Este sábado, Mariana Mortágua encerrou o primeiro congresso da Aliança da Esquerda Europeia (ELA), que ocorreu na Alfândega do Porto, afirmando que o modelo neoliberal construído pela extrema-direita nos últimos 50 anos falhou.
A coordenadora do Bloco de Esquerda começou por dar como exemplo o “maior sucesso” de Margaret Thatcher, ou seja, a política de Tony Blair como primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista. Foi a partir desse caso que identificou a viragem à direita operada pelo neoliberalismo, que arrastou os partidos trabalhistas, socialistas e sociais-democratas para um novo paradigma da direita.
“Esse modelo falhou”, disse Mariana Mortágua. “Não trouxe prosperidade. Trouxe grande desigualdade e crise económica atrás de crise económica. Há uma geração de pessoas que nunca conheceu outra coisa que não uma vida de crises”.
A deputada bloquista sublinhou que em vez de liberdade, este modelo trouxe frustração. Em vez de segurança, trouxe instabilidade. E em vez de conforto, aprofundou o individualismo e operou uma meritocracia assente na culpa.
“Cabe-nos a nós construir as alianças para mudar isto e para construir um futuro, e temos uma ferramenta para isso” na ELA, disse. “Temos muitos instrumentos que este fim-de-semana se transforma numa aliança, numa esperança”.
Mariana Mortágua assinalou duas certezas na atual crise do capitalismo: que a direita está a transformar a Europa e o mundo num lugar mais perigoso, e que nada está decidido, que o fim da história não existe e que a Aliança da Esquerda Europeia pode influenciar a história.
Lembrando o ataque de Israel ao Irão, explicou que o ataque não provocado é lançado porque Israel está a lutar por mais poder na região. “Está a fazê-lo porque sabe que o pode fazer”, sublinhou Mariana Mortágua. “Porque antes deste ataque matou 55.000 de palestinianos em Gaza e ninguém fez nada”.
Os imperialismos de Trump nos Estados Unidos da América, de Putin na Rússia e em Israel são “peças que se juntam”. “Temos impérios e imperadores que disputam poder , territórios e recursos e que mataram a lei internacional e os direitos humanos ”, disse a coordenadora do Bloco de Esquerda. “E o que é que a União Europeia é capaz de dizer aos povos europeus?”.
Mariana Mortágua disse que os ataques à Europa estão dentro dos países e das democracias. A extrema-direita em França, na Itália, na Hungria. E defender a Europa é “os nossos povos”. É “ouvir todos e lutar por todos”.
Um programa para a esquerda em Portugal
Direcionando-se à política portuguesa, a deputada bloquista apontou que o programa que o Governo de Luís Montenegro apresentou no seu programa caminha para a liberalização do Estado e da economia, acompanhando a lógica neoliberal.
“'Incentivar o desempenho dos trabalhadores' significa que os aumentos salariais são substituídos por prémios isentos de contribuições”, como “'rever o subsídio de desemprego para incentivar entrada no mercado laboral' quer dizer reduzir o valor ou tempo do subsídio, e obrigar as pessoas a aceitaram um salário inferior à prestação para a qual contribuíram”.
Mariana Mortágua explicou que o Governo vai baixar impostos às grandes empresas para tornar os ricos mais ricos e para facilitar que comprem casas que depois alugam para “sugar todo o salário de uma classe média a perder poder de compra todos os dias” porque há salários estagnados, saúde cada vez mais cara e escola que vai ser mais cara também. E irá atribuir a culpa dos problemas do país aos imigrantes.
“Um dia perguntarão a um representante da extrema-direita por uma das suas conquistas e ele responderá que foi o Programa de Luís Montenegro que o PS se preparar para suportar”, disse a dirigente bloquista, evocando o caso de Tony Blair e Margaret Thatcher. “A nossa responsabilidade é mostrar, explicar que a direita não vai melhorar a vida de ninguém, mas que é possível ter uma vida boa”.
Isso incluir garantir saúde, educação, casa, salário se distribuirmos a riqueza produzida. Para isso é preciso taxar os milionários, proteger o trabalho, mudar as regras da habitação, do mercado de arrendamento, respeitar os direitos humanos.
Para fazer essa luta por toda a Europa e em Portugal, Mariana Mortágua dá uma “boa notícia”: “temos um partido para o fazer, uma aliança para ir à luta, pelo feminismo, pela ecologia, pela habitação, pela igualdade e pela liberdade”, concluiu.