Nem homem, nem mulher: terceiro género desafia tradição e machismo no México

14 de abril 2014 - 17:45

Para a cultura ancestral dos aztecas, vivida em Juchitán de Zaragoza, algumas pessoas não são nem masculinas, nem femininas.

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A fama internacional de Juchitán é de ser um “Queer Paradise”, coisa que costuma encher de orgulho os locais

As relações entre pessoas do mesmo sexo podem ser um tabu no México, assim como em muitos outros países, mas pelo menos os mexicanos estão acostumados a conviver com pessoas que não se declaram nem homem ou mulher, mas pertencentes a um terceiro género. São xs “muxes”.

Ser muxe não é ser mulher, apesar de ambas palavras compartilharem a mesma origem semântica, e tampouco é ser simplesmente homem e gay. Considera-se um terceiro caminho, porque mais do que uma opção, é uma questão de natureza: para a cultura ancestral dos aztecas, algumas almas – os chamados índios “dois-espíritos” ou “duas-mentes” – não são nem masculinas, nem femininas, e mesmo assim, com características combinadas, encontram lugar neste mundo.

Um desses lugares é Juchitán de Zaragoza, uma cidade de 90 mil habitantes na península de Tehuantepec, no estado de Oaxaca, no sul do México. Lá, reza a lenda que Deus pediu a São Vicente Ferrer que pusesse um homossexual em cada cidade da região. Porém, ao chegar em Juchitán, o saco em que carregava as pessoas rasgou-se e todas as muxes caíram. E assim é que elxs caminham, em corpo de homem vestido às vezes (mas não necessariamente) de mulher e com a convicção de que não precisam mudar de sexo para desempenhar as suas funções e encontrar o seu lugar na sociedade.

Funções sociais, as muxes têm muitas. O fenómeno ao redor delas, ou melhor, da sua definição como grupo, dá-se desde os anos 50, mas é antiquíssima a concepção zapoteca (nome que se dá a um dos povos originários de Oaxaca e Puebla) de que as muxes ocupam espaços específicos na sociedade. Alguns deles são o de ser fortes trabalhadoras e cuidar da família, sobretudo de pais e irmãos mais velhos ou doentes, ocupando uma lacuna que se abre quando filhos homens e mulheres saem de casa para seguir as suas próprias vidas.

Chama à atenção, em Juchitán, como a divisão do trabalho é bem marcada e carrega também códigos machistas. Homens dedicam-se à pesca, a alguns tipos específicos de artesanato e algumas outras funções longe da administração da casa. Mulheres e muxes, à sua vez, são comerciantes e artesãs, responsáveis pelos alimentos e pela sua confeção, por bordados e artes medicinais, pelas festas e decorações tradicionais e também por assuntos financeiros. Além disso, as muxes são quem, frequentemente, iniciam sexualmente os homens, já que muitas mulheres querem manter-se virgens até ao casamento.

A fama internacional de Juchitán é de ser um “Queer Paradise”, coisa que costuma encher de orgulho os locais, ainda que não seja exatamente assim. Apesar de socialmente aceites, as representantes do terceiro género sofrem preconceitos, inclusive por parte de mulheres que não vêem com bons olhos o seu poder ser compartilhado.

Elxs circulam, deixam-se ver e são vistas com naturalidade - raramente com outrxs muxes, mas às vezes em relações estáveis com homens e com mulheres, até mesmo com filhos - sem que o status masculino ou feminino dos seus parceiros se veja ameaçado.

Também há quem fale de um quarto género, fazendo referência às “marimachas”, mulheres que se identificam com um papel social masculino e que se casam com outras mulheres. No entanto, não são de facto aceites socialmente como sexo autónomo e, no trabalho, realizam as mesmas funções que os homens.

Outros países, como a Alemanha, que ano passado aprovou uma lei segundo a qual os bebés podem ser registados com “sexo indefinido” para posteriormente defini-lo, ou então a Austrália, desde 2011 dá a opção aos seus cidadãos de se definirem como “X” no campo reservado ao género no passaporte, fazem as suas experiências e tentativas para introduzir uma terceira opção.

Mas, é no México, ainda que em um pueblito de 90 mil habitantes, que ele encontra um lugar para se colocar, de facto, mais do que de direito, dentro da sociedade.

Esquerda.net com Opera Mundi.