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No passado dia 24 de abril, o Arraial voltou ao Carmo

Centenas de pessoas encheram o Largo do Carmo de cor e celebraram Abril ao som de Benjamin, O Gajo, Pedro Branco, Tropicáustica, Jovem Conservador de Direita, Luca Argel, Lord Strike, samba, forró e muito mais. No final, não faltaram vozes para cantar “Grândola, Vila Morena”. Artigo publicado em Abril é Agora.
Arraial do Carmo. Fotografia: Abril é Agora

A Cultra, a Transform e a Associação Abril lançaram o repto e foram várias as associações, coletivos, ativistas e artistas a responder ao desafio de trazer novamente o Arraial ao Carmo, e de reforçar a ideia da necessidade premente de preservar e defender os valores de Abril.

Ao palco subiram nomes como Benjamin, O Gajo, Pedro Branco, Tropicáustica, Jovem Conservador de Direita, Lord Strike, Luca Argel, Rita Dias, Viva o Samba ou Tó Trips. A Solidariedade Imigrante - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes trouxe o Teatro do Oprimido para o Carmo e o Espaço Baião e a Casa Brasil desafiaram todas as pessoas presentes a dançar samba e forró.

Inúmeras associações e coletivos, como a Associação José Afonso, Associação Artistas Urbanos pela Transformação Social, SOS Racismo, Comité de Solidariedade com a Palestina, Casa do Brasil, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, Sabores da Nossa Terra (Grupo Comunitário Galinheiras e Ameixoeira), Associação Torre Amiga, Cicloficina, Djass – Associação de Afrodescendentes, GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, Centro de Vida Independente (CVI), Climáximo, Associação de Combate à Precariedade - Precários Inflexíveis, e A Coletiva asseguraram a sua presença no arraial.

Nas suas bancas foi possível conhecer o trabalho destes coletivos, partilhar experiências, falar sobre as lutas que travamos e as que se avizinham, concertar forças. Mas também comer calulu de peixe, cachupa e pastéis de atum, bolo de fubá, caldinho de feijão, e várias iguarias vegetarianas. Nestes espaços encontrámos ainda livros, t-shirts e artesanato.

No final do Arraial, o Coro da Achada deu o mote e cantou-se “Grândola, Vila Morena” a várias vozes. Ao alto, os punhos erguidos empunharam cravos vermelhos. E o Largo do Carmo ecoou: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”.

"A luta que o 25 de Abril continua a inspirar e o povo a exigir"

A iniciativa foi previamente apresentada por Guadalupe Portelinha, presidente da Associação Abril, e Mariana Carneiro, em representação da Cultra.

Guadalupe Portelinha afirmou que o arraial popular assinalou “o início das festividades dos 50 anos do 25 de Abril, como forma de reafirmar os valores, os ensinamentos e a experiência da participação popular, única garantia da defesa e perenidade da democracia”.

Foi com grande júbilo que a ativista lembrou que a vivência em democracia tem agora mais dias do que os que tivemos em ditadura, expressando desejar “que ela seja uma marca forte e duradoura para que não voltemos atrás, para que não deixemos que a escalada da direita progrida no seu caminho predador tanto no nosso país como no mundo”.

“Este Arraial é, ainda, não só um recomeço mas também essa necessidade de manter viva a memória e a luta que o 25 de Abril continua a inspirar e o povo a exigir”, continuou.

Guadalupe Portelinha evocou as conquistas de Abril, quando “o país recuperou a liberdade, foi libertado do silêncio, da permanente tristeza e isolamento, dos pés descalços, das mulheres de luto eterno, amarradas nos seus lenços negros, do analfabetismo congénito, das prisões e da tortura dos que não roubaram e não mataram, da mentalidade retrógrada, castradora, machista, das mordaças, da dor, da morte, da guerra e da cor única”.

“Nesse dia, as pessoas descobriram que as cores do arco-íris iluminavam o mundo e lhes indicavam os caminhos da esperança, e acordaram do seu longo sono e viram que estava bem vivas e dispostas a lutar para conquistar um país melhor, mais justo e equitativo”, afirmou.

Mas a presidente da Associação Abril referiu, por outro lado, que “o contexto político – social, quase universal, de escolha por parte dos Governos de programas neoliberais limitam e oprimem os anseios e as necessidades mais justas dos seres humanos, afastando-nos progressivamente das metas traçadas em prol da igualdade, equidade e justiça social”.

Neste contexto, Guadalupe Portelinha considera que se torna “obrigatório um questionamento sobre a qualidade desta nossa democracia, em vários aspetos da vida, designadamente as situação do desemprego dos jovens, da precariedade e dos milhares de trabalhadores a quem não basta ter um emprego para se livrarem da pobreza”.

"É tão necessário falar de Abril hoje e, mais do que isso, semear Abril"

Mariana Carneiro, membro da Cultra, explicou que, com a programação “Abril é Agora”, se pretende “levar a Revolução dos Cravos a todo o país e ocupar o espaço público. O espaço onde, como aconteceu no Carmo, se lutou pela Liberdade”.

Para a ativista, o resgate da memória da resistência antifascista “é uma importante arma contra o fascismo e contra a contaminação da ideologia colonial”, que “nos deve mobilizar a todas e a todos”.

Mariana Carneiro falou sobre “as portas que Abril abriu”, frisando “que não permitiremos quaisquer retrocessos”. Mas fez ainda referência às “lutas que ficaram por cumprir” e ao “caminho que temos pela frente”.

“E é tão necessário falar de Abril hoje. E, mais do isso, semear Abril”, afirmou, lembrando que, em Portugal, “temos uma representação antidemocrática que atenta contra todas as conquistas de Abril” e “forças políticas que nos acenam com a bandeira do liberalismo e nos querem convencer que este é sinónimo de Liberdade”, quando aquilo que “nos propõem é a destruição do Estado Social, as privatizações na saúde, o endividamento dos estudantes,...”

Mariana Carneiro defendeu que, para que “Abril seja agora”, é preciso estar atenta e responder aos “novos desafios com que se defronta Portugal e o Mundo”. E isso passa por combater “o racismo estrutural em Portugal, uma herança colonialista e bafienta”; acabar com “a precariedade laboral que retira o futuro aos jovens e que penaliza os mais frágeis”; lutar “por uma cultura democrática e uma gestão participada nas escolas”; “responder de imediato às alterações climáticas”; “superar um sistema patriarcal que continua a oprimir e a explorar as mulheres”; e “deitar por terra todas as discriminações contra as pessoas LGBTQI+”.

Como passa também por “compreender que as desigualdades, opressões, discriminações que alimentam o sistema capitalista, sejam elas baseadas em dimensões como o género, classe e diferenças étnico-raciais, se sobrepõem e exigem a interseccionalidade das lutas”. 

No final da sua intervenção, a ativista garantiu que continuaremos a semear Abril todos os dias.


Artigo publicado em Abril é Agora

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