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Os miseráveis, histórias duras da periferia de Paris

No filme Les Misérables, Ladj Ly mostra-nos, com as suas personagens, sem as julgar, que as mesmas mais do que uma natureza boa ou má estão reféns de uma estrutura e ordem sociais que as empurra para fora de si. Artigo de Soraia Simões de Andrade.

Les Misérables de Ladj Ly (2019) é um filme com um carácter documental forte, misturando actores profissionais com actores das suas próprias condições de vida. São muitos os planos fechados e de câmara na mão, o “cinzentismo” da fotografia transportam o espectador para a dureza da narrativa, num bairro com comunidades distintas e envolvido em situações de permanente conflito.

O filme abre com uma sequência impactante, talvez seja essa a qualidade que melhor o define, há um mar de gente diversa, também sob o ponto de vista económico-social, nas ruas a festejar a vitória de França no campeonato do mundo de futebol: uma metáfora que simboliza por um lado a fuga à noção clara da distinção e das desigualdades sociais entre aquela multidão, um momento de felicidade colectiva que por breves horas as faz esquecer das diferenças concentradas na sua condição de pessoas mais pobres e mais ricas, por outro lado, indiferentemente dos seus lugares de pertença culturais e socioeconómicos, unidas em torno de uma ideia de “patriotismo” e “orgulho”. Esta ideia primeira de fuga ao quotidiano experienciado vai desconstruir-se aos poucos e a ela dá lugar uma narrativa que cruza documentário com ficção, e que atravessa o filme até à cena final.

A narrativa de Les Misérables de Ladj Ly é realista e dramática, sem espaço para esboçar sorrisos, ele centra a história no confronto e na dureza advindas da ausência de expectativas no bairro Gevroche (evocação ao romance de Victor Hugo Os Miseráveis) composto por comunidades culturais com as suas idiossincrasias e onde, apesar da paleta de tonalidades cinzentas e frias que sobressai dos planos, a natureza e os comportamentos humanos (parte final do filme, numa citação da obra de Victor Hugo) são complexos e uma paleta um pouco mais híbrida: há ervas daninhas e as pessoas não são uma só coisa, ou boas ou más, ambas coexistem, consoante as conjunturas e as circunstâncias proporcionadas pelos meios em que crescem.

É essa complexidade que o filme deixa muito marcada na cena final – em que Stéphane (interpretado por Damien Bonnard), um jovem polícia com bom fundo e fiel ao método, aos direitos humanos, que tinha acabado de se mudar para Montfermeil para integrar o esquadrão anti-crime da comuna ao lado de Chris (interpretado por Alexis Manenti) e Gwada (interpretado por Djibril Zonga), dois polícias pouco dados a esse rigor – , fica frente-a-frente com o adolescente Issa (nome real de Issa Perica, habitante do bairro onde decorreram as filmagens) antes alvejado no rosto por Gwada (polícia negro, oriundo do mesmo bairro e da mesma comunidade que Issa) num momento de raiva e de descontrolo e que envolve outros jovens do bairro, tentando demover o adolescente do seu plano de vingança, que arquitecta com todos os outros jovens do bairro, e culmina com as mortes de gente mais velha da própria comunidade.

Creio que se pode interpretar o filme como uma (re)leitura moderna da obra literária de Victor Hugo, não só pelo modo como Ladj Ly centra a narrativa em Gevroche e nos três núcleos: os três polícias já mencionados, o jovem Issa, e um outro jovem adolescente (quase sem falas ao longo do filme) voyeur que dedica os seus dias, quando não tem aulas, a filmar a vizinhança e os acontecimentos no bairro com o seu drone e acaba por gravar a agressão a Issa e se tornar uma personagem de relevo na narrativa, dialogando com os outros dois núcleos.

Há um clímax da explosão de todo esse desconforto, do indivíduo prisioneiro na “sua miséria” ao longo do filme, além de ser muito bem filmado.

Mas é a realidade não linear que Ladj Ly aqui dirige que nos leva a aproximar-nos da história. Há uma verdade nela. A polícia que usa uma força desmedida e desnecessária, independentemente da sua origem (quem alveja Issa, afinal, é um polícia membro da sua comunidade) mas onde por vezes também existem humanistas a cultivar um policiamento de proximidade e de entendimento não oriundos do bairro (Stéphane), os que vivem no bairro e não se sentem confortáveis naquele lugar, e como que num grito para sair dali, canalizado pela violência física, sofrem com a brutalidade policial e tentam reagir a ela.

O que Ly nos mostra com as suas personagens, sem as julgar, é que as mesmas mais do que uma natureza boa ou má estão reféns de uma estrutura e ordem sociais que as empurra para fora das mesmas.

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