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O Anti-Vargas Llosa

Tal como Friedrich Engels no Anti-Dühring, Atilio Borón desmonta, no seu novo livro, Mario Vargas Llosa e o liberalismo latino-americano, na altura em que o Nobel da Literatura peruano defende um golpe de Estado contra a vitória de Pedro Castillo. Por Hugo Albuquerque.
Atilio Bóron apresenta o seu livro sobre Vargas Llosa. Foto da Universidade do Chile.
Atilio Bóron apresenta o seu livro sobre Vargas Llosa. Foto da Universidade do Chile.

Quando o argentino Atilio Borón publicou em espanhol o Feiticeiro da tribo há dois anos, o seu antípoda e personagem central, o Prémio Nobel de Literatura peruano Mario Vargas Llosa, ainda não tinha mergulhado de vez nas trevas do golpismo latino-americano. Hoje, com Vargas Llosa usando o seu prestígio internacional para apoiar um golpe no seu país natal, o livro de Borón torna-se mais atual do que nunca, justamente quando chega aos leitores brasileiros na sua tradução para português pela Autonomia Literária — e prova que se tratava de uma avaliação acertada.

O Feiticeiro da tribo pertence a uma velha tradição de polémica sob a forma de livro ou discurso, cuja origem remonta a Júlio César e ao seu clássico perdido Anti-Catão, mas também encontra ecos na tradição socialista: O Anti-Dühring de Friedrich Engels, escrito entre 1876 e 1878 como uma série de artigos publicados originalmente no jornal alemão Vorwärts – e só depois compilado na forma de um livro.

No Anti-Dühring, Engels deu uma utilidade única à charlatanice e ao obscuro projeto de Karl Eugen Dühring, seu antípoda, tomando-os como contra-exemplo para desenhar um discurso fundamentado para o socialismo científico. Borón faz o mesmo com Vargas Llosa, que apesar do seu talento para as letras, não deixa de ser um sujeito semelhante a Dühring — principalmente quando insiste em se colocar como analista e ideólogo político, alinhando-se com Keiko Fujimori, a ultradireitista derrotada nas recentes eleições peruanas que não aceita o resultado das urnas.

Vargas Llosa, o golpista

Vargas Llosa, como é de conhecimento geral, não pareceu satisfeito em, apenas, apoiar a ultradireitista Keiko Fujimori na última eleição presidencial peruana. Ele, agora, resolveu fazer coro junto com Keiko na imprensa internacional para denunciar uma fraude eleitoral que não existiu e, assim, impedir o vencedor das eleições, o sindicalista Pedro Castillo, de tomar posse.

Alberto Fujimori, o pai de Keiko, foi eleito presidente nos anos 1990 contra o próprio Vargas Llosa, então um surpreendente candidato, e rapidamente destruiu por dentro a democracia peruana com uma combinação do choque privatizador com autoritarismo estatal – com direito à violência estatal direta e terrorismo de Estado. Keiko é a herdeira autorizada do clã, e dos interesses da extrema-direita peruana, e Llosa sabe muito bem disso.

Que enigma seria este, que levaria a um Nobel de Literatura, opositor de primeira hora do fujimorismo, a apoiar uma fraude eleitoral conduzida por esse mesmo movimento? Ainda que se discorde à esquerda de Vargas Llosa, pensam os ingénuos, como ele poderia ter transigido tão perigosamente contra a democracia?

Essa é a história que Borón explica muito bem no seu livro, com uma ácida polémica, cujo título faz referência direta ao recente livro de Vargas Llosa O apelo da tribo, precisamente a obra em que o Nobel peruano expõe as suas referências intelectuais: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

A questão não está apenas em quem Vargas Llosa busca referência, mas também da maneira como ele se apropria de cada um deles – sobretudo de um Smith, cujas influências magnânimas impactaram mesmo um Karl Marx e, justamente por isso, é considerado por Llosa apenas nas partes que interessam à sua construção ideológica. E isso Borón demonstra com paciência e apuro.

O liberalismo real e Vargas Llosa: o médico é o monstro

Quando Borón demonstra como Vargas Llosa é lento a criticar os crimes de figuras como Margaret Thatcher e Ronald Reagan, mas veloz a atacar qualquer socialista por qualquer motivo, não há uma “contradição”: mas a expressão da coerência seletiva e ideológica de um personagem – que como o Dühring de Engels, personifica não só um espírito do tempo como também um ideário. O liberalismo real é, afinal de contas, como Vargas Llosa.

Basta ver o seu nascimento como movimento político nas decadentes monarquias espanhola e portuguesa no início do século XIX: uma tentativa de, ao mesmo tempo, derrubar as monarquias absolutistas e manter o colonialismo. É só ver o que foi o Triénio Liberal na Espanha ou a Revolução Liberal do Porto — e como a palavra “liberalismo” deixa de ser uma expressão filosófica para entrar, só a partir daí, no léxico da política concreta.

Na América Latina, os liberais levantaram-se contra os seus irmãos nas metrópoles, mas reproduziram aqui uma outra contradição: a libertação da nossa América da metrópole ibérica veio desacompanhada da libertação dos povos americanos, os quais apenas passariam a ter por senhores os antes intermediadores coloniais.

