O acordo Hamas-Fatah, visto por dentro

22 de maio 2011 - 9:44

Entendimento entre as duas principais facções palestinianas é resultado da influência das revoluções árabes e da frustração dos palestinianos com a divisão interna, defende Mustafa Barghouti em entrevista ao Middle East Channel, do Cairo.

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Mustafa Barghouti: "Fatah e Hamas perceberam que, separados, começariam a perder o apoio popular." Foto de salamanderr, FlickR

O acordo político assinado no Cairo entre os dois principais partidos políticos palestinianos marca a primeira vez, em quatro anos, que há um governo palestiniano unificado nos territórios (até aqui, a Fatah governava a Cisjordânia e o Hamas, Gaza).

O médico Mustafa Barghouti, que participou activamente das negociações que levaram ao acordo e que lidera o movimento Iniciativa Nacional Palestina, que também assinou o acordo, falou, do Cairo, ao Middle East Channel sobre as suas implicações.

Há anos militante pelos direitos dos palestinianos e pela resistência não violenta, Barghouti concorreu como candidato nas eleições presidenciais palestinas em 2005, nas quais obteve o segundo lugar, quando Mahmoud Abbas foi eleito. Logo depois, foi eleito para o Conselho Legislativo Palestino, em 2006; em 2007, foi ministro da Informação do governo da unidade palestina, que teve vida curta.

Middle East Channel: Por que este acordo entre Fatah e Hamas aconteceu agora? O acordo foi sendo tentado, sem sucesso, há anos. O que aconteceu agora, que levou ao acordo?

Mustafa Barghouti: São vários factores. Um dos mais importantes, na minha opinião, é o alto grau de frustração dos palestinianos, de todos os lados, com a persistente divisão interna. De certo modo, pode-se dizer que seja influência das revoluções árabes, na Palestina. No final de Janeiro e início de Fevereiro começaram as manifestações públicas pelo fim da divisão. E as pessoas mostraram-se suficientemente maduras e prudentes para perceber que ninguém precisava de um terceiro partido, contra os dois existentes, e que, sim, era hora de pressionar na direcção da unificação. A pressão das ruas foi muito importante. Fatah e Hamas perceberam que, separados, começariam a perder o apoio popular.

Um segundo factor foi o fracasso do processo de paz e, sobretudo, a intransigência obcecada dos israelitas. Tornou-se evidente para Abbas que nada seria jamais conseguido em discussões com Netanyahu. Portanto, o único modo para alterar a situação dependia de nós fortalecermos o nosso lado – o lado dos palestinianos. Abbas fez o que podia ter feito para convencer Netanyahu a aceitar um processo de paz sério e significativo. Até que se convenceu de que Israel não tem interesse algum em fazer a paz. Além do mais, Israel usou o facto de os palestinianos estarem divididos, como pretexto para nada fazer. Foi a ideia de que os palestinianos não tinham liderança que os representasse.

Um terceiro factor foi, não há dúvidas, as mudanças que houve na região. Acho que o Egipto passou a ser mais positivo, mais pro-activo. Primeiro, os egípcios estimularam a ideia de que nós palestinianos nos entendêssemos internamente. E nós palestinianos, com o nosso próprio empenho, conseguimos avançar. Os egípcios, então, puderam voltar à cena como mediadores; e, em apenas três, quatro horas, numa única reunião, Fatah e Hamas assinaram o acordo. De novidade, que os mediadores egípcios são hoje menos sensíveis às pressões externas contra a unificação. Os egípcios trabalharam muito firme e empenhadamente a favor do acordo – e essa é mudança muito importante, efeito das outras mudanças pelas quais está a passar hoje toda a política egípcia.

Há mais um factor importante. Percebemos que, como palestinianos, tínhamos, nós mesmos, que definir o papel que mais nos interessava, que tínhamos de mudar alguns pontos, e que, para fazer isso, tínhamos de alterar a correlação de forças em relação a Israel. Para fazer isso, o primeiro passo, passo vital, tinha de ser a unidade interna. Esse foi o resultado da nossa avaliação, depois do fracasso do processo de paz. Os dois partidos palestinianos não têm objectivos essencialmente diferentes: os dois apoiam a solução dos Dois Estados e, hoje, os dois lados convergiram a favor da resistência não violenta. Hoje todos acreditam mais nas possibilidades da resistência não violenta. É oportunidade que se configura pela primeira vez, para que haja um governo palestiniano unificado. Em minha opinião, é a primeira boa oportunidade que se cria para uma paz real, duradoura.

