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No Reino Unido a austeridade mata, diz estudo de referência

O estudo do ex-presidente da Associação Médica Mundial, Michael Marmot, demonstra que uma década de políticas de austeridade fez com que a esperança de vida estagnasse e a taxa de mortalidade subisse para os mais pobres no Reino Unido. É a primeira vez num século que acontece, sublinha o especialista que fala em “década perdida”.
Manifestação a favor do Serviço Nacional de Saúde britânico. Março de 2017. Foto de Radarsmum67/Flickr.
Manifestação a favor do Serviço Nacional de Saúde britânico. Março de 2017. Foto de Radarsmum67/Flickr.

Michael Marmot é especialista no estudo da desigualdade no acesso à saúde. Professor de Epidemiologia e de Saúde Pública no University College de Londres, tinha feito, há dez anos, um estudo de referência sobre o acesso a cuidados de saúde, intitulado “Será que a desigualdade nos está a fazer doentes?”

Dez anos volvidos, através do Institute of Health Equity, atualizou o seu estudo e chegou à conclusão de que a esperança de vida estagnou no Reino Unido e que a taxa de mortalidade subiu entre os mais pobres. Os cortes no sistema público de saúde e a década de políticas de austeridade tiveram assim efeitos significativos e palpáveis nos indicadores de saúde do país, garante.

O relatório Health Equity in England: The Marmot Review Ten Years On foi tornado público esta terça-feira. Os dados estatísticos que analisa são públicos e não são novidade: foram elaborados pelo Office for National Statistics e pela Public Health England. Aí se conclui que a desigualdade social está a matar mais depressa. E quanto mais uma zona é pobre mais se abrevia a esperança de vida. Assim, as desigualdades na esperança de vida estão a aumentar.

Num período de 120 anos é mesmo a primeira vez que a esperança de vida estagna nas zonas mais pobres do Reino Unido, especialmente no nordeste. Entre as mulheres destas zonas, a esperança de vida caiu entre 2010 e 2012 e voltou a cair entre 2016 e 2018. Particularmente afetadas foram as mulheres de origem paquistanesa e do Bangladesh. A taxa de mortalidade aumentou nas pessoas entre 45 e 49, aquela que cresceu na época do liberalismo de Margaret Thatcher.

Marmot classifica a década anterior como a “década perdida” devido às políticas de austeridade: “do aumento da pobreza infantil e fecho de centros para a infância, ao decréscimo do financiamento da educação, ao aumento do trabalho precário e dos contratos de trabalho de zero horas, à crise de habitação acessível e ao aumento de sem-abrigo, às pessoas sem dinheiro suficiente para ter uma vida saudável e a serem obrigadas a recorrer a bancos alimentares em largos números, às comunidades ignoradas com condições fracas e poucas razões de esperança... diminuição do investimento na educação, aumento da precariedade, crise habitacional, crise alimentar. Podemos dizer que a austeridade afetou de forma adversa os determinantes sociais que têm impacto na saúde a curto, médio e longo prazo. A austeridade lançou uma sombra enorme sobre a vida das crianças que nasceram e cresceram sob os seus efeitos”, escreve na apresentação do seu estudo.

Para além disto, segundo a perspetiva de Marmot, a austeridade continua: “o governo pode dizer que a austeridade acabou mas até que gaste mais 31% do que atualmente gasta em saúde pública e educação, a austeridade continua,” declarou à Al Jazeera.

Ao The Guardian o médico assegura que “este prejuízo à saúde da nação não precisava de ter acontecido”.

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