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Nicarágua: O cheiro de um cadáver decomposto

Daniel Ortega governa a Nicarágua num modelo que não deixa de repetir-se. Os governos da América Latina devem entender que neste país não há uma escolha entre esquerda e direita, mas entre ditadura e democracia. Artigo de Sergio Ramírez.
"Não mais repressão", manifestação na Nicarágua - Foto Envio digital  - arquivo
"Não mais repressão", manifestação na Nicarágua - Foto Envio digital - arquivo

Na história da Nicarágua, os governantes livremente eleitos são a exceção, e os caudilhos que pretendem tornar-se eternos no poder são a regra. A revolução liberal do general José Santos Zelaya, em 1893, deu lugar à Constituição mais ambiciosa que o país já teve na sua história, tanto é assim que foi chamada “a libérrima”, mas durou apenas uma semana. Zelaya mandou suspender a sua vigência, porque um dos seus artigos proibia a reeleição. Após 10 anos, foi derrubado por uma revolta apoiada pelos Estados Unidos, e o presidente Porfirio Díaz enviou uma corveta de guerra para o conduzir em segurança ao porto de Salina Cruz.

Anastasio Somoza, que conferiu a si próprio o posto de general, sem ter travado uma só batalha, em 1936, deu um golpe de estado contra o seu tio, o presidente Juan Bautista Sacasa, e modelou a sua própria Constituição para ficar no poder por duas décadas. Até que, em 1956, quando celebrava a sua proclamação como candidato, disposto a se reeleger mais uma vez, cruzou-se no seu caminho um poeta, Rigoberto López Pérez, e o matou a tiro. Os seus dois filhos, Luis e Anastasio, sucederam-lhe no comando, mas o último deles foi derrubado pela revolução triunfante de 1979 e, assim como o seu pai, morreu vítima de um atentado, no seu exílio no Paraguai.

Paradoxalmente, o poder então conquistado pelas armas foi entregue, em 1990, pela Frente Sandinista, a Violeta Barrios de Chamorro, que derrotou em eleições livres o então presidente Daniel Ortega, candidato à reeleição. Mas daquela decisão da direção revolucionária, que poderia ter mudado o rumo do país e dado lugar à alternância democrática, Ortega não demorou a abjurar.

Perdeu mais duas eleições, mas graças a um pacto com o caudilho liberal Arnoldo Alemás, condenado por lavagem de dinheiro e factos de corrupção, durante a sua presidência, Ortega voltou a vencer em 2006. Por meio daquele pacto, a quantidade de votos necessários foi confortavelmente reduzida, o que lhe permitiu vencer na primeira volta. E desta vez fez o juramento de não voltar a cometer o erro de aceitar outra derrota eleitoral. E aí estamos.

Conto esta história de caudilhos inimigos até à morte da democracia, porque ajuda a explicar a onda repressiva sofrida pela Nicarágua, com praticamente todos os possíveis aspirantes a ganhar uma eleição a Ortega, e outros destacados dirigentes políticos, jornalistas e empresários presos em celas de isolamento, e com as regras do jogo eleitoral pervertidas até ao total descrédito. As eleições estabelecidas para novembro serão apenas uma grande palhaçada trágica, porque se houver alguém na disputa, será de mentira, um candidato arranjado, desses que na linguagem popular são chamados na Nicarágua de “candidatos de zacate”.

Nicarágua: Ortega persegue possíveis candidatos da oposição à presidência
Escritor Sergio Ramirez à saída do Ministério Público, na investigação de suposta lavagem de dinheiro a Cristiana Chamorro Barrios, Manágua, Nicarágua, 1 de junho de 2021 – Foto de Jorge Torres/Epa/Lusa

O modelo ditatorial é o mesmo do passado que não pára de se repetir. Ortega é, mais uma vez, o caudilho que se considera ungido e, portanto, eterno, e por isso persegue e prende oponentes, mesmo que sejam os seus próprios velhos companheiros de armas, como é o caso da comandante Dora María Téllez, a heroína da tomada do Palácio Nacional, em 1978, ou do comandante Hugo Torres, que tirou Ortega da prisão através de uma ação guerrilheira.

Em 2018, as pessoas saíram à rua para exigir, sem armas, com os jovens na liderança, o fim desse ciclo trágico, e os polícias fiéis a Ortega, com as forças paramilitares, provocaram uma mortandade. Hoje, está proibido, sob pena de prisão, sair à rua e agitar uma bandeira da Nicarágua. Numa campanha eleitoral, como em qualquer outra parte do mundo, as pessoas voltariam a marchar com as suas bandeiras, e isto é intolerável para um regime cujas regras são o terror, a imobilidade e o silêncio.

Numa campanha eleitoral normal, nenhum meio de comunicação deve ser confiscado, nem silenciado, como agora na Nicarágua, onde metade dos jornalistas independentes foram forçados ao exílio e outros estão presos, enquanto o que se exerce nas redes sociais é um jornalismo das catacumbas.

Na América Latina e em Espanha, existe uma esquerda estagnada na guerra fria, que acredita que Ortega representa valores revolucionários daqueles que no passado correspondiam aos ideais. Não há mais causa idealista na Nicarágua. As leis repressivas que servem para o estado perseguir e prender como traidores da pátria todos aqueles que se opõem à reeleição de Ortega, poderiam muito bem ter sido promulgadas pelo doutor Francia, ou pelo Generalíssimo Franco. Daquela revolução, só permanece o cheiro de um cadáver decomposto.

A escolha na Nicarágua não é entre esquerda e direita, mas entre ditadura e democracia. É o que os governos do hemisfério devem entender. E que a democracia não é assunto de tom local, mas diz respeito a todos.

Artigo de Sergio Ramírez, escritor e ex-dirigente sandinista, publicado em Letras Libres e traduzido para português por Cepat para IHU

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