O Presidente da Câmara Municipal de Elvas, Rondão de Almeida, ex-Partido Socialista e atual eleito por um movimento independente, declarou no passado dia 6 de outubro que “duvida” que no seu concelho haja ciganos com contratos de trabalho e que, assim, sejam elegíveis para um programa de arrendamento acessível de 60 fogos que estava a lançar no âmbito da Estratégia Local de Habitação. No discurso totalmente auto-focado sobre o seu trabalho no setor da habitação nos anos em que deteve a presidência do município, acaba por dizer: “meus caros amigos, se o pessoal da etnia cigana for capaz de apresentar um contrato de trabalho e, nesse contrato de trabalho, se verificar que tem rendimentos para poder pagar uma renda acessível, estaremos abertos. Duvido é que apareça alguém, neste caso da etnia, com contrato de trabalho para poder ir para aquilo que hoje vai ser inaugurado”.
As declarações foram imediatamente repudiadas por associações ciganas e pelo SOS Racismo. À Lusa, Bruno Gonçalves, vice-presidente da associação Letras Nómadas, diz que isto “reforça o estereótipo de que os ciganos não trabalham”, considerando “lamentável e repudiável” um autarca “dirigir-se a uma comunidade, excluindo-a automaticamente de um equipamento que vai ser construído com dinheiro do PRR”.
O dirigente associativo acrescenta que as palavras foram ditas “na presença da ministra da Habitação, que, de forma passiva, deixou que aquele senhor passeasse pelo preconceito” e exige uma “resposta clara” do executivo de António Costa.
Em comunicado, o SOS Racismo tomou igualmente posição condenatória manifestando “o seu profundo desagrado perante as declarações” que considera “preconceituosas” ao afirmar “perentoriamente que nenhum membro da comunidade cigana em Elvas possui contrato de trabalho, reforçando assim estereótipos prejudiciais e falsos”.
A organização anti-racista esclarece que esta afirmação foi desmentida pela Associação Cigana local, a Sílaba Dinâmica.
Considera-se ainda “curioso” que o discurso coincida com a notícia da publicação de um estudo, realizado por Pedro Magalhães e pelo psicólogo social Rui Costa Lopes, no European Journal of Political Research que demonstra como o discurso político tem impacto na discriminação sofrida pela comunidade cigana.
Tal como a Letras Nómadas, o SOS Racismo também lamenta que a ministra da Habitação “tenha permitido tais declarações que envergonham a Constituição da República” e que “apenas legitimam a ciganofobia neste país” e exortam-se as autoridades locais e nacionais “a tomarem medidas concretas para garantir a inclusão e dignidade de todas as comunidades, nomeadamente no acesso ao direito fundamental à Habitação”.