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“Novas Cartas Portuguesas” e julgamento das Três Marias sobem ao palco em Lisboa

Com a peça “Ainda Marianas”, que estará em cena a partir de 21 de abril no Teatro Nacional D. Maria II, Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu pretendem convocar uma reflexão em torno da memória coletiva de um país, da sua gente e do seu tempo.

O espetáculo, interpretado pelas atrizes Ana Baptista, Rita Cabaço e Teresa Coutinho, é construído a partir de textos da obra escrita por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Durante o processo criador, as dramaturgas Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu recorreram ainda a documentação histórica da época e consultaram o processo judicial no Campus da Justiça, bem como falaram com Maria Teresa Horta, a única autora ainda viva.

No final de um ensaio para a imprensa, Catarina Rôlo Salgueiro, citada pela agência Lusa, referiu que teve conhecimento do livro quando viu o filme de Leonor Noivo “Outras cartas ou o amor inventado”. A dramaturga afirmou-se “admirada por nunca o ter lido”: “Percebi que é praticamente desconhecido, pelo menos na minha geração”, frisou.

“Além da voz política”, “dar a conhecer a parte literária e despertar a curiosidade nas pessoas que não o conhecem” é um dos grandes objetivos da peça que as encenadoras esperam poder levar a escolas.

“Esperamos que as pessoas fiquem ao menos com curiosidade. Nunca nos é apresentado o livro, nem contada a história destas mulheres, que se arriscaram, mulheres com família, com marido e filhos. Nunca é mostrada. Fala-se tanto em artistas censurados e nunca das três Marias. É muito estranho que não seja mencionado, ainda para mais, tratando-se de um documento histórico, sociológico, mas também sobre a guerra colonial”, apontou Catarina Rôlo Salgueiro.

“Ainda Marianas” começa com o encontro das três Marias no restaurante Treze, em que decidiram escrever um livro a seis mãos, na sequência da brutal perseguição a Maria Teresa Horta, por ter escrito o livro Minha senhora de mim. Mas a peça atravessa o processo criativo em si e as consequências da ousadia das Três Marias, levadas a julgamento pela publicação de uma obra que, segundo alegou o regime fascista, era “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”.

Livro desafiou a ditadura e a ordem patriarcal

Em maio de 1971, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa começaram a escrever, a seis mãos, as Novas Cartas Portuguesas. Acordaram que, para a escrita em conjunto, partiriam das cartas de amor endereçadas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, publicadas em Portugal em edição bilingue pela Assírio & Alvim, com o título Cartas Portuguesas, e em tradução de Eugénio de Andrade.

Em Novas Cartas Portuguesas, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa desafiam a ditadura e a ordem patriarcal, as convenções sociais do país. Na obra são denunciadas as várias opressões a que as mulheres estavam sujeitas, o sistema judicial que perseguia as mulheres escritoras, bem como a Guerra Colonial e a violência fascista.

Em outubro de 2020, o Esquerda.net entrevistou Maria Teresa Horta sobre o processo de criação literária, a perseguição de que foram alvo e o movimento de solidariedade que atemorizou o regime fascista.

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