Quando conversei com a congressista Alexandria Ocasio-Cortez por telefone , as notícias dos Estados Unidos eram ainda mais sombrias do que o habitual. O número de mortos por coronavírus no país tinha ultrapassado os 76 mil e tinha sido divulgado o novo relatório do desemprego que mostrava que o número de pedidos de subsídio de desemprego ascendia a 33,5 milhões.
A congressista de Nova Iorque, no seu primeiro mandato, estava frustrada porque em vez de estarem a aprovar uma lei que trouxesse alívio económico para os americanos mais vulneráveis, os líderes do Partido Democrata concediam ajudas de vários biliões de dólares às grandes empresas, quase sem oposição da ala progressista. A congressista falou abertamente sobre a necessidade dos progressistas agirem como as outras bancadas do Congresso e condicionarem os seus votos a reivindicações específicas – e sobre a “triste situação” na qual os congressistas são pressionados a votar em diplomas medíocres.
Ocasio-Cortez foi a única congressista democrata do Congresso a opor-se aos pacotes de ajuda económica do coronavírus; disse que “não aguentou” votar naquelas ajudas, sabendo que teria de voltar para a sua comunidade e “coletar dinheiro para fraldas e comida por minha conta porque o governo federal decidiu não o fazer”.
Enquanto outros deputados estavam concentrados em despejar dinheiro na economia, o seu gabinete parecia mais um grupo de primeiros socorros, disse a deputada. O distrito de Ocasio-Cortez inclui Corona e North Corona, os dois bairros de Nova Iorque com mais casos de coronavírus do país. Os seus eleitores, a maioria imigrantes e não brancos, muitos dos quais trabalhadores de serviços essenciais, foram também afetados de forma desproporcional.
Nas últimas semanas, a congressista tem redirecionado o dinheiro da sua campanha de reeleição para a recolha de alimentos e para grupos de ajuda na cidade de Nova Iorque e entregou pessoalmente comida e mantimentos à população do seu distrito. Enquanto as negociações para o próximo pacote de ajuda federal, o CARES 2, continuam, Ocasio-Cortez diz que está “limitada” a tentar “obter financiamento para que as nossas famílias possam fazer funerais, porque as pessoas estão a perder os seus cônjuges e os seus filhos” devido à pandemia. Não é o Medicare For Alli, longe disso, observou, mas o financiamento para funerais é “desesperadamente necessário na nossa comunidade”.
Este é um momento bastante stressante. Como está a tua família? Estão todos bem?
Felizmente, até agora, a minha família está bem. Eu tenho uma família muito vulnerável em Porto Rico. A minha avó tem muitos problemas respiratórios, mas graças a Deus ninguém da minha família foi afetado. Temos muitas pessoas na comunidade que infelizmente faleceram, mas a minha família mais próxima está bem e agradecemos por isso.
É bom ouvir. Então… só para entrar no tema. Eu quero começar pela falta de audições no Congresso devido à pandemia. Sei que algumas comissões e a bancada progressista estão a fazer audições por Zoom. Mas, em última análise, o Congresso não tem regras para votação remota ou planos para audições oficiais. Sentes-te restringida ou alienada dos teus deveres no Congresso? Como é que isso afeta a capacidade de legislar e de fiscalizar o governo Trump?
É realmente difícil minimizar o quão devastadora a pandemia tem sido em termos de capacidade de legislar e fiscalizar, para um membro do Congresso fazer o seu trabalho. Mesmo a nossa capacidade de escrever e enviar um diploma foi completamente dizimada porque muitas das nossas instituições… quer seja o Gabinete do Conselho Legislativo, que está encarregue de formalizar o texto dos nossos diplomas, seja a possibilidade de ter audições presenciais… Não somos capazes de fazer o nosso trabalho legislativo. De todo.
Mas somos capazes de fazer muito trabalho nos nossos distritos. É algo que esta situação me permitiu fazer – sou capaz de fazer muito mais na comunidade e muito mais trabalho social. Mas em termos da nossa capacidade de levar legislação adiante, escrever leis e fiscalizar a corrupção muito flagrante do governo Trump – estamos totalmente perdidos. E acho que esta renúncia da nossa capacidade – acho que não é apenas renúncia, mas este tipo de desafio e estas limitações muito duras às nossas responsabilidades legislativas em Washington – tiveram um enorme impacto na resposta à pandemia.
