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O triunfo da ilusão

Nos dias que correm, a urgência das lutas que temos de enfrentar necessitam, acima de tudo, de ser agregadoras de novas maiorias sociais. Para isso, impera efetuar uma análise muito mais abrangente das conquistas até aqui conseguidas. Artigo de António Soares.
“Todas as lutas pelos direitos humanos (LGBT e Antirracista), evidenciam apenas, como escreveu David Harvey, ‘uma certa capacidade de adaptação do capitalismo a essas dimensões da mudança social’” - Foto Terry Reinke, dezanove.pt
“Todas as lutas pelos direitos humanos (LGBT e Antirracista), evidenciam apenas, como escreveu David Harvey, ‘uma certa capacidade de adaptação do capitalismo a essas dimensões da mudança social’” - Foto Terry Reinke, dezanove.pt

Por muito que nos inquiete a alma as imagens da fome e da guerra, a nossa ação desvanece no calor da garantia de que amanhã acordaremos em paz. Todavia, o tempo escasseia e vivemos com demasiada pressa para nos unirmos contra a tamanha incerteza num mundo de tão livres desigualdades. Se algum dia iremos alcançar a liberdade plena? “También será posible que(…) ni tú, ni yo, ni el outro la lleguemos a ver, pero habrá que forzarla, para que pueda ser” (Labordeta in Canto a La Libertad).

Nos dias que correm, a urgência das lutas que temos de enfrentar necessitam, acima de tudo, de ser agregadoras de novas maiorias sociais. Para isso, impera efetuar uma análise muito mais abrangente das conquistas até aqui conseguidas. Aferir de forma critica e escapar da alienação que nos enfraquece, é compreender que quando a Nike ou a Adidas lançam uma linha especial do Dia da Mulher, não estamos perante uma vitória feminista. Não estamos, nem estaremos, perante uma vitória feminista, enquanto os seus lucros continuarem a ser um mero reflexo da exploração de todas as mulheres que trabalham a dobrar. Aferir essas mesmas conquistas é entender, simultaneamente, que a realização de filmes da Disney onde figuram personagens negras não é uma vitória antirracista. Não o é, nem será, enquanto diariamente continuarem a morrer pessoas por causa da cor da sua pele. Aferir tudo isto é compreender, também, que hastear uma bandeira LGBTI no Parlamento Europeu nunca poderá ser considerado um triunfo, enquanto subsistirem, na própria União Europeia, países que condenam abertamente a homossexualidade. Para estas conquistas, tão relevantes quanto simbólicas, existe um conceito, o Pinkwashing. O Pinkwashing não é uma vitória dos movimentos sociais, mas uma adaptação do próprio capitalismo que, galopando na maré anti-conservadora, aproveita para fazer florescer novos mercados para onde possa escoar a acumulação de mais-valia.
 

Os primórdios da luta antirracista nos EUA, por exemplo, surgiram como resposta ao sistema capitalista vigente. O Black Panther Party encabeçava esta luta contra o capital e, no seu programa dos 10 pontos para a libertação total do povo negro, estavam exigências assumidamente anticapitalistas. As suas reivindicações eram por justiça, com a consciência plena de que essa mesma justiça nunca passaria da utopia enquanto perpetuar este sistema desigual, que expropria a classe trabalhadora e promove a discriminação racista. No último ponto do seu programa, as exigências eram pela Terra, pelo Pão, pela Habitação, pela Educação, pelo Vestuário, pela Justiça e pela Paz. Exigências assustadoramente atuais, “por uma terra sem amos”. Porém, a força e as conquistas alcançadas por estes movimentos, não sendo insignificantes - longe disso-, perderam robustez com a adaptação do neoliberalismo às suas causas. A luta pela igualdade de género, por sua vez, reflete a ausência de uma linha política que nos conduza no caminho para a justiça plena. Para nos conduzirmos até à tão ambicionada vitória final, temos de entender que qualquer feminismo que ambicione a “emancipação humana”, de que nos falava Karl Marx, terá de ser sempre marxista. Para tal, é premente enquadrar a luta pela emancipação das mulheres como parte integrante e imprescindível da luta de classes, conscientes de que no atual sistema económico, a libertação das mulheres apenas poderá ser materializada nos estratos superiores da sociedade, em detrimento das “mulheres invisíveis”. O feminismo, no capitalismo, liberta apenas as mulheres burguesas do trabalho reprodutivo, mas isola as demais mulheres - as da classe trabalhadora - nas suas vidas de horas e horas de trabalho não remunerado. As relações de forças não deixam de existir, assim como as relações de poder entre géneros, e a opressão machista não termina com a ascensão de uma mulher a CEO. Diria, até, que a própria integração da mulher no mundo empresarial, assim como a integração de todas as lutas pelos direitos humanos (LGBT e Antirracista), evidenciam apenas, como escreveu David Harvey, “uma certa capacidade de adaptação do capitalismo a essas dimensões da mudança social”, embora permaneça a violenta opressão de classe. Por isso, reafirmo, com a consciência da mudança que se precipita perante as nossas vidas, que todos os movimentos que procurem a libertação e a igualdade social plena, ou são marxistas ou serão logrados pelo neoliberalismo, estando fadados à repetição de devaneios apolíticos e à celebração de conquistas abstratas.

Artigo de António Soares

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, deputado municipal do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Santo Tirso
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