Lone Star

Novo Banco: Investigação revela conflito de interesses em negócio imobiliário

31 de março 2025 - 11:32

A Lone Star vendeu uma herdade no Meco como rústica e devoluta a preço de saldo, sabendo que tinha capacidade para construção superior a 50 mil metros quadrados. Dois anos depois da venda, a herdade foi parar às mãos da mulher do gestor que aprovou a venda. Queixa sobre o negócio deu entrada na CMVM.

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Novo Banco
Foto de Paulete Matos.

Numa investigação publicada esta segunda-feira no jornal Público, são desvendados os meandros de mais uma operação financeira com bens imobiliários do Novo Banco a preço de saldo e a figuras próximas dos responsáveis pela gestão do banco, o fundo Lone Star.

No centro do negócio está o gestor Volkert Reig Schmidt, que era presidente da GNB Real Estate, a gestora de ativos imobiliários do Novo Banco à data da venda da Herdade da Ferraria em 2022 por 1,5 milhões de euros. Esta herdade com mais de 260 hectares e sem construção à frente e limite junto à praia do Meco foi vendida como rústica e devoluta, apesar de o vendedor ter na sua posse um parecer a afirmar que o terreno possuía “capacidade edificatória de 50.441,14 metros quadrados, dos quais cinco mil para habitação própria”.

Esta informação, que valorizaria o terreno para um preço entre os 10 e os 15 milhões, ou sejam dez vezes mais do que o preço da venda, não constou do dossier de venda, pelo que a proposta de 1,5 milhões feita por Alexander Tilmant, partner da Tela Energy, Alvaro Fernandez Alonso, director-geral da Michael Page, e Vasco Pereira Coutinho, foi a vencedora face aos 1,1 milhões da proposta concorrente.

Dois anos após o negócio, os três compradores passam as suas quotas da empresa detentora da Herdade da Ferraria para Ana Argos, a mulher de Volkert Schmidt, que no final de 2024 deixou a presidência da GNB, mantendo-se como vogal da administração, e que em declarações ao Público remeteu mais explicações sobre o negócio para o Novo Banco.

Uma denúncia sobre os contornos desta operação já chegou à CMVM e segundo este jornal o seu conteúdo é “demolidor” e aponta para “um quadro de uma alegada promiscuidade entre partes e para a actuação de Volkert Schmidt em conflito de interesses”. Por seu lado, o Novo Banco diz que fez uma análise interna à intervenção do administrador e que “encontrada qualquer evidência de inobservância das regras ou procedimentos aplicáveis.”

Desde que assumiram a gestão dos ativos imobiliários do Novo Banco, que pertenciam antes ao BES, estes gestores da GNB que vêm da sociedade espanhola Hudson Advisors, que tinha avaliado os ativos do Novo Banco antes da entrada da Lone Star, venderam carteiras de imóveis por alguns milhares de milhões de euros, boa parte abaixo do valor contabilístico, e alguns a fundos controlados por figuras próximas dos novos donos do Novo Banco. A diferença entre o valor vendido e o valor contabilístico acabava sempre por ser suportada pelas injeções do Fundo de Resolução, cobrindo o prejuízo destas operações.