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O colapso do imperialismo no Vietname

A 27 de janeiro de 1973 era assinado o acordo de Paz, que cobria a retirada das tropas dos Estados Unidos, após uma derrota militar face a uma guerrilha popular. O uso de bombardeamentos maciços, incluindo de napalm, foi o distintivo terrível desta agressão. Por Luís Fazenda.
Foto Wikimedia.

A 27 de janeiro de 1973 era assinado o acordo de Paz no Vietname, em Paris, por Henry Kissinger, secretário de estado americano e Le Duc Tho, do politburo do Partido dos Trabalhadores no poder no Vietname do Norte. Participaram os Vietcong, guerrilha de libertação no sul e o governo do Vietname do Sul, simples fantoche de Washington. Kissinger e Tho seriam nomeados para o Nobel da Paz mas Tho recusou ser agraciado. Esse acordo de Paz cobria a retirada das tropas dos Estados Unidos, após uma derrota militar face a uma guerrilha popular, apesar da desigualdade das baixas de combate. Mais de um milhão de mortos da guerrilha e cinquenta e cinco mil mortos, ao que acrescem trezentos mil feridos, no lado americano.

O uso de bombardeamentos maciços, incluindo de napalm, foi o distintivo terrível desta agressão.

O acordo era em grande medida um instrumento seráfico pois previa a coexistência da guerrilha com o governo de Saigão até à realização de um presumível referendo sobre a reunificação do País. Nada disso aconteceu. Ignorando essa folha de parra que Kissinger lá pôs no papel para disfarçar a derrota absoluta dos EUA, em 1975 os Vietcong libertam Saigão e reunificam o Vietname. Rebatizam Saigão de Cidade de Ho Chi Minh, em tributo ao líder histórico do comunismo e da libertação imperialista da França, do Japão e dos EUA.

O impacto dos acordos de Paris na política mundial foi enorme.

Estávamos no auge da Guerra Fria e a vitória do Vietname foi creditada como triunfo à URSS e China, apesar de uma independência arreigada dos vietnamitas e até do Partido dos Trabalhadores, que passou a denominar-se Partido Comunista do Vietname após a Libertação. Para o movimento antiimperialista de todos os quadrantes a capitulação americana significava que a principal potência do Planeta, com uma capacidade militar inigualável, podia ser humilhada pela vontade e unidade dos povos. As imagens da fuga aérea de Saigão em 1975 dos americanos que ainda restavam no sul da península, uma fuga caótica e desesperada, foi justamente lembrada recentemente a propósito da retirada americana de Cabul.

Essas imagens foram estímulo para várias lutas de libertação na América Latina ao longo dos anos 80, apesar do golpe fascista no Chile de 1973. A derrota militar dos EUA reforçou a perceção de que o imperialismo não tinha condições para intervir militarmente em África para socorrer a ditadura portuguesa que estava no estertor da sua dominação em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A humilhação americana na Ásia foi um incentivo ao vulcão persa, rebatizado de Irão com a revolução de 1979, uma revolução nacionalista e teocrática fortemente antiamericana. Mesmo no pós-25 de Abril em Portugal havia a consciência de que os Estados Unidos estavam demasiado ocupados com a retirada de Saigão para eventualmente intervir diretamente no processo que se afirmava socialista. Carlucci, o embaixador americano em Portugal, preferiu manobrar com as forças reacionárias internas, sem que a NATO se distraísse do controlo dos Açores.

A importância do movimento contra a guerra do Vietname nos Estados Unidos foi já bastante destacada. E bem, porque essa resistência civil foi muito assente na juventude estudantil e trabalhadora que era chamada a morrer nas florestas vietnamitas. Essa resistência foi decisiva para desmoralizar a "big nation", criar um antimilitarismo civil, "make peace not war", criar todas as dificuldades políticas para justificar uma guerra de puro horror sobre populações civis em nome da "contenção do Comunismo", aliás, operação já derrotada no terreno desde 1968, com a chamada ofensiva do Tet. Nesse sentido, Kissinger, incapaz de conter a guerrilha, quis conter os danos brutais geopolíticos e internos que essa aventura causara ao imperialismo ocidental. O Vietname não foi o empate da Coreia, entre norte e sul, na guerra anterior. Kissinger precisava de se reaproximar da China e forçar o isolamento da União Soviética e do seu campo, tarefa impossível com a presença de tropas ianques em Saigão. O reagrupamento e recuperação da ofensiva global da NATO só acontecerá nos tardios oitenta com Ronald Reagan. O rearmamento ideológico e militar dos EUA e aliados, neoliberalismo e mísseis intercontinentais, a par com os desastres próprios do socialismo e do nacionalismo, apagaram o lastro negativo da derrota do Vietname. Ela, contudo, aí está inscrita na História cheia de ensinamentos para quaisquer estratégias de libertação do imperialismo. O heroísmo dos insurretos é ainda uma lição de vida de como a militância revolucionária é a opção séria nas encruzilhadas das sociedades oprimidas e classistas.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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