De várias maneiras, tens agido quase como uma resposta de emergência, entrando na comunidade e distribuindo pessoalmente bens de primeira necessidade. Tens visto o sofrimento com os teus próprios olhos. É perturbador sair e alimentar pessoas da tua comunidade e depois voltar ao trabalho e ver o Congresso a resgatar grandes empresas? E ver as diferenças que existem entre o teu trabalho num distrito que está a ser atingido de forma particularmente dura e, honestamente, a maioria do dos membros do Congresso?
É devastador. Eu até desabafei numa story do Instagram na semana passada porque sinto que faço parte do pessoal da limpeza que vai atrás para arrumar e limpar a negligência do Congresso. Quando vamos a Washington estamos com todos aqueles congressistas de comunidades muito distantes; eles estão a um, dois patamares de distância dessa crise. E quase toda a gente é afetada de uma forma ou de outra pelo encerramento da nossa economia. Mas isso é muito diferente de ter corpos amontoados no nosso quintal. E eu ter de sair toda as sextas-feiras e alimentar pessoas que estão a passar fome e tentar conseguir ajuda e assistência médica para os que estão a morrer – isto é a consequência direta do fracasso e da incapacidade do Congresso e do governo federal em reconhecer realmente esta crise, não apenas em magnitude, mas no tempo. Em termos de desorientação, por um lado é algo que te dá uma chicotada, mas por outro é também algo que te muita clareza.
Eu não aguentei votar no último diploma de apoios, sabendo que teria de voltar diretamente para a minha comunidade e ter de coletar dinheiro para fraldas e comida por minha conta porque o governo federal decidiu não o fazer.
Temos biliões de dólares de resposta federal a ser feita à pressa por três a cinco pessoas numa pequena sala. E depois eles trazem a proposta de volta para mais de 500 membros do Congresso e as únicas opções que podes tomar são sim ou não. Pessoalmente, estou confusa sobre o motivo pelo qual estes diplomas são aprovados quase por unanimidade, quase sem discordância. Esta é uma situação praticamente sem precedente na história do Congresso. E muitas vezes a discordância e a construção de coligações são saudáveis; mostra diversidade de pensamento. E quero deixar bem claro que, na maioria das vezes, as pressões para apoiar estes diplomas não se referem a uma discussão sobre os méritos de adotar uma abordagem ou outra. Simplesmente aparecem diplomas e alguém a dizer algo como “vais votar não em dar dois dólares a um hospital?” e fazer isso significa que vais ter de permitir uma expansão do poder corporativo sem precedente nos EUA e a ideia de que é quase inaceitável rejeitar essa escolha é… é uma triste situação em que estamos agora, francamente.
O teu voto foi o único voto contra nestes últimos pacotes de ajuda. Mesmo muitos dos teus colegas progressistas, que se opõem a estes pacotes, são colocados numa posição em que sentem que não podem “usar o sofrimento para negociar” – pelo menos é o que algumas pessoas acreditam. Achas que com o CARES 2, que será o único grande pacote de ajudas dos próximos tempos, a ala progressista deveria tentar reunir votos contra, se ele não incluir tudo o que vocês querem?
Quando falamos de tudo, o que é que isso significa? Eu não vou dizer que, se não tivermos tudo o que queremos, ao mínimo detalhe, devemos rejeitar. Mas acho que devemos definir critérios muito claros sobre o que permitimos que esteja no pacote e ter critérios muito claros sobre o que não aceitamos. Creio que até a bancada hispânica do Congresso teve conversas sobre isso em termos de que eram de poder proporcionar ajudas a imigrantes e famílias de estatuto mistoii. Há bancadas – sejam os Blue Dogsiii ou os New Demiv – que estão sempre a dizer, “se isto tributar o setor dos seguros de saúde, estamos fora”. Eles estão sempre a fazer negociações duras e a ameaçar deitar diplomas abaixo e certamente não acham que, de uma forma geral, seja discutível ou errado fazer isso.
A questão é o que estamos dispostos a negociar e aquilo em que não estamos dispostos a aceitar um “não” como resposta. E acho que haverá muitas respostas diferentes dos diferentes progressistas. Mas acho que ter esses padrões antes de entrar na discussão e comunicá-los é sempre muito importante para garantir que temos algumas vitórias reais neste diploma.
Achas que vão começar a agir como um bloco na próxima fase de ajudas do coronavírus? Parece, pelo menos de fora, que a dinâmica do CARES 2 até aqui tem sido a de os membros do Congresso tentarem conversar individualmente com Nancy Pelosi [presidente da Câmara dos Representantes] e com a liderança do partido sobre o que gostariam de ver no diploma. Não parece haver muita organização coletiva.
