A sua obra é transgressora e, em vários momentos, gerou protestos conservadores, com boas razões. Numa fase do seu trabalho (por exemplo, “Tirs”, um conjunto de pinturas compostas por materiais que escondem a cor, que apenas se revela quando perfurada por tiros de uma arma) espelhou a revolta contra agressões masculinas. Mais tarde, na fase a que chamou de “Nanas”, libertou-se de um passado de violação, depressão e tentativa de suicídio, e colocou o corpo no centro do debate, não rejeitando o batom e os saltos altos. As “Nanas” são um retrato desse feminino que a artista pretende afirmar, não apenas pela sua grandiosidade mas também pelas suas formas — coxas grandes, nádegas grandes, seios grandes, barrigas grandes —, pela linguagem corporal — são mulheres que dançam, mulheres de cara ao vento — e pela sua cromática impositiva. Estas mulheres roliças distinguem-se das figuras esguias que a moda do final do século estabelecia como cânone de beleza feminina. As “Nanas” têm, além do mais, pele branca, amarela e preta, revelando a preocupação da escultora em propor um vínculo solidário entre todas as mulheres.
Uma das primeiras, maiores e mais polémicas “Nanas” foi a “Hon — en katedral” (“Ela — A Catedral”), exibida em 1966 no Museu de Arte Moderna de Estocolmo. “Hon” foi uma instalação temporária que media 25 metros de comprimento e 15 de largura, pesando seis toneladas. Pintada com cores brilhantes, “Hon” estava deitada de costas e com as pernas abertas. Cá fora, a música ambiente consistia em Bach e suspiros de amantes. Os visitantes que se aventuravam a entrar nesta “Nana” grávida deparavam-se com uma instalação que incluía uma galeria de falsas pinturas pintadas ao estilo de artistas famosos, um cinema, um aquário (no útero) ou um bar de leite (no seio esquerdo) e um planetário (no seio direito). Esta grande escultura penetrável pretendia evocar o prazer feminino: era um convite a procurá-lo e a celebrá-lo, sem pudor. Numa das coxas de “Hon”, podia ler-se a inscrição: “Que se envergonhe quem pensa mal disto.” Sobre a obra, Saint Phalle dizia que desejava que as pessoas, “quando dela saíssem, estivessem diferentes de quando entraram”.
Conhecendo agora a biografia da artista, a sua obra revela-se em toda a intensidade, porque percebemos o papel da arte na superação de vários traumas da sua vida, e o lugar da maternidade, tão presente na sua obra, como parte de um debate devastador que travou consigo própria. A arte e a vida são assim, ensinam a olhar e a tentar perceber.
Artigo de Francisco Louçã, publicado no jornal “Expresso” a 12 de setembro de 2020