Isso explica o porquê do Brasil ter visto nascer, já em 1831, o seu Partido Liberal, quase três décadas antes do Whig Party passar a chamar-se Partido Liberal no Reino Unido. Daí ser curioso tratar o liberalismo britânico ou americano como “autênticos” em contraste a um liberalismo “espúrio” dos países latinos, sobretudo da nossa pobre América Latina.

Desgraçadamente, o que talvez o liberalismo anglo-americano tenha de minimamente progressista, uma certa apropriação da ideia de bem-estar social, é o que, paradoxalmente, ele tem de menos autêntico enquanto liberalismo, formulado no século XX como uma forma de deter o avanço do socialismo – e isso Vargas Llosa sabe e desgosta pelas piores razões. O mesmo socialismo que é a única via real de emancipação latino-americana.

É como O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson, no qual o monstro e o médico são, literalmente, a mesma pessoa – essa “contradição” seja para o liberalismo ou para Vargas Llosa são os dois polos de uma mesma unidade, a ambivalência necessária para se ter coerência de classe, isto é, coerência para e como parte da classe dominante.

O velho aristocrata colonial contra a classe trabalhadora

Borón é cirúrgico ao demonstrar que o liberalismo pouco se empenhou em lutar pela democracia, embora se apodere de um discurso democrático apenas no que lhe interessa. Isso antes, mas hoje também. Vargas Llosa até 2021 tinha, no entanto, uma certa aura de vestal, conservada pelas suas bondades de cinco em cinco anos, que coincidiam com as eleições no seu país natal, o qual já acompanhava à distância, no conforto de sua mansão na Espanha.

A cada cinco anos, o romancista peruano surgia para apoiar a figura antifujimorista de turno, o que já bastava para convencer os incautos. Em 2016 fora o banqueiro de origem europeia Pedro Pablo Kuczynski e antes, em 2011, o militar nacionalista Ollanta Humalla, ambos apoiados pelas esquerdas pelo menos na segunda volta – mas nenhum dos dois, eleitos presidentes por margem infíma contra Keiko, eram de esquerda.

A coligação antifujimorista não mudou muito ao longo dos últimos dez anos. Nem na distribuição geográfica, nem na sua composição de classe. A figura que, desta vez, a encabeçou na segunda volta mudou no entanto: um professor do interior de esquerda, sindicalista, rondero, a síntese da sofrida base camponesa que resiste, eleição a eleição, à tentativa da burguesia peruana de restaurar o regime de terror dos Fujimori.

Por essa razão, Don Mario mudou de lado desta vez e apoiou a quem ele próprio chamava de a filha do ditador, embora isso não tenha sido lá um grande reforço eleitoral para Keiko Fujimori. Entre o fujimorismo e a esquerda, a posição de Vargas Llosa é clara: não à tortura, ao terrorismo de Estado e à ditadura, desde que isso não resvale em qualquer forma de alternativa reformista social, principalmente se tiver a cara do povo.

No caso, a escolha de Vargas Llosa foi bem fácil nos seus termos. Tudo contra o fujimorismo, menos a esquerda. E já estava tudo lá, como Borón destrinçou bem, quando apontou que Vargas Llosa é capaz de censurar um suspiro social-democratizante de um Isaiah Berlin, ou esconder uma aresta autoritária de um Hayek – mas não é capaz de tolerar qualquer mudança no status quo da segunda região mais pobre do planeta – e hoje epicentro global da pandemia de Covid-19.

Boron está certíssimo em apontar, e fê-lo antes de 2021, como Vargas Llosa era há muito tempo na sua sazonal nobreza eleitoral, onde já dava mostras de que chegaria aqui. Só não viu quem não quis, todas as vezes em que o anti-comunismo do Nobel flertou com as piores pulsões do seu país e do nosso continente. E Pedro Castillo, hoje, talvez seja o seu pior pesadelo por ser um intelectual orgânico da classe trabalhadora vindo da província, mum país no qual o Departamento de Lima, onde fica a capital do país, concentra metade da riqueza nacional.

Ironias do destino, Vargas Llosa, cujo avô era um homem alinhado ao presidente progressista José Luis Bustamante y Rivero, depois derrubado pelo major Manuel Odría – cujo regime serve de pano de fundo para aquela que Llosa considera a sua obra-prima – hoje marcha com militares golpistas como o ex-ditador militar Morales Bermúdez — um general nonagenário que governou o Peru no fim dos anos 1970 e que acaba de ser denunciado, junto com outros militares do alto escalão, pelo Ministério Público local, justamente por insuflar o golpe contra o resultado das urnas.

Neste exato instante, a luta é para que Castillo possa exercer o mandato que o povo peruano lhe concedeu. Isso, depois de uma eleição de David contra Golias, na qual Castillo venceu a máquina do capitalismo peruano, que escolheu Keiko Fujimori, mais uma vez, como a sua representante. Figuras civilizadas como Vargas Llosa são, na sua distância e desprezo das massas, os antípodas reais contra os quais os povos latino-americanos precisarão, cedo ou tarde, se levantar de forma definitiva.


Resenha do livro O feiticeiro da tribo: a farsa de Mario Vargas Llosa e do neoliberalismo na América Latina de Atilio Borón (Autonomia Literária 2021).


Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

Artigo publicado na Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal.

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