Eu diria que provavelmente é uma avaliação correta. Acho que muitos congressistas estão a tentar entrar em conversações individuais aqui ou tornar a sua prioridade conhecida acolá. Quando penso em quem está a agir como um bloco, acho que a bancada hispânica do congresso tem o potencial de operar como um bloco forte porque acredito que se uniram em torno de apoios para famílias de imigrantes e de estatuto misto, por isso estou a ver alguma dinâmica de organização, um bloco nesse sentido.
Portanto, existe potencial, mas também não sabemos que tipo de diploma vai ser, certo? É um projeto que quer enviar uma mensagem e que apenas pretende reunir uma lista de coisas antes de deixá-la na mesa de Mitch McConnell [líder da maioria republicana no Senado] e fazer com que ele diga não? Ou é um diploma sério em que nos comprometemos a garantir algumas prioridades importantes? É difícil dizer e difícil prever porque já temos uma ideia e um padrão de como essas negociações avançaram nos últimas dois, três, quatro pacotes diferentes de ajuda. O padrão foi: bom, o Senado não aceita, então não há nada que podemos fazer, então pelo menos aceitamos isto. E parece, pelo menos, que parte de uma posição muito impotente. E talvez seja assim que as pessoas se sintam mesmo, não sei.
Mas se é assim que temos negociado todas estas leis – o que é que nos impede de estar exatamente no mesmo posicionamento em relação ao CARES 2? Por mais que desejemos falar sobre essas prioridades progressistas, o que é que impede que aconteça a mesma coisa, as promessas constantes de que as prioridades da bancada vão ser incluídas no próximo projeto de lei? E se não estiver neste, estará no seguinte, e o seguinte vem e não pode estar nele, estará no próximo.
A certa altura, sinto-me mais confortável com a honestidade e com a clareza sobre os nossos limites e o campo em que estamos a operar. Mas não acho que seja saudável que nos digam, e basicamente digam a toda a gente o que nos disseram, que todas estas coisas vão estar no diploma e não sabemos quais delas vão estar mesmo e quais não vão estar. E, se eles não estão a falar a sério, prefiro que nos digam isso. Isto torna tudo muito nebuloso e os eleitores do meu distrito – que estão à beira de ser despejados, que estão a escolher entre expor-se aos riscos do coronavírus para ir trabalhar ou aos riscos de inação por ficarem em casa – estão a pedir-me clareza sobre o que esperar e é muito difícil, enquanto membro do Congresso, não ser capaz de dar uma resposta direta, porque eu não… nós não recebemos uma resposta direta até que o texto da lei seja finalizado.
Eu entendo que vocês ainda não saibam como será o diploma, mas há relatos de que a liderança do partido está bastante inclinada para mudar a elegibilidade das parcerias público-privadas de forma a incluir lobistas, basicamente representarão um resgate de grandes empresas pelos contribuintes. O que achas disto? Já ouviste falar de outras ideias com as quais estás preocupada que entrem na lei?
Eu acho que essa é uma das versões mais perigosas que já ouvi. Essa provavelmente ganha o prémio. O facto de resgatarmos lobistas antes de resgatar empresas de famílias negras, pequenos negócios, em alguns dos locais mais afetados do país, é assustador. E não entendo por que apoiaríamos isso. Verdadeiramente não entendo. Eu sei que as pessoas podem dizer “ah, há uma empresa boa de lobistas aqui ou ali” [risos], mas olhamos para o setor em geral, e isso não é possível. Os lobistas já têm poder que chegue neste processo todo, muito obrigado.
Também ouvi coisas sobre um resgate financeiro a empresas de seguros de saúde sem que haja realmente uma expansão significativa da cobertura de assistência médica, ou equipará-la a uma expansão do Medicarev ou Medicaidvi, e para mim isso é extremamente preocupante. É extremamente preocupante que pensemos numa coisa dessas, e não sei com que seriedade esse tema está a ser considerado, mas é certamente uma das propostas que vimos e ouvimos no processo. E a ideia de que resgataríamos as mesmas indústrias e a mesma estrutura, a mesma estrutura falida que levou a esta crise, sem fazer qualquer coisa para corrigi-las, é muito errada. E acho que está no mesmo espírito da expansão esmagadora do poder corporativo que estamos a ver em muitos outros aspetos deste resgate e destes pacotes de ajuda.
Uma última pergunta. Disseste que aqui e ali houve congressistas a conversar individualmente com a liderança do partido. Conseguiste ter uma dessas conversas e, em caso afirmativo, quais foram os teus pedidos sobre o que gostarias de ver no CARES 2?
