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Nicarágua: Ortega anuncia mortandade

Daniel Ortega anunciou que o seu governo, conscientemente e de maneira planificada, não tomará nenhuma medida especial para combater a pandemia de covid-19. A Nicarágua enfrenta uma catástrofe humanitária de dimensões incalculáveis. Por Matthias Schindler.
Caricatura nicaraguense sobre a política do Governo face à covid-19: noutros países os profissionais de saúde são aplaudidos, na Nicarágua cravam-lhe a lança nas costas, o braço que espeta a lança simboliza a vice-presidente, Rosario Murillo
Caricatura nicaraguense sobre a política do Governo face à covid-19: noutros países os profissionais de saúde são aplaudidos, na Nicarágua cravam-lhe a lança nas costas, o braço que espeta a lança simboliza a vice-presidente, Rosario Murillo

No dia 30 de abril de 2020, Daniel Ortega fez um discurso que entrará na história como um anúncio declarado de uma mortandade na Nicarágua. Anunciou extensa e detalhadamente que o seu governo, conscientemente e de maneira planificada não tomará nenhuma medida especial para combater a pandemia de covid-19.

A Nicarágua enfrenta uma catástrofe humanitária de dimensões incalculáveis. Isso resultará em muito mais mortes do que a repressão que o governo Ortega-Murillo causou depois de 18 de abril de 2018. Nos meios de comunicação social aparecem cada vez mais notícias sobre hospitais sobrecarregados, mortos supostamente por “pneumonia atípica”, assédios de casas onde vivem pessoas possivelmente contagiadas de Covid-19, proibições de chorar alto e de fazer velórios para as vítimas desta doença, “enterros expresso” sem cerimónias algumas e ameaças a familiares para não divulgarem informações sobre as doenças e mortes dos seus parentes. No dia 18 de maio, o governo admitiu 25 casos positivos e 8 mortos de covid-19 na Nicarágua. Mas fontes confiáveis do interior do ministério da saúde indicam que já existem 1.600 casos positivos. A pandemia já está completamente fora de controle na Nicarágua. O país não está preparado para esta situação de nenhuma maneira.

No seu discurso de 30 de abril, Ortega, com exceção de alguns comentários à parte relacionados com as “normas internacionais”, não menciona nenhuma medida específica do governo para combater a pandemia de covid-19 e nenhuma medida do comportamento individual da população para a prevenção. As palavras "máscaras", "distância mínima" ou "evitar grandes multidões" não aparecem no seu discurso. Em vez disso, relativiza o perigo da pandemia e exige a moderação nas medidas de proteção. Disse: "Vamos combater a epidemia da mesma maneira como combatemos todas [...] as epidemias sem cair em formas extremas que matariam o país". A mensagem desse "raciocínio" é: a pandemia é apenas uma nova forma de epidemias, como sempre as tivemos, por isso não são precisas medidas especiais ou mesmo "extremas".

Desde 11 de março, quando a OMS declarou a covid-19 uma pandemia, até ao dia do seu discurso houve 4 mortos oficialmente reconhecidos como vítimas desta doença. Mas, segundo Ortega, morreram no mesmo espaço de tempo 2.829 pessoas mais por razão de outras doenças ou problemas, mas “ninguém fala deles”. Ao comparar “apenas” 4 mortes do coronavírus com 2.829 mortes por outras razões, minimizou a covid-19 de uma maneira completamente inadmissível.

Ortega realçou que desde o primeiro caso oficial de coronavírus ,971.433 famílias foram visitadas de casa em casa em todo o país para receberem instruções sobre a proteção higiénica. Embora pareçam exagerados, estes números pretendem dar a impressão de que o governo está preparando a população em força para a pandemia. Mas, na verdade, essas visitas foram realizadas por grupos que não usavam máscaras e que não mantinham uma distância segura entre si, nem com as pessoas que visitavam. Ainda pior: exatamente nos dias em que essas visitas ocorreram, várias instituições governamentais convidaram pessoas a participar em grandes celebrações e festas por ocasião da páscoa, que tradicionalmente são celebradas intensa e exuberantemente na Nicarágua.

Além disso, Ortega enumerou milhares de consultas médicas, tratamentos de emergência, vários outros serviços, tratamentos, operações etc. para mostrar que o sistema de saúde da Nicarágua é altamente eficiente e bem equipado. Mas não mencionou em absoluto a covid-19, não disse nem uma palavra sobre o tratamento dos pacientes nem sobre a preparação do sistema de saúde para enfrentar a pandemia.

Elogiou os empregados do sistema de saúde para ocultar que – até há poucos dias – proibiram os médicos e as enfermeiras de usar máscaras faciais, supostamente para não assustar os pacientes. Desta maneira o governo não só expôs aqueles que estão preocupados com a saúde dos seus compatriotas a um risco muito maior de ser infetados, mas também está a tornar as próprias instalações de saúde em centros de contágio.

No final, Ortega anunciou que no espaço de tempo aqui mencionado nasceram 14.571 crianças, muitos mais do que morreram pessoas mais velhas. Exclamou “Que Deus seja louvado!” e sorriu – a única vez – diante da câmara, satisfeito por ter encontrado um fim positivo do seu discurso.

Se o governo não pode fazer muito e não quer fazer o que poderia, então na era da covid-19 há pelo menos o seguinte: muitas crianças novas e confiança em Deus. Esta é a política de Daniel Ortega para as consequências da pandemia.

Artigo de Matthias Schindler para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Técnico de construção de máquinas reformado. Politógo.
Termos relacionados Covid-19, Internacional
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