ONU considera revelações de Wikileaks “preocupantes”

31 de outubro 2010 - 1:46

391.832 documentos secretos revelam assassinato de milhares de inocentes no Iraque. Entre 2004 e 2009, o conflito causou 66.081 mortes de civis. Relator especial das Nações Unidas para a Tortura quer ver apurada responsabilidade do governo dos EUA.

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Forças norte-americanas são responsáveis por inúmeros crimes de guerra. Foto EPA/ALI ABBAS.

 

Os documentos divulgados pela Wikileaks revelam que o exército americano ignorou actos de violência praticados pelas forças de segurança iraquiana, entre os quais, violações, espancamentos e até mesmo assassinatos.

Manfred Nowak, relator especial das Nações Unidas para a Tortura, afirmou à TSF que esta revelação, «Em primeiro lugar, vem aumentar a preocupação sobre o que já sabíamos antes. Há muitos anos que há suspeitas de maus-tratos por parte das forças de segurança iraquianas», mas também «é preocupante que as autoridades norte-americanas soubessem do que se passava nas prisões no Iraque e tivessem continuado a entregar prisioneiros que estavam na sua posse aos iraquianos. Obviamente que isso é preocupante porque viola a Convenção contra a tortura». Nowak declarou que os EUA têm obrigação de investigar e agir “para que os responsáveis respondam perante a justiça” e afirmou que, se os actos eram do conhecimento dos norte-americanos, então “o governo dos EUA é cúmplice” e “isso necessita de ser investigado”. “Se for provada essa cumplicidade, então também essas pessoas devem responder perante a justiça”, adiantou ainda.

Norte americanos responsáveis por numerosos crimes de guerra

Mas os documentos revelados pelo Wikileaks denunciam também a responsabilidade directa das tropas dos EUA por numerosos crimes de guerra. As forças norte-americanas mataram centenas de civis nos checkpoints terrestres. São, igualmente, inúmeros os casos de assassinato de iranianos que declararam a sua rendição, tal como demonstra o vídeo difundido pela cadeia britânica Channel 4 no seu programa Dispatches.

Revelações do Wikileaks “representam matéria-prima para a história”

Em declarações a Amy Goodman, David Leigh, editor de investigações do Guardian de Londres, afirmou acerca dos documentos revelados pelo Wikileaks: “Representa matéria-prima para a história. Possuir esta informação é algo de imenso valor já que, como todos sabemos, durante os últimos seis ou sete anos de invasão do Iraque, esta foi acompanhada, como ocorre com frequência, de propaganda, interpretações, versões saneadas. Esta é a versão lisa e plana dos acontecimentos e é certo que esta versão lisa e plana, sem adornos, confirma o que muitos de nós temíamos e o que muitos periodistas tentaram informar ao longo destes anos: que o Iraque se converteu num banho de sangue, com assassinatos desnecessários, matanças de civis, torturas e pessoas golpeadas até morrer”.

Wikileaks e Julian Assange sob mira de críticas

O Wikileaks, e Julian Assange, seu director, têm vindo a ser fortemente atacados depois destas revelações. Hillary Clinton não comentou a denúncia dos assassinatos e actos de terror, mas apressou-se a condenar a publicação destes dados.

O Ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, também veio condenar “ a publicação não autorizada de informações que podem pôr em perigo as forças” do país, que constitui um “presente de propaganda para a insurgência”. Nick Clegg, vice-primeiro-ministro britânico, considerou as “acusações muito graves”, mas também lamentou “a forma como as informações foram divulgadas”.