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Covid-19 na Nicarágua: Secretismo, feiticeiros e assembleias massivas

Ministério da Saúde nicaraguense anuncia que há apenas três casos de pessoas infetadas e que não vai efetuar qualquer forma de quarentena. Presidente do parlamento diz que país pode contar com os feiticeiros e curandeiros tradicionais. Por Matthias Schindler.
Na Nicarágua, o Governo anunciou mais de 80 eventos públicos para os cidadãos e os turistas nos dias da páscoa - "Arrastar o judas" em Masatepe
Na Nicarágua, o Governo anunciou mais de 80 eventos públicos para os cidadãos e os turistas nos dias da páscoa - "Arrastar o judas" em Masatepe

De acordo com o Ministério da Saúde nicaraguense, a 8 de abril de 2020 havia três casos ativos de pessoas contagiadas com o vírus Covid-19 na Nicarágua. Estão em tratamento médico, a sua situação é crítica, mas estável. Até agora, todos os outros casos suspeitos investigados foram negativos. Segundo o governo, o sistema de saúde na Nicarágua tem a situação no país completamente controlada.

Enquanto os 21 netos de Ortega, que frequentam a Escola Alemã, tinham sido ensinados online em casa há muito tempo já, o governo obrigou as escolas públicas a continuar o ensino nas escolas até poucos dias antes da páscoa. Acalma-se a população, mas o governo comprou em 15 de março, secretamente e de maneira urgente, 3.000 luvas de latex e 418 litros de gel de álcool para a sede presidencial. A incerteza geral aumentou ainda mais pelo facto de a ministra da saúde ter sido substituída a 1 de abril sem explicação nenhuma. Acima de tudo, Daniel Ortega desapareceu completamente da vida pública desde o dia 13 de março. Ele deve ser o único presidente do mundo que ainda não tinha dito como combater a pandemia de Covid-19 no seu país.

A 10 de abril de 2020, a plataforma Worldometers publicou os seguintes números para a América Central: Existem 2.752 pessoas contagiadas do coronavírus no Panamá, 126 na Guatemala, 117 em El Salvador e nos países vizinhos da Nicarágua Honduras 382 e Costa Rica 539. A fronteira entre Nicarágua e Costa Rica está amplamente aberta. Portanto, é extremamente improvável que o novo coronavírus ainda não se tenha espalhado na Nicarágua, como afirma o executivo.

O governo está a minimizar sistematicamente o risco da pandemia do Covid-19. O presidente do parlamento, Gustavo Porras – ele próprio é médico – disse que esta infeção viral é apenas uma nova variante da constipação e que a Nicarágua não só está apenas bem equipada com os medicamentos precisos em caso duma infeção, mas que também pode contar com os seus feiticeiros e curandeiros tradicionais.

Em vez de preparar a população para esta pandemia através dum mais alto nível de transparência e informação factual e implementar as medidas de proteção recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o governo está a fazer exatamente o contrário: organiza vários eventos de participação massiva e, além disto, obriga os funcionários públicos a participar.

Por exemplo, organizou um desfile de carnaval para o dia 14 de março sob o lema Amor nos tempos de Covid-19, no qual participaram milhares de nicaraguenses.

A 16 de março, Anasha Campbell, co-diretora do Instituto de Turismo da Nicarágua INTUR, anunciou mais de 80 eventos públicos para os cidadãos e os turistas nos dias da páscoa, "para restaurar o direito à recreação saudável, ao relaxamento e ao desfrute da arte e da cultura". São, entre outros, uma missa campal em León Viejo, tapetes de paixão nas ruas de León, uma via sacra de Cristo nas águas de Granada ... uma divertida corrida de amor ... um festival da rainha da beleza de verão ... e muito mais.

A 23 de março, o Ministério da Educação deu a ordem para que os professores, educadores e estudantes das escolas participassem na marcha em comemoração da campanha de alfabetização, iniciada exatamente há 40 anos.

Apesar dessas distrações, a insegurança na população em relação à pandemia aumentou notavelmente. Numa tentativa completamente inadequada de acalmar ao povo, a ministra da saúde, Dra. Carolina Dávila Murillo, declarou na sua carta de 16 de março expressamente mais uma vez que a Nicarágua "não efetuou nem vai efetuar qualquer forma de quarentena" e que as pessoas que vêm de outros países e não apresentam sintomas de doença "não estão sujeitas a restrições à liberdade de circulação".

O governo também enviou milhares de brigadistas de saúde a todos os cantos do país – consciente e provocativamente, sem máscaras! – para fornecer, casa por casa, informações sobre algumas medidas de higiene e, ao mesmo tempo, divulgar propaganda do governo de que o risco de infeção pelo vírus Covid-19 na Nicarágua é extremamente baixo.

Encaixa-se bem na imagem da situação político-social da Nicarágua que o governo tivesse realizado a 19 de março uma simulação dum desastre excecional em todo o país, no qual foi praticada a cooperação entre o exército, organizações civis e voluntários particulares. Isso também pode ser entendido como uma ameaça declarada de que os militares serão mobilizados contra a população em futuros protestos em massa, em cooperação com os paramilitares "privados".

O intelectual William Grigsby disse no seu programa de rádio que todo o alarde sobre o coronavírus é absurdo, porque esta infeção é apenas uma doença para a burguesia e para os ricos.

É difícil entender que, mesmo com a política catastrófica e irresponsável do governo da Nicarágua em relação à pandemia e com o regime espalhando tanta estupidez, ainda haja vozes em partes da esquerda da América Latina e da Europa que mantêm o seu apoio político ao regime de Ortega-Murillo.

Artigo de Matthias Schindler

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