Bullying

Não tem de ser assim

28 de abril 2024 - 11:42

O triunfo dos bullies é resultado da narrativa dominante do nosso tempo. O neoliberalismo caracteriza a vida como luta que uns devem ganhar e outros perder. Providencia justificações para uma sociedade desigual e coerciva, onde estes governam. A competição, obviamente, está sempre manipulada. Por George Monbiot.

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George Monbiot | Monbiot.com

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Cartaz de Trump como Bully.
Cartaz de Trump como Bully. Foto de Alec Perkins/Flickr.

Os investigadores afirmam estar surpreendidos pelas suas descobertas, mas é realmente assim tão surpreendente? Um estudo amplo e impressionante sobre o progresso das crianças até à idade adulta revela que quem incorreu em bullying e demonstrou um comportamento agressivo na escola tem maior probabilidade de prosperar no mercado de trabalho. Conseguem melhores empregos e remunerações mais elevadas. A associação entre cargos de direção e comportamentos de dominação será indubitavelmente um choque para muitos.

Isto não é sugerir que todas as pessoas com bons empregos ou que dirigem organizações são bullies. Longe disso. Não é difícil pensar em boas pessoas que ocupem posições de poder. O que isto nos revela é que não precisamos que pessoas agressivas organizem a nossa vida por nós. Nem a boa liderança, nem o sucesso organizacional, nem a inovação, nem a clarividência ou a prospetividade requerem uma mentalidade de dominação. Na verdade, todas estas qualidades podem ser inibidas por alguém que se imponha agressivamente no local de trabalho.

Seja na Teoria dos Jogos ou no estudo de outras espécies, rapidamente se descobre como é que o comportamento dominador de uns poucos prejudica o coletivo como um todo. Por exemplo, um estudo sobre peixes ciclídeos revelou que os machos dominantes têm “relações sinal-ruído1 mais baixas” (som e fúria, significando nada2) e impactos contraproducentes na performance de grupo. Algo soa familiar?

Uma vitória para os bullies é uma derrota para toda a gente: o seu sucesso é um jogo de soma-zero. Ou de soma-negativa: o primeiro estudo que mencionei também revelou que os bullies na escola são mais propensos a abusar de álcool, a fumar, a praticar ilegalidades e a sofrer problemas de saúde mental em idades mais tardias. Mas o triunfo dos bullies é também um resultado da narrativa dominante do nosso tempo: durante os últimos 45 anos, o neoliberalismo tem caracterizado a vida humana como uma luta que uns devem ganhar e outros devem perder. Somente através da competitividade, nesta religião quase calvinista, poder-se-á discernir entre quem são os dignos e os indesejáveis. A competição, obviamente, está sempre manipulada. O objetivo do neoliberalismo é o de providenciar justificações para uma sociedade desigual e coerciva, uma sociedade onde os bullies governem.

É um círculo perfeito: o neoliberalismo gera desigualdade; e a desigualdade, como revelado noutro estudo, está profundamente associada com o bullying na escola. Face a maiores disparidades de rendimentos e de status, aumenta o stress, a competição torna-se mais aguda e o apelo à dominação intensifica-se. A patologia alimenta-se a si própria.

Tendo descoberto que os bullies prosperam, os investigadores que realizaram o primeiro estudo sugerem que devemos “ajudar a canalizar esta característica nas crianças numa direção mais positiva”. A meu ver, esta é a conclusão errada. Ao invés, devemos procurar a construção de sociedades nas quais a agressão e a dominação não são premiadas. Seria melhor para as escolas focarem-se na dissuasão e no aconselhamento.

Todavia, somos forçados a uma competição destruidora em todas as etapas das nossas vidas. Não só as crianças são repetidamente pressionadas para competições eliminatórias, mas também as escolas. Em Inglaterra, por exemplo, com os seus testes SAT3 e o seu regime Ofsted,4 estas competições prejudicam o bem-estar de crianças e docentes. Como sempre, a competição está feita de modo a permitir que os ricos e poderosos ganhem. Mas, como Charles Spencer descreveu nas suas memórias sobre a vida no internato, vencer é também perder: os progenitores que enviam as suas crianças para escolas privadas pagam para criar uma persona exterior dominante, mas a criança dentro da concha pode estar enrodilhada em nós de medo, de desejo de fuga e de fúria.

