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"Never-Ending Youth” ou “A mais longa duração da juventude”, um olhar para trás em nossas vidas

“A mais longa duração da juventude” é a história da luta de um jovem para encontrar a si mesmo, sua felicidade e um futuro mais brilhante para todos ao seu redor no Recife dos anos 70. Crítica do escritor Andrew Wan ao romance de Urariano Mota.
“A mais longa duração da juventude” romance de Urariano Mota
“A mais longa duração da juventude” romance de Urariano Mota

Mesmo quando sabemos que estamos vivendo dias que no futuro serão estudados como história, raramente compreendemos o significado dos eventos que se desenrolam diante de nossos olhos. As histórias de destruição da terra que ocupam as primeiras páginas dos jornais muitas vezes se destacam para nós, tanto à medida que ocorrem como muito tempo depois do fato - mas raramente reconhecemos a beleza e a importância dos muitos minutos que acontecem entre hoje e o futuro. Os lugares que frequentamos, as pessoas com quem passamos nossos dias, as pequenas e sem importância histórias e os breves encontros que compõem nossas vidas significam coisas muito diferentes à medida que ocorrem, pouco tempo depois, e muito além do nosso futuro. Aqueles de nós que têm a sorte de viver o suficiente para olhar para trás, para uma vida que parece ser outra, para uma pessoa tão distante de quem estamos agora, o fazem com o conhecimento que gostaríamos de poder compartilhar com nossos eus mais jovens, e muitas vezes com uma perspectiva totalmente diferente das coisas de que antes tínhamos certeza. O romance de Urariano Mota é uma exploração tanto do passado quanto do presente, e do contexto que eles criam um para o outro, contado por um homem que viveu para ver um futuro além de suas expectativas mais selvagens.

"Never Ending Youth" (A mais longa duração da juventude) de Urariano Mota é a história da luta de um jovem para encontrar a si mesmo, sua felicidade e um futuro mais brilhante para todos ao seu redor no Recife dos anos 70, durante o auge da brutal ditadura militar brasileira, enquanto ele e seus amigos lutam contra a opressão que enfrentam todos os dias como militantes comunistas clandestinos.

Enquanto conta sua história, Urariano reflete sobre seu passado difícil como seu presente “eu”, vivendo no século 21 como um homem muito mais velho e sábio que sobreviveu a desafios que nunca poderia ter previsto, como uma pandemia global. Ele conta histórias de como ele conheceu seus companheiros "terroristas", quando todos eles eram jovens, esperançosos e resolvidos a mudar o sistema que eles sabiam que só eles poderiam combater, e os perigos que seu pensamento revolucionário os colocava diariamente. Apesar da opressão do governo e do medo persistente que se mantinha no fundo de suas mentes, as histórias do tempo com seus amigos são tão cheias de risos e celebrações quanto de tristeza e saudade. Ele olha carinhosamente para trás em dias que não percebeu que seriam alguns dos mais importantes para ele muito mais tarde na vida, e conta histórias das pessoas que permaneceram seus amigos décadas depois de sua luta revolucionária. Isso ilumina a vida que ele viveu e as pessoas que causaram os maiores impactos sobre ele de diferentes ângulos, pessoas que só podem ser vistas depois que o tempo passou e a vida continuou, para o melhor ou para o pior.

Embora eu não possa me relacionar diretamente com as lutas do autor vivendo em um Brasil onde expressar a opinião errada poderia custar sua vida, eu vi muito de mim mesmo espelhado em suas estórias. Como acontece com muitos jovens ao longo da história, e especialmente hoje, é fácil ver as falhas inerentes ao mundo em que vivemos e tentar fazer o nosso melhor para ter um impacto positivo sobre o mundo de todas as maneiras que pudermos. O narrador e seus amigos acreditavam sem dúvida que a revolução para a qual estavam trabalhando teria que vir mais cedo ou mais tarde, era apenas uma questão de tempo - embora isso infelizmente não tenha acontecido, e nem todos viveram o suficiente para ver o mundo que viria a ser, mas seus esforços e sacrifícios são prova de sua dedicação, coragem e uma crença apaixonada de que a mudança só pode vir através da ação. O autor acredita que o espírito ardente de “Never-Ending Youth” (A mais longa duração da juventude), que anseia e luta por mudanças ainda está vivo e bem vivo na geração atual. Com o mundo ficando menor a cada dia graças à tecnologia, é mais fácil do que nunca fazer sua voz ser ouvida e encontrar outros que se unirão à causa. As experiências de Urariano Mota voltando aos lugares e encontrando-os completamente diferentes do que ele se lembrava, enquanto ao mesmo tempo revivendo as lembranças que ele fez lá e como aconteceu ontem, é algo que eu encontro com frequência ao me mover pela cidade em que passei toda minha vida. Edifícios e marcos podem permanecer os mesmos, mas o tempo nunca para de avançar, tornando ainda mais importante que captemos e guardemos as lembranças mais preciosas que temos e as pessoas que ajudaram a construí-las.

As estórias que Urariano compartilha e as muitas lições difíceis de aprender espalhadas por elas seriam valiosas para qualquer pessoa que crescesse - e todos nós ainda somos jovens, não importa nossa idade -, como a sabedoria de um mais velho tentando afastar as gerações mais jovens dos erros que ele não quer ver repetidos. Ao mesmo tempo, o livro conquista o leitor a olhar para trás e reavaliar as pessoas, lugares e escolhas que fazem de nós o que somos hoje, assim como o quanto mudamos da pessoa que um dia fomos. O autor ama o testemunho da força das pessoas lembradas neste livro, e serve como uma forte lembrança de que nossas lutas pessoais são muitas vezes vistas como anormais pelas pessoas ao nosso redor. Mas a melhor maneira de combater o infortúnio e a adversidade é sempre juntos - quando enfrentada a desgraça junto a amigos e entes queridos mesmo os momentos mais difíceis podem se tornar nossas memórias mais queridas. Não importa que levemos décadas para realizá-las.

Artigo de Andrew Wan*, publicado originalmente em vermelho.org a 30 de agosto de 2022

* Andrew Wan, Escritor nova-iorquino, formado em literatura pela CCNY

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