Há muitas coisas que precisam ser defendidas. O que eu tenho dito tem muito a ver com respostas às necessidades básicas da nossa comunidade. E algumas dessas respostas, penso eu, não são controversas – acho que o que estamos a tentar fazer não é uma ousada afirmação progressista, estou apenas a tentar conseguir fundos para que as nossas famílias possam fazer funerais, porque as pessoas estão a perder cônjuges e filhos devido ao coronavírus no meu distrito. Agora, de repente, tens uma família que ganha 40 mil dólares por ano a ter de pagar 35 mil dólares em despesas de funeral. Estas situações estão concentradas nas comunidades negras e pardas do país, estamos a falar da exacerbação geracional da diferença de riqueza racial. Os fundos para funerais podem não parecer muito, não é um Medicare For All propriamente dito, mas é algo que é desesperadamente necessário na comunidade. E é basicamente a isso que estamos reduzidos, certo? Acho que uma grande parte da carga emocional para as pessoas que representam as comunidades mais afetadas é que estamos reduzidos a implorar ao governo federal que permita que as famílias enterrem os seus entes queridos.
Mas, além disso, também estamos a implorar pelo financiamento de cidades e estados, financiamento direto, local, porque também estamos a falar de demissões em massa pelos governos municipais. Ok, o Estado de Nova Iorque, de certa forma, tem sido mais progressista que o governo Trump. Eles farão, no Estado da Califórnia e em outros Estados, o que Trump não fará. E agora estamos no ponto em que estamos a falar de cidades e municípios que podem estar à beira de despedir uma grande parte dos seus funcionários municipais, trabalhadores que estão na linha de frente e paramédicos. E acho que as pessoas não entendem o quão terrível é esta situação. Ouvi do município de Nova Iorque que só temos a situação assegurada até ao fim deste mês. E, se chegarmos a junho e não houver financiamento real para Nova Iorque, e não é apenas Nova Iorque, mas todo o país, então teremos de começar a tomar decisões materiais muito reais sobre quais os sistemas de suporte de vida que vamos ter de cortar. Estaremos numa perigosa situação social, económica e de saúde pública, e não podemos permitir que isso aconteça.
É por isso que uma das minhas maiores preocupações tem sido essa forma de encarar as coisas com o “vamos falar disso na próxima vez” – não é apenas uma questão de quando fazes alguma coisa, também é se consegues chegar a tempo. Se chegas a uma pessoa que precisa de reanimação cardio-respiratória com dois minutos de atraso, é tarde demais. Essa é a situação em que estamos neste momento. Na verdade, estamos a lutar para ver se conseguimos fazer o suficiente, e se conseguimos fazer o suficiente a tempo.
Certo. Ok. Isso é deprimente. Bem, muito obrigada pelo teu tempo. Fico muito grata. Mas espera, minto. Tenho mais uma pergunta, só para acabar de uma maneira mais leve. Já jogaste Animal Crossing?
Ah! Acabei de comprar uma [Nintendo] Switch.
A sério?!
Sim, e construí a minha ilha há dois dias. Estou muito entusiasmada com isso, mas também me sinto mais preguiçosa porque tenho para aí uns 10 sinos em dois dias e acabei de aumentar a minha tenda. Mas tudo bem. Na verdade, tem sido muito bom para a minha saúde mental.
É literalmente a única razão pela qual tenho estado mentalmente sã, porque realmente não consigo prestar atenção a livros ou filmes, mas fico completamente concentrada na minha ilha.
Sim, sim, eu sinto o mesmo. Acho que porque é um pouco mais interativo do que apenas assistir passivamente a um filme.
E acho que há algo de gratificante naquilo, porque trabalhas e ganhas dinheiro e podes pagar as tuas contas imediatamente.
[Risos] O Animal Crossing é a única realidade em que os millennials serão donos de uma casa.
Entrevista de Aida Chávez publicada originalmente no The Intercept. Tradução de João Garcia Rodrigues para o Esquerda.net.
Notas do tradutor:
i O Medicare for All é uma proposta para universalizar o acesso aos serviços de saúde nos EUA.
ii Famílias que incluem um membro em situação legal no país, seja por ter cidadania ou a documentação necessária de imigração e outros membros em situação irregular.
iii Bancada do Partido Democrata, centrista, que advoga a “responsabilidade fiscal”.
iv Maior bancada do Partido Democrata que se posiciona no centro político.
v O Medicare é um sistema de seguros de saúde gerido pelo governo dos EUA.
vi O Medicaid é um programa de saúde dos EUA para pessoas com baixos rendimentos.