Houve outros acordos de unificação, antes, que não deram certo. Quais os principais obstáculos que se podem prever, em relação ao novo acordo?

O principal obstáculo é que o acordo não interessa a Israel e, portanto, Israel mobilizará toda a sua máquina de propaganda contra a unificação dos palestinianos. Foi o que Israel já fez em 2007, quando atacaram, com propaganda, o acordo que havia e a democracia palestina. Já estão a tentar fazer o mesmo, outra vez. Claro que ainda temos muito trabalho por fazer. Temos de formar o governo e a liderança interna da OLP. Mas acho que as acções de Israel para boicotar o acordo são o principal obstáculo a enfrentar.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Avigdor Lieberman, já reagiu, de forma nada difícil de entender. Disse que Israel prefere que os palestinianos continuem divididos, porque divididos são mais fracos e unidos são mais fortes. Foi claramente ao ponto: essa é, exactamente, a posição de Israel. Se Israel tivesse qualquer interesse real na solução Dois Estados – que foi apoiada claramente na assinatura do acordo, tanto pelo presidente Abbas como pelo líder do Hamas, Khaled Meshaal – essa seria a ocasião certa para Israel aceitar um acordo com todos os palestinianos, em vez de insistir em negociar só com Abbas, como tem feito. Estamos diante de uma oportunidade excelente para a paz, mas, infelizmente, Israel preferiria voltar ao passado, antes da união dos partidos palestinianos, do que pensar no futuro.

Mas quero chamar a atenção para mais um aspecto. É importante ver que o acordo que assinamos não é apenas acordo para voltar a um tempo em que os palestinianos viviam sob um único partido. O acordo é, sobretudo, para recuperar o que perdemos com a divisão, porque perdemos, naquela época, toda a democracia que tínhamos e sob a qual vivíamos. O acordo visa, sobretudo, reconstruir as instituições do estado, que foram destruídas. Visa revitalizar o parlamento palestiniano e o conselho legislativo. Trata-se de devolver aos cidadãos o direito de escolher os governantes em eleições limpas e livres, votando democraticamente. Quem se manifeste contra o acordo entre Fatah e Hamas, terá de explicar por que exige democracia na Líbia e na Síria... mas não exige democracia na Palestina.

Considerando-se a resposta do governo de Israel, a resposta até aqui cautelosa do governo Obama e a reacção declaradamente negativa do Congresso dos EUA, e, também, o facto de um governo de unidade não atender às três condições do Quarteto, por que a unidade dos palestinianos deve ser vista como útil à causa da paz?

Em primeiro lugar, acho que os EUA devem ficar atentos para não repetir os erros de 2007. Os EUA devem ter posição independente – não devem limitar-se a seguir o que Israel faça. Devem ficar atentos, sobretudo, em não seguir os conselhos de Israel, porque tudo o que Israel diga ou faça visa, exclusivamente, garantir que Netanyahu tenha pretexto para nada fazer a favor da paz e para prosseguir com a política de construir nos territórios ocupados. É altamente desejável que os EUA construam abordagem mais cuidadosa, e que considere o potencial que o acordo gera, com vistas à paz. Dentre outras coisas, o acordo abre um caminho real para a reconstrução de Gaza, além de ser boa via para que se reconstruam também as instituições em Gaza, e para consolidar o que já foi construído na Cisjordânia. A alternativa é a divisão continuada, que se pode tornar irreversível e dificultar ainda mais qualquer solução futura.

Não esqueça que esse acordo não visa construir um governo partilhado entre Hamas e Fatah. Trata-se de um entendimento – o que está bem claramente dito no texto do acordo e nos discursos – segundo o qual Abbas será autorizado, agora por todos os palestinianos, inclusive pelo Hamas, a prosseguir nas negociações. Abbas não mudou nenhum dos parâmetros que a OLP aceitou antes, inclusive o reconhecimento de Israel. Há uma única diferença: agora, Abbas está autorizado por todos os palestinos – não só pelo Fatah. O próprio governo da Autoridade Palestina nada terá a ver com as negociações. A sua tarefa é trabalhar na frente interna e preparar as eleições. A OLP continuará responsável pelas negociações – com a delegação chefiada por Abbas.