Esta contra-educação é reforçada posteriormente na vida por milhares de livros de auto-ajuda, websites e vídeos. Por exemplo, um site popular e o respetivo programa intitulado The Power Moves, dirigido pelo cientista social Lucio Buffalmano, ensina “10 formas de ser mais dominante”. Estas incluem o exercício de pressão social, reivindicar território, “agredir, afirmar e punir” e esbofetear. Também se pode aprender oito formas de dominar mulheres, uma lição essencial porque, aparentemente, “as mulheres dormem com homens que as subjugam”. As técnicas que Buffalmano promove incluem “segurar a cara dela se se recusar a beijar-te”, “em tom de brincadeira, levá-la a colocar-se numa posição horizontal”, “movê-la em direcção à cama, em jeito de brincadeira” e “penetrar a sua mente com Daddy Dominance5”.

Buffalmano reivindica que quer “fazer a Humanidade progredir pelo empoderamento de homens bons para liderar, dominar e vencer”. O resultado mais provável é o de aumentar a quantidade de completos energúmenos. Ao invés, devemos aprender a ser atenciosos, pró-sociais, gentis: a resistir à dominação, quem quer que a exerça.

O bullying óbvio no local de trabalho já não é tolerado, genericamente. Contudo, suspeito que em muitos casos a melhoria aparente seja o resultado de os bullies terem aprendido a mascarar os seus impulsos, enquanto continuam a controlar e a manipular sem transgredir a fronteira do Departamento de Recursos Humanos.

Mas o bullying ostensivo é ressurgente na política. Trump, Putin, Netanyahu, Orbán, Milei e outros pouco fazem para disfarçar os seus comportamentos de dominação crua. Quando Trump rondava por trás de Hillary Clinton durante o seu debate presidencial e quando ridicularizou rudemente a doença congénita de uma jornalista, pudemos ver a criança que ele foi – e a criança que continua a ser. Os nossos sistemas políticos – centralizados, hierarquizados – estão aptos a ser explorados por bullies. Tal como nos recreios escolares de antigamente, as piores pessoas acabam no pódio.

André Julião
André Julião

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A mesma dinâmica opera ao nível global. Os Governos asseguram ao seu eleitorado que estão empenhados numa “corrida global”: se ficarmos para trás, outra nação irá ultrapassar-nos. Esta estória de competições de soma-zero justifica todo e qualquer abuso. Foi usada pelas nações europeias para racionalizar a construção dos seus impérios e guerras eletivas. Foi logo acompanhada por um mito que se auto-concretizava: a de que a corrida6 pela dominação será ganha pela “raça dominante”. Como Charles Darwin afirmava: “As raças de Homem civilizadas irão muito certamente exterminar, e substituir, as raças selvagens espalhadas pelo globo”. De modos mais subtis, com justificações mais subtis, as nações ricas continuam a jogar o mesmo jogo: a sua riqueza é em grande medida dependente da espoliação de outros países.

Mas enquanto a corrida unilateral entre nações continua, enquanto espécie7 corremos rumo ao precipício do colapso ambiental. Se alguma vez houve a necessidade de cooperação e colaboração, é agora. Mas a competição continua, uma competição que todos nós estamos destinados a perder.

Em suma, devemos parar de celebrar o comportamento coercivo e controlador. Em todas as etapas de progressão escolar e profissional, bem como nas relações políticas, económicas e internacionais, devemos procurar substituir o ethos competitivo por um cooperativo.

Esta é a capacidade espantosa que os seres humanos têm, por oposição aos peixes ciclídeos: não tem de ser assim. Nós conseguimos controlar o nosso próprio comportamento, bem como visionar e construir formas melhores de organização. Através de uma democracia deliberativa e participativa, tanto na política como no local de trabalho, conseguimos criar sistemas que funcionam para todos. Não há nenhuma lei natural que dite que os bullies do recreio devem continuar a extorquir tributos de outrem para o resto das suas vidas.


Texto publicado originalmente no The Guardian. Republicado na página do autor.

Traduzido por Miguel Almeida para o Esquerda.net.


Notas do tradutor:

1 Conceito das telecomunicações que mede a emissão de um sinal num contexto ruidoso: quanto mais elevado for o rácio sinal-ruído, menor é o efeito do ruído sobre o sinal emitido (N.T.)

2 Alusão ao icónico solilóquio em MacBeth, de William Shakespeare, sobre a estória contada por um idiota (N. T.).

3 Scholastic Aptitude Test (STA), um exame padronizado usado como critério de admissão a instituições de Ensino Superior (N.T.).

4 Office for Standards in Education, Children’s Services and Skills (Ofsted), agência governamental britânica responsável pela inspeção de escolas estaduais, públicas e privadas (N.T.).

5 Relação de domínio perpetrada pela figura masculina, assumindo uma aura paternalista – “daddy (N.T.).

6 No original “race”, homónima com que o autor faz o trocadilho com “raça” (N.T.).

7 No original “race”, renovando o trocadilho entre as homónimas “corrida” e “raça”, em Inglês (N.T.).