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Novos surtos estão a atingir as populações mais pobres e precarizadas

Moisés Ferreira defende que o combate à pandemia de covid-19 passa também por intervir nos fatores socioeconómicos que tornam algumas populações mais vulneráveis. Dados indicam que surtos na Grande Lisboa não são de transmissão comunitária, mas laboral.
“A saúde pública é determinada também - e se calhar principalmente - por um contexto socioeconómico”, alertou Moisés Ferreira.
“A saúde pública é determinada também - e se calhar principalmente - por um contexto socioeconómico”, alertou Moisés Ferreira. Fotografia de Tiago Petinga/Lusa.

Os especialistas em saúde pública reunidos esta segunda-feira com os partidos no Infarmed afirmaram que o aumento de casos de covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo está ligado à construção civil e ao trabalho temporário. À saída de mais uma reunião técnica sobre a pandemia de covid-19 em Portugal, Moisés Ferreira lembrou que são precisamente os contextos, nomeadamente o laboral, que fazem com que determinadas populações estejam em situação de risco acrescido para a infeção por covid-19.

“O que os dados mostram é que não tem havido grande transmissão comunitária, mas sim em contexto laboral”, esclareceu.

Como exemplo de situações de risco acrescido, o deputado do Bloco de Esquerda referiu a realidade dos trabalhadores que, devido aos baixos salários e rendas elevadas, compartilham casa com muitas pessoas. “É um contexto de risco em que se deve intervir, porque por muito que queiram, estas pessoas não conseguem adotar comportamentos de segurança para consigo e para com os outros”, explicou, defendendo a necessidade de garantir "um alojamento ou realojamento adequados para estas pessoas”. 

Também a habitação e os transportes configuram contextos de risco. Para além das situações já conhecidas nos transportes públicos, Moisés Ferreira referiu os transportes de trabalhadores garantidos por empresas de trabalho temporário, “muitas vezes sem condições nenhumas”. 

A própria realidade dos surtos na Grande Lisboa alertam para que “não se pode descartar a possibilidade de a própria precariedade ser um contexto de risco”, uma vez que, para além da condição salarial e socioeconómica, estes trabalhadores estão também em situação de vulnerabilidade “pela volatilidade da sua mão de obra”. 

“A saúde pública é determinada também - e se calhar principalmente - por um contexto socioeconómico”, alertou Moisés Ferreira.

O deputado realçou também outra das conclusões desta reunião entre peritos e que indica que não existem diferenças de comportamento entre a região norte e a região de Lisboa e Vale do Tejo. “Não são os comportamentos individuais que estão a explicar o aparecimento de novos surtos”, mas sim “contextos específicos em que determinadas populações, geralmente as mais pobres e as mais precarizadas, estão a viver”, destacou o deputado do Bloco de Esquerda. 

Para o partido, é “garantindo habitação, garantindo transportes com o máximo de segurança, garantir regras nas empresas de trabalho temporário e garantir que tudo o que é trabalho precário não declarado é substituído por trabalho seguro e efetivo” que estamos a intervir nos contextos e nos determinantes que permitem controlar os surtos atualmente existentes e evitar o surgimento de novos. 

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