Economia

Os novos titãs do capitalismo

01 de fevereiro 2025 - 11:14

Manejam o equivalente a 8,5 vezes o PIB dos EUA. Estão ávidos por enfraquecer os Estados e reinar de forma absoluta. Quem são os megafundos que controlam a riqueza do Ocidente.

por

Ladislau Dowbor

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Pormenor da capa do livro Titans of Capital
Pormenor da capa do livro Titans of Capital

Resenha de Titans of Capital (2024), de Peter Phillips, publicado pela Seven Stories Press.


Peter Phillips escreveu um livro que mais parece um relatório de investigação, e que é de uma prodigiosa utilidade: em vez de ilustrar as suas opiniões, ele dá-nos ferramentas para entender como todo o processo de acumulação do capital se deformou, gerando a convergência das catástrofes da desigualdade e da destruição ambiental. Ao detalhar como as coisas efetivamente funcionam no topo da pirâmide do poder económico – e, portanto, do poder político, Phillips põe nas nossas mãos uma excecional ferramenta de trabalho.

Quem lê os meus trabalhos sabe que eu não sou muito pródigo em flores, mas neste caso, os dois dias que gastei a ler este pequeno livro me deixaram entusiasmado. E como as traduções demoram a aparecer, recomendo a todo o nosso pequeno mundo que se interessa por entender a área económica em que vivemos, que comprem o livro em inglês mesmo. Nada de complexo nesta escrita.

Para já, pensando nas pessoas que têm dúvidas sobre a nossa dependência do poder económico global, tema central deste livro, vou só apresentar este gráfico, que não está no livro, mas que ilustra este tema no Brasil: [1]

BlackRock no Brasil

O nome BlackRock é pouco familiar para as pessoas no Brasil. Lembremos que em 2024 essa empresa gestora de ativos (fortunas) administra um pouco mais de 10 trilhões de dólares. O presidente americano Joe Biden administra 6 trilhões, orçamento federal dos Estados Unidos. Vejam no gráfico acima para onde esta corporação estende os seus drenos no Brasil, isso que ela se encontra em inúmeros países. Empresas chave da economia brasileira têm os seus interesses ligados à BlackRock, cujo objetivo não é produzir nada, é apenas drenar dividendos, e o máximo possível, como vimos no caso da Petrobrás, elevando os preços para aumentar os dividendos, um dreno amplo sobre toda a população, a chamada profit inflation, inflação gerada por elevação de lucros. O preço que pagamos a mais na botija de gás ou no posto de gasolina foi para pagar dividendos.

Bastam participações acionárias limitadas para colocar as empresas ao seu serviço, ou seja, maximizar dividendos para acionistas, os que hoje chamamos de “proprietários ausentes”, absentee owners. Isto é a realidade da indústria dita nacional. Não tenham dúvida de que quando os diretores da Samarco ou da Vale tiveram de optar entre consertar as barragens ou aumentar os dividendos, optaram pelos dividendos, e os bónus correspondentes para eles mesmos. Privatizar, ou seja, abrir as portas para acionistas internacionais, é também desnacionalizar. Isto para situar o mecanismo que permite aos gigantes financeiro no topo drenar recursos da base da sociedade em escala mundial.

Phillips selecionou as 10 maiores empresas de gestão de ativos. No conjunto, administram quase 50 trilhões de dólares, equivalentes em 2022 a mais ou menos a metade do PIB mundial de 100 trilhões. Essa é a dimensão. Em seguida, ele elenca, para cada empresa, os diretores, um total de 117 para o conjunto das 10 empresas. Esta gente não constitui a lista de bilionários, e sim gente que ganha muitos milhões, mas essencialmente toma as decisões. O detalhe da diretoria de cada uma destas gigantescas corporações mostra que a maior parte dirige não uma empresa, mas várias outras, tanto entre as dez como fora. Vejam também que em cinco anos, entre 2017 e 2022, aumentaram esse controle em 89,5%, quase duplicando. O controle no topo está a reforçar-se rapidamente.

