O elo ancestral entre o Dragon Ball e o maoismo

16 de março 2024 - 12:25

O criador da série Dragon Ball, o japonês Akira Toriyama, faleceu a semana passada. O Ministério das Relações Exteriores da China foi um dos que o homenageou. O que se deve a algo que vai muito além da boa vizinhança. A uma inspiração e raízes em comum entre a sua obra e o marxismo chinês. Por Hugo Albuquerque.

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Oolong e Goku na primeira série de Dragon Ball. (Reprodução)
Oolong e Goku na primeira série de Dragon Ball. (Reprodução)

A obra de Akira Toriyama revolucionou a banda desenhada, encontrou fãs entusiasmados no mundo inteiro e atravessou gerações. Não à toa, a sua morte repentina na semana passada, uma vez que ele estava ativo e a produzir, emocionou o mundo, despertando memórias afetivas e atestando a grandiosidade das suas criações – a maior delas, a série Dragon Ball, um fenómeno como mangá e depois como anime.

Em tempos de hostilidades globais gravíssimas, pareceu uma simpática política de boa vizinhança o Ministério de Relações Exteriores da China reverenciar Toriyama. Mas para além disso, é interessante notar como a obra dele tem, objetivamente, uma profunda ligação com a China: Dragon Ball é uma série inspirada num dos maiores romances da literatura chinesa: a Jornada ao Oeste (Xī YóuJì 西遊記).

Não se trata de uma grande jornada qualquer. Jornada ao Oeste, publicada por volta de 1570, é um dos chamados “romances clássicos da China” e inspirou ninguém menos do que Mao Zedong. A obra, uma narrativa fantástica baseada num facto histórico ocorrido séculos antes, diz muito sobre a difusão do budismo no Extremo Oriente, e estabelece um elo profundo entre chineses, japoneses e coreanos – ajudando ainda a construir o marxismo na China.

Jornada ao Oeste, a obra primordial

Na obra original, atribuída a Wu Cheng’en, o monge Tang Sanzang parte para o Oeste em busca de relíquias perdidas do budismo. Junto dele, seguia Sun Wukong, o Rei Macaco, um ser com poderes especiais de transmutação, super-força e outros dons, que irá protegê-lo na acidentada viagem rumo à Ásia Central. Sun Wukong, por sinal, é escrito 孙悟空 em caracteres chineses, cuja leitura em japonês é, não por acaso, Son Goku.

Embora tenha sido publicado no século XVI, os factos do livro passam-se no século VII, durante a Dinastia Tang – especificamente sob o reinado do imperador Taizong –, esta ficção fantástica refere-se a uma história real, na qual o monge se chamava Xuanzang – o que se insere no contexto da chegada do budismo à China e na sua busca por afirmação e autonomia formal.

O budismo chega à China por volta do século II, pelo Oeste, especificamente a partir de um centro de difusão pela região da Gandara, cujo território hoje é parte do Paquistão e do Afeganistão. Contudo, a enorme diferença da língua chinesa para a língua gandara, ela própria aparentada do sânscrito, fez com que os chineses recorressem a elementos da sua própria cultura e filosofia para traduzir os escritos budistas.

É esse budismo, que acaba por ser representado em caracteres chineses e chega, depois, à Coreia e ao Japão nas suas variantes. O périplo de Xuanzang no século VII explicava-se no sentido de estabelecer as bases próprias de um “budismo chinês”, embora o próprio budismo consistisse já, naquele momento, numa grande variedade de escolas e ramos no próprio subcontinente indiano e adjacências.

Ironicamente, a obra literária é produzida noutro contexto, onde o budismo já estabelecido na China e difundido pela Coreia, Japão e Vietname, convive sincreticamente com o daoismo e formas de pensamento como o confucionismo e tantas outras escolas de pensamento chinesas – a necessidade de uma autonomização através da busca de raízes já não existia no século XVI.

Outra relação evidente de Dragon Ball com essa mistura de culturas é que o Rei Macaco, na trama de Wu Cheng’en, era referente em parte à deidade Hanaman da tradição védica – absorvida pelo budismo –, mas era apresentado como uma criatura nascida de uma pedra mágica, que ganhou os seus poderes ao aprender as práticas daoistas. Nada mais sincrético, portanto – com a agravante de que já havia inúmeras lendas com macacos antes da chegada do budismo no país, a começar pela própria astrologia chinesa.

O presidente Mao e o Rei Macaco

Pelo menos uma grande obra de Mao Zedong trata da Jornada ao Oeste: Sobre a contradição (1937), onde o líder revolucionário chinês pontua que a dialética, pelo menos como a imaginada por Hegel, não era estranha aos chineses – e, nesse contexto, ele cita as 72 metamorfoses de Sun Wukong/Son Goku como um dos exemplos da presença da noção da identidade de contrários na literatura chinesa.

Mao refere-se à obra também na sua primeira entrevista, dada ao jornalista americano Edgar Snow, e publicada no livro A estrela vermelha brilha sobre a China, citando um facto normalmente ignorado: como o romance chinês era mal-visto e praticamente proibido, uma vez que os jovens estudantes, que ansiavam com os concursos públicos, deveriam concentrar-se na memorização dos clássicos ortodoxos do confucionismo.

