Depois de a Câmara do Porto ter enviado a Polícia Municipal e a Polícia de Segurança Pública para fechar 105 das 126 lojas do STOP, a maioria das quais utilizadas pelos músicos da Invicta para desenvolver os seus projetos, centenas de pessoas manifestaram-se junto ao centro comercial. O protesto chegou mesmo a cortar a Rua do Heroísmo durante cerca de cinco horas.
Entretanto, está já agendado um novo protesto para segunda-feira, dia de reunião da Câmara do Porto, com início às 14 horas. A iniciativa parte do STOP e termina em frente aos Paços do Concelho.
"É matar a cultura”
Pedro Pestana foi um dos músicos despejados. “Estou cá com sala há bem mais de 10 anos e outros tantos a vir cá fazer visitas regulares. O trabalho que fiz e desenvolvi aqui em salas sem janelas e húmidas levou-me a mais de 20 países. Tenho um carinho enorme por este espaço e pelo que representa. São mais de 100 salas de ensaio que estão a ir a vida e com isso são qualquer coisa como entre 500 a 800 músicos que ficam sem espaço. O buraco que isto abre no tecido cultural da cidade é um poço sem fundo. Se há 30 anos há música formidável a sair desta cidade é em grande parte devido a este espaço. Defender a cultura como tanto pregam é defender quem a faz e quem a desfruta. Assim não vamos lá”, escreve o músico na sua conta de Instagram.
Os Ornatos Violeta também viram o seu espaço fechado. Pedro Santos, baterista da banda, conhecido como Kinorm, afirmou, em declarações ao jornal Público, que o fim deste projeto é “um problema gigante” para centenas de músicos e representa “uma amputação na capacidade de trabalho”. Na cidade, continuou, “não há alternativas” ao STOP: “Se isto existisse em Nova Iorque era incrível, mas no Porto parece que somos os parentes pobres".
Capicua utilizou as stories do Instagram para relatar o que se passou. A rapper apontou ainda que “O Porto podia ser uma cidade incrível. Tem massa crítica, carisma, artistas incansáveis e uma beleza ímpar. O problema é que escolhe sempre uns tecnocratas provincianos como autarcas. Era uma cidade. Hoje é a sede da Remax”.

Nils Meisel, da banda Sereias, explicou ao Público que receberam recentemente um apoio do município para se internacionalizarem. Agora, a mesma autarquia despejou-os do seu espaço de ensaio. “Estou aqui há mais de dez anos. Somos profissionais, precários mas profissionais. É matar a cultura”, afirmou o músico.
José Gomes, que também figura entre os despejados, contou que ficou sem forma de sobrevivência: “Fiquei sem o meu emprego. É isso que está em causa para muitos de nós", vincou.
Davide Lobão explica, no Instagram, que nunca tinha sido "escoltado para carregar material" e agradece por ter sido tratado como um "criminoso".
"O Porto tratou uma das suas maiores jóias culturais com o desprezo de bárbaros"
Em artigo de opinião publicado no mesmo jornal diário, Pedro Abrunhosa afirma que "o que está em causa no caso STOP é o tipo de cidade que queremos construir. Se mais quartos para inglês passear, se mais cidade para portuense viver".
Luca Argel também dedicou um artigo ao espaço cultural, intitulado "STOP e os bárbaros na Invicta". O cantor e compositor acredita "que se possa medir o grau de civilização de uma cidade pela forma como trata a cultura". "Hoje, o Porto tratou uma das suas maiores jóias culturais com o desprezo de bárbaros", enfatiza.
Benjamim, Pedro Branco, Hélio Morais e Tiago Bettencourt Pereira são perentórios na sua reação aos despejos no STOP: "Vergonha", "vergonhoso".
Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, dos Best Youth, escrevem, nas suas contas de Instagram, que os músicos foram tratados como "criminosos", de uma "forma tão indigna" e que assistimos a uma "parada de repressão".
E Glockenwise considera que "esta violência sem aviso é devastadora".