Dez maiores gestoras de ativos

Gera-se assim um universo de interesses entrecruzados das corporações, um gigantesco oligopólio planetário, que não tem nada a ver com o que chamamos de economia de mercado, a tradicional visão que nos ensinam, de empresas que concorrem lealmente para prestar melhores serviços à população. Estão solidamente articuladas para se servir. Uma ficha para cada diretor permite ver que se trata de boas famílias, que estudaram essencialmente nas mesmas escolas de elite e universidades correspondentes, formando uma classe de colegas. Dois terços são americanos. Participam todos das três principais organizações intracorporativas, o Council for Foreign Affairs, Business Round Table e Business Council. Todos são convidados regulares do Fórum Económico Mundial, do qual Larry Fink, da BlackRock, é inclusive um dos administradores (trustee).

O facto de cada um dos diretores ter interesses cruzados com outros no grupo dos dez vai ser reforçado pelo facto de participarem nos conselhos de administração de numerosas outras instituições, como a CIA, ou o Departamento de Estado, com forte presença nas decisões militares, mas também como conselheiros políticos em várias áreas, de numerosos departamentos públicos, permitindo manter uma ofensiva permanente contra por exemplo a regulação do mercado de medicamentos, a política tributária e em particular a regulação das fontes de gases de efeito estufa na área da energia.

Phillips traz de maneira detalhada, empresa por empresa, quanto cada uma investe no petróleo e no gás (apesar de proclamarem a sua adesão aos ESG e às energias limpas), no carvão, no tabaco, no álcool, na indústria do plástico, na produção de armas de fogo, na indústria das apostas, na privatização dos sistemas carcerários, inclusive de armamento pesado militar. E em cada setor buscam a maximização de vendas e de retorno a curto prazo.

Igualmente importante é o facto da apresentação dos dados, empresa por empresa, diretor por diretor, setor por setor de atividade, ser extremamente bem organizada, permitindo uma visão de conjunto sobre como o sistema funciona, o grau de poder que alcançou, o ritmo de avanço que continua, e tipo de impacto que gera, por exemplo ao apoiar combustíveis fósseis ou o tabaco. Dois capítulos complementares, sobre a China e sobre a Rússia, fecham este pequeno volume, que nos traz uma claridade impressionante sobre como funciona o topo da pirâmide, o poder realmente existente.

Simplesmente organizando a informação mais significativa sobre as maiores corporações do mundo, o autor deixa clara quem está no topo da pirâmide mundial de poder corporativo e como usa este poder. Estas corporações por sua vez controlam indiretamente, por participação acionária, os gigantes da comunicação (GAFAM – Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft) e evidentemente os banco menores, seguradoras, grandes empresas de seguro de saúde, a Big Pharma e assim por diante. Os algoritmos movem o dinheiro segundo os interesses da maximização no curto prazo.

A fratura entre a maximização dos interesses corporativos, esse universo a que curiosamente chamamos de “os mercados”, e os interesses da sociedade, em termos de progresso económico, social e ambiental fica claramente exposta. É o poder de cima para baixo que fica claro, poder que permite que o dinheiro flua de baixo para cima. Simplesmente pela desproporção entre o dinheiro que colocam nas inúmeras empresas, o dinheiro que extraem, explica-se que neste universo de tanto progresso tecnológico tenhamos tantos desastres sociais e ambientais.

Deixem-me lembrar que a pesquisa de Eduardo Magalhães Rodrigues, no pós-doutoramento que fez comigo na PUC-SP, na Pós-Graduação em Economia Política, apresenta um primeiro desenho semelhante em como as corporações, através de tomadas cruzadas de participação acionária e de diretorias cruzadas, constituem igualmente um universo extremamente centralizado, com papel particularmente central da Eletrobrás. Não à toa batalharam pela sua privatização. Mas fica também claro o funcionamento do universo oligopolizado das finanças e, surpreendentemente, dos planos de saúde, hoje em dia uma grande indústria da doença.


Texto publicado originalmente no Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios. Autor e co-autor de cerca de 45 livros, toda a sua produção intelectual está disponível online na página do autor.


Notas

[1] Peres, João – No Brasil, maior gestora de fundos do planeta tem investimento três vezes mais poluidor que na Europa e nos EUA. – O Joio e o Trigo, 18 de maio de 2024

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