Nesse sentido, Mao relembrou a Snow que lia os romances:

Enquanto ainda muito jovem, apesar da vigilância do meu velho professor, que odiava esses livros proibidos e os classificava de malignos. Costumava lê-los na escola, cobrindo com um Clássico quando o professor passava. Bem como a maioria dos meus colegas de escola. Sabíamos a maior parte das histórias de cor, discutíamos e rediscutíamo-las diversas vezes. Conhecíamos mais delas do que os homens mais velhos da aldeia que também as apreciavam e costumavam compartilhar histórias connosco. Acredito que eu possa ter sido bastante influenciado por tais livros, lidos numa idade tão impressionável.

A proibição não era aleatória. O romance chinês contava histórias de rebeldia e aventura, despertando o imaginário popular para muito além da lógica de manutenção do Império. Num país com um histórico de revoltas como a China, estas tramas eram, ao mesmo tempo, tradicionais e subversivas – embora como percebeu Mao mais tarde, “havia algo de peculiar nestas histórias: a ausência de camponeses que lavravam a terra”.

A juventude revolucionária chinesa do início do século XX, contudo, dedicou-se a leitura dessas obras que se tornaram canónicas a partir de 1949, quando eles, finalmente, tomaram o poder – e juntamente veio também a alfabetização das massas, tornando pela primeira vez na História, aqueles camponeses capazes de ler e escrever no seu próprio idioma.

A criação de Dragon Ball e a universalização de signo pop

Em 1983, quando estava a terminar a série de Dr. Slump, Toriyama foi pressionado pelo seu editor, Kazuhiko Torishima, a criar uma série nova. Depois dos testes nos mangás de uma história só, Dragon Boy e As aventuras de Tongpoo, ele chegou à forma final que desembocou em Dragon Ball, cuja série durou de 1984 a 1995, ganhando já em 1986 a sua primeira fase como anime.

As referências de Toriyama, em vez de ser os Estados Unidos ou o Ocidente, foram para a China, e enquanto ele buscou na Jornada ao Oeste a inspiração para a narrativa, a estética da ação era inspirada nos filmes de kung-fu de Bruce Lee e Jackie Chan – responsáveis nos anos 1970 e 1980 por acabar com a farsa colonial do chinês como o “homem doente da Ásia”, uma pecha xenofóbica e racista que não deixava de afetar também os japoneses.

Aliás, para o presidente Mao, Bruce Lee era um verdadeiro herói, pois com as suas performances inesquecíveis de artes marciais no cinema o povo chinês passou a ser representado como um sujeito capaz de lutar e resistir ao imperialismo. A imersão de Toriyama no mundo chinês, como uma matriz cultural comum ao Japão e ao Extremo Oriente, produziu um indiscutível ponto de encontro e convergência asiática.

Ainda hoje na China, o Rei Macaco causa frisson e é uma figura que emerge continuamente. Seja na forma de uma animação recente, depois de tantas versões – inclusive a icónica série em live action para a televisão chinesa de 1986 ou mesmo como o álbum da banda punk chinesa Oh!Dirty Fingers, que tem o brasileiro Alê Amazônia, autor do livro Mil olhos, mil braços, na bateria.

América Latina, Ásia e a luta anti-imperialista na onda de Dragon Ball

Se o livro original de Jornada ao Oeste significou um ponto de convergência entre budismo e daoismo – e o pensamento chinês tradicional –, Dragon Ball serviu como um ponto focal entre China e Japão que se irradiou pelo mundo, como uma obra pop e universal, arrebatando, naturalmente o Brasil e a América Latina, como referência incontornável de uma época.

No Brasil, a série em mangá de Dragon Ball foi publicada pela editora Conrad, que também lançou mais tarde a versão chinesa em banda desenhada do texto clássico da Jornada ao Oeste – ambas pelas mãos do icónico editor Rogério de Campos. O anime, que passou em canal aberto, deixou um imenso legado – principalmente entre a geração que cresceu nos anos 1990.

Parece curioso que os chilenos tenham usado Dragon Ball na iconografia dos protestos dos anos 2010, e que atores locais que fizeram as dobragens do anime tenham inclusive emprestado as suas vozes em prol das manifestações. Mas a aparente ingenuidade e simplicidade de Dragon Ball e a sua matriz, a Jornada ao Oeste, carrega várias camadas e subtilezas, mas cuja mensagem mais poderosa é um apelo à luta e à afirmação dos orientais e dos povos oprimidos.

O imperialismo sempre procurou a demonização e desumanização dos oprimidos e colonizados, o que fez de Fu Manchu o protótipo de supervilão moderno: o colonizado é sempre apresentado, paradoxalmente, como débil e fraco, mas também pérfido e perigoso numa narrativa pouco coerente. Portanto, viragens estéticas como Dragon Ball podem parecer pueris, mas possuem um poder tremendo de mudar as situações através de um novo imaginário.

O racismo contra orientais, os “amarelos”, é uma das chagas de uma ordem imperial que ainda não acabou. Não é por acaso que os japoneses foram bombardeados com armas nucleares – ou mantidos em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos e no Brasil, enquanto foram perseguidos nos anos 1960 para não se aliarem com os Panteras Negras na Frente Unida contra o Racismo.

Num mundo no qual a sinofobia grita, talvez a chave para, pelo menos, a questão do imperialismo na Ásia seja uma reconciliação entre chineses e japoneses – e o reencontro dos nipónicos com a sua matriz asiática. Se hoje isto parece um sonho distante na política, a morte de Toriyama e os ecos do seu legado parecem oferecer um caminho possível para essa etapa da libertação internacional.


Texto publicado originalmente na revista Jacobina. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.


Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).