"Usando a força, marginalizando e perpetuando a precariedade, go CMP", escreve Isa Leen.
João Vieira, dos White Haus, fala em "bullying".
Na mesma rede social, Cláudia Pascoal afirma-se "triste com o desprezo" com que se trata "o coração da música no Porto".
Rodrigo Neto deixa, nas redes sociais das Conversas da Vandoma, uma questão: "Se a razão para fechar o STOP é o ruído, que fará a Câmara quando os vizinhos se queixarem do barulho vindo das obras do novo hotel?".
No seu Instagram, o músico Samuel Úria destaca que "uma cidade com sucessivos autarcas a disfarçar complexos de inferioridade (ora através de miserabilismos, ora através de orgulhos megalómanos) não pode tratar com tanto desapreço um sítio que torna o Porto verdadeiramente superior". "O Município alega agastamento num processo com 10 anos. Treta. Então e as quase três décadas de batimento cardíaco?”, questiona.
Daniel Pereira Cristo refere que estamos perante "mais uma prova de que o grande capital e os nossos políticos se estão a marimbar para a cultura independente - preciosa e precisa numa democracia verdadeiramente livre e estimuladora do espírito crítico".

Silas Ferreira considera que o fim do STOP "é um pouco o fim de um sonho para muitos outros músicos em muitos outros lugares deste país que precisam muito do apoio das autarquias e dos seus concidadãos para encontrar um espaço de trabalho".
Para Carolina Deslandes, este é "um dia triste": "O Porto é a celebração da genuinidade e da verdade. Não queiram passar o pincel da mesmice", frisou.
Sara Barros Leitão também se solidarizou prontamente com os músicos do STOP, afirmando, em declarações aos jornalistas, que aquilo que se pede de uma Câmara "são mais soluções e não entraves”.
The Legendary Tigerman, Homem em Catarse e Catarina Valadas apelaram à participação nos protestos contra os despejos no STOP.
Também O Cálculo, Edu Mundo, Bruno Pernadas, Bruno de Seda, João Couto, Celina da Piedade, Maria Reis e Nuno Lopes, entre muitos outros, fizeram publicações nas suas redes sociais em solidariedade com os músicos.
Bloco repudia despejos
O Bloco de Esquerda esteve desde o primeiro momento com os músicos do STOP, repudiando a ação do executivo de Rui Moreira.
A deputada municipal do Bloco de Esquerda Susana Constante Pereira afirmou que a opção de Rui Moreira “pela coerção, pela força em vez do diálogo” é “inaceitável”. E apontou que esta situação “faz lembrar aquilo que aconteceu no tempo de Rui Rio com o Campo Alegre, com o Seiva Trupe ou com o Rivoli”.
O vereador do Bloco da Câmara do Porto também se juntou à manifestação contra os despejos no STOP. "Isto não poderia ter acontecido", afirmou, em declarações à Lusa, Sérgio Aires.
"Ainda há duas semanas, a Câmara do Porto distinguiu um conjunto de músicos e atribuiu medalhas de honra a um conjunto de músicos. O senhor presidente teve um discurso fantástico sobre a cultura e os músicos do Porto. O que está aqui é exatamente isso. Esta é a Casa da Música da cidade do Porto", referiu.
Sérgio Aires acusou Rui Moreira de não dialogar com os representantes dos músicos e de não apresentar "alternativas" ou "soluções".
"Não é possível que na nossa cidade uma coisa destas aconteça desta forma. O que está aqui em causa é o que vai acontecer a estas pessoas amanhã. Para onde vão? Para onde vão ensaiar? Alguns deles têm espetáculos marcados hoje, amanhã e depois. O que vai acontecer? Porque é que se fez isto assim? Que necessidade havia de fazer isto assim?", questionou.
O vereador bloquista assinalou ainda que "é sempre culpa da Câmara quando uma parte importante da atividade cultural da cidade está em risco e a Câmara não faz nada".