“Hoje nasce o partido da esperança”

13 de junho 2025 - 19:13

Mariana Mortágua encerrou o primeiro dia do Congresso do novo partido europeu, a Aliança de Esquerda Europeia, que nasce para combater “o bafo fétido do fascismo” e promete: “não ficamos parados, não esperamos, não desistimos nem cedemos nos princípios da esquerda”.

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Congresso ELA
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No final do primeiro dia do Congresso inaugural do novo partido europeu, a Aliança de Esquerda Europeia, Mariana Mortágua, começou por lembrar os acontecimentos do 10 de junho e o seu significado “disputado”.

O dia, para uns, é parte de uma “identidade aberta e porosa” com a “língua como símbolo dessa identidade em permanente transformação e atualização, com novas formas, novos significados, outros sons, outras pronúncias”. Para outros, “é uma oportunidade para lançar sobre o nosso país o bafo decadente de uma identidade fechada, purista”, que é inventada como todas as identidades do tipo nacionalistas puras.

A coordenadora bloquista lembrou que há 30 anos “esse bafo decadente desceu sobre as ruas de Lisboa” assassinando Alcindo Monteiro e que neste 10 de junho um grupo de neonazis, “entre os quais estava o assassino de Alcindo Monteiro, invadiu um teatro e espancou um dos atores” que ia fazer uma peça sobre Camões. Não esqueceu ainda que, no mesmo dia, o imã da Mesquita Central de Lisboa foi insultado numa cerimónia oficial e, no Porto, voluntárias que ajudavam pessoas em situação de sem abrigo foram atacadas por neonazis.

Aos participantes do congresso, vindos de vários pontos da Europa, explicou que os ataques deste tipo têm-se sucedido nos últimos meses: a evento culturais, lançamentos de livros, com cidadãos agredidos na rua. E esclareceu que o primeiro-ministro Luís Montenegro apenas reagiu agora com “uma referência genérica sobre a ameaça dos extremismos”, os “vários” extremismos.

Dirigindo-se a Montenegro, disse que é preciso chamar “as coisas pelos seus nomes”: “não são “extremismos”, é o extremismo de extrema direita, neofascismo”. E acrescentou que o primeiro-ministro “sabe perfeitamente o nome destes grupos” e “conhece a sua ameaça” porque leu o capítulo do RASI que foi censurado e “até hoje não sabemos porquê”.

Para Mariana Mortágua, se os neofascistas saem à rua, agridem e insultam é porque sentem que podem”. Já que se sentem “legitimados por discursos mentirosos, deturpados, que admitiram transformar a igualdade em "ideologia de género" e aceitaram colocar a imigração no centro do debate político e fazê-lo nos exatos termos da extrema direita”.

Esses discursos, servem para “mascarar a incompetência de sucessivos governos” face a um povo que está cansado de “lutas pelas coisas mais básicas da vida: não saber se vai conseguir pagar a renda da casa ou a comprar uma casa, de ver os preços a subirem quando os salários estagnam, de ter medo do futuro, de não conseguir imaginar um futuro”.

Recuando depois à crise financeira de 2008, lembrou que muitos na altura se perguntavam “como seria possível ao neoliberalismo sobreviver a uma crise tão estrutural”. Essa vingança começou “quando humilharam a Grécia, um povo que se tentou levantar pela sua libertação”. Na altura, “desumanizou-se” o povo da Grécia e o povo do Sul da Europa que sofreu com as políticas da austeridade.

A deputada vê nesta desumanização, que hoje acontece com o racismo, um elemento essencial do fascismo. Assim, para ela, “o neofascismo não é uma doença súbita, não é um raio que caia nas nossas cabeças” mas “um vírus insidioso que vai ensombrando a realidade, distorce significados, desloca fronteiras: entre o inaceitável e o aceitável, nós e os outros”.

Desta forma, o racismo e o ataque aos migrantes são instrumentais porque permitem desumanizar o outro. Mas “é também para isso serve a guerra: reestrutura o sistema económico e desumaniza”, acrescenta, considerando que a guerra de Israel contra a existência do povo palestiniano “é instrumental para a ascensão do fascismo” e que “todas as democracias que assistem caladas ao extermínio de um povo, estão mais próximas do autoritarismo”. O mesmo diz acerca de “todos os governos que protegem a escalada bélica israelita no Médio Oriente” no dia em que o Estado sionista bombardeou o Irão. Estes “são responsáveis pela transformação do direito internacional em letra morta”, o que é “uma irresponsabilidade irreparável e que torna o mundo muito mais perigoso”.

Perante este “bafo fétido do fascismo” que se sente, “não ficamos parados, não esperamos, não desistimos nem cedemos nos princípios da esquerda: não cedemos ao racismo, nas migrações, na paz”, o mesmo se dizendo sobre a igualdade, a Palestina, os direitos das mulheres, os migrantes.

A esquerda “não assiste ao desastre em direto: trabalhamos, organizamos a resistência, e preparamos a mudança”.

Portanto, o ELA apresenta-se como “a bandeira da esquerda que se levanta nos tempos mais sombrios” e “o partido da esperança”. E Mariana Mortágua conclui sublinhando: “hoje nasce uma aliança que vai marcar o futuro da Europa. Contra ventos e marés, esta é a flotilha da Liberdade”.

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