrato com a Palantir.
A Comissão Europeia
Em 2012, a consultora tecnológica francesa Capgemini subcontratou a Palantir para o desenvolvimento de uma ferramenta para a Europol. No entanto, vários documentos revelam o descontentamento da agência policial europeia com o produto recebido devido à sua “baixa qualidade”. A Europol declara que a licença para a utilização dos produtos da Palantir expirou em 2021.
Polónia
A Polónia é o país da NATO e da UE com a maior despesa militar em relação ao PIB, cerca de 4,2%. Os seus gastos militares dispararam desde a invasão russa da Ucrânia. Em outubro de 2025, o Ministério da Defesa polaco assinou um “compromisso estratégico” com a Palantir para criar sistemas de IA de aplicação militar. “As bases de dados são o maior tesouro”, declarou o ministro da Defesa polaco, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, quando o acordo foi anunciado.
Ucrânia
Os sistemas da Palantir estão integrados em diversas operações do exército ucraniano: identificação de alvos, treino de drones, reconhecimento de padrões inimigos, trabalhos de desminagem…
Alex Karp deslocou-se pessoalmente para visitar o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, em junho de 2022, poucos meses após a invasão, para “discutir formas em que a tecnologia poderia ajudar o país a resistir”.
Lituânia
Em 2020, a Palantir ofereceu os seus serviços gratuitamente aos países europeus para ajudar a combater a pandemia de covid. A Lituânia está entre os que aceitaram. Além disso, o seu governo contratou Aistis Šimaitis, executivo da Palantir, para gerir o processo. Pouco depois, o Governo lituano anunciou que iria incorporar a ferramenta de forma permanente e assinou um contrato de mais de 3 milhões de euros.
Em 2023, o Ministério da Defesa assinou um “compromisso estratégico” com a Palantir e a empresa anunciou que iria estabelecer um “hub regional de dados” em Vilnius. Em 2024, o Governo lituano adjudicou à Palantir um contrato de 34 milhões de euros para a utilização do seu programa Foundry pela Agência Estatal de Dados.
Grécia
A Grécia foi outro dos Estados que aceitou a ajuda da Palantir para gerir a luta contra a pandemia, mas fê-lo em segredo e sem os controlos habituais na contratação pública.
Foi o embaixador dos EUA na Grécia, Geoffrey Pyatt, quem revelou a existência desta colaboração. Pyatt explicou que o ministro grego da Transformação Digital, Kyriakos Pierrakakis, tinha estado em contacto com Michael Kratsios, conselheiro tecnológico do governo de Trump e ex-funcionário de Peter Thiel.
A Palantir afirmou que tinha criado apenas um painel para manter o primeiro-ministro informado sobre os dados mais relevantes relativos à pandemia, mas o contrato incluía acesso a dados pessoais dos cidadãos, de acordo com uma investigação da Lighthouse Reports em colaboração com The Guardian e Der Spiegel.
A autoridade grega de proteção de dados abriu uma investigação e o Governo grego afirmou que a colaboração com a Palantir tinha terminado e que todos os dados tinham sido eliminados.
Dinamarca
A polícia e os serviços de inteligência dinamarqueses utilizam um sistema chamado POL-INTEL, baseado no Gotham da Palantir, desde 2017.
As ameaças à soberania dinamarquesa por parte do governo de Donald Trump, que manifestou a sua intenção de se apoderar da Gronelândia, levaram as autoridades dinamarquesas a procurar alternativas.
Países Baixos
As forças armadas neerlandesas utilizam as ferramentas da Palantir desde 2010, entre outras coisas, para operações especiais, e a polícia faz-o desde 2011 com uma plataforma batizada de La Refinería,segundo uma investigação da Follow The Money.
Os Países Baixos também aceitaram a oferta da empresa para utilizar os seus produtosno controlo da COVID-19 em 2020.
Suécia, Noruega e Finlândia
Em novembro de 2025, o meio de comunicação sueco ETC revelou que a polícia do seu país está a utilizar ferramentas da Palantir, mas esta recusou-se a fornecer mais informações sobre o assunto, invocando motivos de segurança nacional.
A polícia norueguesa assinou um contrato com a Palantir em 2016, mas abandonou o projeto em 2020, após ter enfrentado, segundo uma análise académica, resistências internas à nova organização do trabalho que implicava a utilização das suas ferramentas. Os serviços alfandegários noruegueses também utilizam ferramentas da Palantir.
Os jornalistas da revista Seura descobriram que a polícia finlandesa estava a utilizar as ferramentas da Palantir porque esta as mencionou num anúncio de emprego em 2023.
Suíça
A base de operações da Palantir na Europa situa-se no município de Altendorf, perto de Zurique. Algumas autoridades suíças demonstraram grande interesse em atrair a empresa norte-americana para o seu território. Importantes empresas suíças, como a farmacêutica Novartis ou a seguradora Swiss Re, utilizam os seus serviços.
No entanto, uma investigação recente publicada na revista Republik revela que a administração suíça recusou trabalhar com a Palantir em nada menos que nove ocasiões, apesar dos grandes esforços da empresa para o conseguir. A Palantir processou a revista por esta publicação.
Elena de Sus é jornalista, natural de Huesca, e integra a equipa editorial do CTXT. Artigo publicado em CTXT