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A situação política no Nepal flutua entre o patético e o dramático. Pode parecer desrespeitoso colocar a questão desta maneira, tratando-se da situação de um país, mas é difícil encontrar palavras adequadas para caracterizar a situação nepalesa.
No dia 30 de Junho deste ano, o primeiro-ministro, Madhav Kumar Nepal, oficializou a sua renúncia. Desde então, já se passaram mais de três meses e foram realizadas nada menos de dez tentativas para reeleger um novo primeiro-ministro, mas todas fracassaram.
Um governo que não governa
É uma situação única, onde um país segue tanto tempo com um governo que não governa e não ha nenhuma garantia de que o impasse vá ser solucionado nos próximos dias, já que a proposta de formação de um governo de consenso, tentada várias vezes anteriormente, ainda se parece com uma missão impossível. A ironia é, exactamente, a falta de consenso entre os três principais partidos nepaleses, o Partido Comunista do Nepal Unificado (maoísta), o Partido Comunista do Nepal (Unidade Marxista Leninista) e o Congresso Nepalês, para reestruturar uma coligação fragmentada anteriormente, em 2009, com a saída dos maoístas da frente popular nepalesa. O que existe no Nepal hoje é um vácuo de poder que, historicamente falando, é uma das condições para que possa haver uma mudança radical, ou seja, uma profunda revolução social.
A queda de Nepal, o primeiro-ministro
A renúncia do primeiro-ministro Nepal, em Junho, foi o resultado da greve geral revolucionária realizada em Maio. A greve geral, que parou o país por vários dias, inviabilizou completamente o seu governo, derrubando-o na prática, apesar de a sua renúncia ter sido anunciada de forma tardia, semanas depois. Após a poderosa greve, surgiu no cenário político a proposta de formação de um governo de consenso, e o que se seguiu e segue é uma profunda crise política.
A greve geral revolucionária de Maio foi mais um episódio de um profundo processo revolucionário que já dura anos. O Nepal viveu um guerra popular, encabeçada pelos maoístas, que durou dez anos e no percurso um processo revolucionário, com poderosas manifestações de massa, em 2006, que derrubou o rei Gyanendra e levou à instalação da última democracia burguesa no planeta, a República Federal Democrática do Nepal, em 2008.
Um regime democrático desnecessário
O derrube das monarquias europeias e a ascensão do regime democrático burguês teve um carácter revolucionário no seu início, mas já no século XIX se transformara num sistema reaccionário que necessitava ser derrubado. O regime democrático burguês no Nepal nasceu historicamente em completo atraso, no século XXI, e absolutamente anémico. Nem mesmo teria sido necessário se as massas nepalesas tivessem na sua direcção um partido revolucionário, como o bolchevique, que dirigiu a revolução de Outubro, em 1917, na Rússia. A democracia burguesa no Nepal é um resultado tardio, desnecessário e reaccionário de uma estratégia de revolução por etapas idealizada pelos maoístas nepaleses que, ao invés de levar as massas rumo à tomada de poder, tenta de todas as formas amordaçá-las no beco sem saída do regime democrático.
O Nepal é um país atrasado, subdesenvolvido, que, em plena globalização, não tem como atender as necessidades das massas, mesmo as mais elementares, nos marcos do anémico regime democrático nepalês.
A greve geral revolucionária de Maio provocou tamanha crise política que levou os principais partidos, o PcdoN (U), maoista; o PcdoN (UML) e o Congresso Nepalês a reunirem-se inúmeras vezes para formar um governo de consenso. A formação de um governo de consenso, uma nova frente popular, não se materializou, pois não há como fazer com que a crise, cujo elemento central é a revolução nepalesa, seja terminada com um acordo político dos três principais partidos. E mesmo que venha a materializar-se, será nos marcos de profundas concessões políticas feita pelos maoístas. Um “consenso” contra as massas nepalesas.
Madhav Kumar Nepal, do Partido Comunista do Nepal (UML),desafia todas as leis da física política já que, mesmo tendo caído, continua de pé, como primeiro-ministro provisório. E ninguém sabe exactamente quando deixará a sede do governo. Vista desse ângulo, é uma situação patética,
A incapacidade de eleger um novo primeiro-ministro representa o patético fracasso, a própria incapacidade do anémico regime democrático burguês de sobreviver no Nepal. Mas, vista pelo ângulo histórico, é uma situação dramática.
Desde a greve geral, as massas foram enviadas de volta para casa e agora têm de observar diariamente as peripécias dos seus dirigentes políticos. Nenhum dos problemas que fizeram que travassem uma guerra de dez anos, se mobilizassem para derrubar um rei, e protagonizassem uma histórica greve geral revolucionária foram resolvidos.
A crise atinge todos os partidos
Desde Maio, os partidos burgueses, como o Congresso Nepalês, como também os comunistas do PcdoN (UML) têm vivido um aprofundamento da crise política nas suas fileiras. Mas a novidade é que a crise atingiu em cheio o PcdoN (U), maoísta. Nos últimos meses, tornou-se difícil entender a posição desse partido que, até Maio, parecia ser um bloco monolítico, pelo facto de os seus dirigentes saírem na imprensa defendendo posições distintas uma das outras. Isso demonstra uma profunda crise nas suas fileiras e deve ser também um dos motivos para que a crise nepalesa continue no actual impasse. O sector mais radical do partido, semanas atrás, posicionou-se no sentido de que era necessário preparar-se para a tomada de poder, mas os principais dirigentes, Dahal e Battharai, que lideram facções distintas, são pelo governo de consenso.
O actual fracasso do regime nepalês leva, provavelmente, a dois caminhos inconciliáveis. Um deles, a implantação de um regime ditatorial, já que a burguesia em crise não tem como governar sob um regime democrático que não funciona. O outro, é de que as massas nepalesas tomam os destinos nas suas mãos e formem um governo próprio, operário e camponês, através de organismos de poder revolucionários.
A necessidade de um governo operário e camponês
O patético fracasso da democracia burguesa no Nepal não deixa margens a dúvidas quanto à necessidade da formação de um governo das massas, um governo operário e camponês. Um governo que enterre o anémico regime democrático nepalês e instaure um novo, baseado em organizações democráticas das massas nepalesas.
A actual inexistência de um autêntico partido revolucionário faz com que a situação política, caracterizada pela crise, se torne uma caixa de dúvidas. Uma das últimas afirmações de um sector dos maoístas é de que nas próximas semanas é necessário voltar às manifestações de massas. Se for verdade, outra vez a revolução nepalesa estará de volta.