Há agora, também, uma probabilidade real de manter um amplo cessar-fogo – e não só em Gaza – e de menos violência, inclusive na Cisjordânia. O melhor meio de ultrapassar a rejeição e a oposição israelita, é a comunidade internacional aceitar o acordo, reconhecendo o direito que os palestinianos têm de promover reformas democráticas e, depois, aceitar o futuro governo a ser eleito e dispor-se a negociar com ele.

Pelo acordo assinado, o Hamas passa a ser parte da OLP?

O Hamas será parte da OLP – bem como todos os grupos que estavam fora da OLP e que agora também assinaram o acordo, inclusive o movimento do qual participo, a Iniciativa Nacional Palestina. Tudo isso significa que haverá um liderança de transição que não substitui nem se sobrepõe ao papel que hoje cabe à comissão executiva da OLP e nada muda nos compromissos da OLP. A nova estrutura de transição trabalhará para preparar eleições livres e democráticas para o Conselho Nacional Palestino da OLP, que há 25 anos não realiza eleições. Na prática, o acordo fortalece a OLP e garante-lhe representatividade, sem alterar os actuais compromissos, e abre a porta para ampla participação democrática, de todos.

Como se ligam o acordo e a possibilidade de a OLP comparecer à ONU, em Setembro, para requerer reconhecimento internacional para o Estado Palestiniano?

Acho que o acordo ajuda a fortalecer essa ideia. O comportamento de Israel tornou-nos mais determinados do que nunca, e daremos andamento a esse projecto. Agora, os palestinianos podem apresentar-se como frente unida, ante a comunidade internacional, para requerer que o Estado Palestiniano seja reconhecido, o que inclui, evidentemente, o fim da ocupação.

Houve quem levantasse a possibilidade de os EUA suspenderem o financiamento que dão à Autoridade Palestiniana, por causa desse acordo. Como analisa essa possibilidade e que impacto teria para os palestinos?

Esperemos que não aconteça, mas, se acontecer, será um problema a ser enfrentado. O mais importante é que os EUA não dêem início à prática de sanções contra nós, ou pressionem outros governos, como fizeram em 2007, para que implantem sanções contra os palestinos.

Há, neste acordo, uma oportunidade – há consenso entre os palestinianos em torno da solução Dois Estados; e todos estamos dispostos a nos abstermos de qualquer prática violenta. A nossa mensagem é: os palestinianos estão prontos para fazer a paz.

Por outro lado, há um risco. Se Israel preferir pressionar a Autoridade Palestiniana – e os EUA apoiarem Israel e, por sua vez, pressionarem a comunidade internacional contra os palestinianos –, o efeito será um só: o colapso total da Autoridade Palestiniana e de todo o projecto construído até aqui. Que escolham: se escolherem a oportunidade, ela levará à paz; se escolherem o risco, ele levará ao desastre.

E o que será feito das forças de segurança palestiniana? O Hamas manterá as suas milícias armadas?

Concordamos que, nesta primeira etapa, tudo ficará como está – o status quo será mantido na Cisjordânia e em Gaza. Os arranjos vigentes não serão alterados e adiante, aos poucos, enfrentaremos gradualmente essa e outras questões, depois de o governo estar reconstituído e em funções. Será formado um comité de supervisão formado por profissionais que planearão e executarão a unificação e a des-partidarização de todo o aparelho de segurança. De tal modo que, quando tivermos eleições, devemos estar organizados de modo a que os corpos eleitos possam assumir a responsabilidade pelas forças de segurança.

Há quem diga que, ao fazer esse acordo, a OLP adoptou a cartilha do Hamas. Como o senhor reage a esse argumento?

Perdoe a franqueza, mas isso é bullshit. Lixo, mentiras, intrigas. O que aconteceu é que o Hamas adoptou a cartilha da OLP. Se ler o discurso de Khaled Meshaal [1], lá está dito que o Hamas aceitou a solução Dois Estados. Meshaal disse muito claramente que o Hamas subscreve proposta a favor das fronteiras de '67, capital em Jerusalém, estado soberano e democrático; que é a favor de eleições e que o Hamas respeitará o resultado de eleições livres e democráticas. O que mais querem de nós? Melhor fariam todos se não engolissem, tão cegamente, a propaganda de Netanyahu. É o caminho errado, que leva a nada de bom e promove o atraso.

6/5/2011

Traduzido pelo colectivo da Vila Vudu

Nota de tradução:

[1] Pode-se ler não o discurso, mas longa matéria sobre ele, com longas citações comentadas, em “Arab media focus on Khaled Meshaal post-reconciliation”, 13/5/2011, Middle East Monitor (ainda não traduzido).