Entrevista de Jorge Louraço, publicada na revista Esquerda.
No último ano e meio, com o espetáculo baseado na tua carreira e na tua vida feito pelas Visões Úteis e com a publicação do livro sobre o teatro semiprofissional no Porto há, por um lado, um olhar para trás, uma retrospetiva... E ao mesmo tempo, fazes uma campanha eleitoral muito bem sucedida, és eleito para a Assembleia de Freguesia do Centro Histórico do Porto pelo Bloco de Esquerda. Há algum ponto de viragem que tenha originado estas três coisas?
São coisas separadas. Como quase tudo na minha vida, foi acontecendo sem eu as programar muito exaustivamente. Eu estive 11 anos no FITEI, nove dos quais como principal responsável e diretor artístico e, durante todo esse tempo, tive uma participação no teatro como programador e praticamente não fiz trabalho de ator, não fiz trabalho de encenação. Mantive uma ligação a uns grupos académicos para me manter ligado à criação artística nas artes cénicas, mas como ator praticamente não trabalhei durante esse período de tempo. Mas, por outro lado, ativei de certo modo a participação política porque o facto de estar na direção do festival fez-me, ainda mais, perceber a fragilidade com que vivem as estruturas, artísticas e culturais, em Portugal. E isso fez-me aproximar muito do Bloco porque é o partido que tem um discurso político, na área da arte e da cultura, com que eu me identifico. Primeiro como simpatizante – digamos assim – e só mais tarde como aderente.
Quando saio do FITEI estou algum tempo a «arrumar a tralha» e a «arrumar as ideias» e pensava voltar aos palcos com um projeto que tivesse a ver comigo, que tivesse a ver com algumas escolhas que eu próprio gostasse de fazer – algumas peças ou alguns projetos teatrais que me interessava desenvolver, como ator ou como encenador. Sem contar, fui contactado pelo Roberto Merino, um encenador chileno residente no Porto há muitos anos e de quem sou muito amigo. Curiosamente, nunca tínhamos trabalhado juntos. Ele lança-me o desafio de fazer um trabalho que lhe parecia ter sido escrito para mim: a história de um velho palhaço, já sem trabalho, já na fase decadente da carreira e que procura um pequeno trabalho. É, de facto, um texto muito interessante do Matéi Visniec, que eu fiz com grande entusiasmo e que marca, de certo modo, o meu regresso aos palcos. O espetáculo correu muito bem, eu gostei imenso de fazer esse trabalho, gostei imenso de ser dirigido pelo Roberto Merino.
Podes contar um bocadinho a história do espetáculo, porque é muito interessante?
A sinopse do espetáculo pode resumir-se a: são três velhos palhaços, amigos, que trabalharam juntos em tempos, com carreiras notáveis pelos circos de todo o mundo, mas que estão numa fase final da carreira, sem trabalho e concorrem, os três, a um anúncio para um pequeno trabalho – que, aliás, é o título da peça: “Pequeno trabalho para um velho palhaço”. Mas só há lugar para um e eles são três. Toda a peça se desenrola na sala de espera, antes de serem atendidos para a audição. Durante esse período, recordam todos os êxitos que tiveram durante a sua vida, os grandes números por eles criados. Tentam recriá-los, mas já tudo sai mal, já nada sai bem. A peça desenrola-se durante uma hora e meia nessa sala, onde nunca são atendidos. A peça tem um final trágico, mas o centro do drama é este.
E afinal, o teu palhaço teve o emprego?
Eles entram em conflito uns com os outros, acabam por ter uma luta e o meu palhaço morre no final. Mas o espetáculo correu bem, do ponto de vista de público, da crítica e pessoal, realizou-nos muito, sobretudo a mim. E foi um grande alento para o retomar da minha atividade, pela força anímica que me deu, pelo o sucesso que teve e pelo facto de ser convidado, a partir daí, para uma série de outros espetáculos. Durante dois anos e meio, entre 2016 e 2019, fiz sete peças, as quais cinco como protagonista. E dois filmes: o “Surdina” do Rodrigo Areias, que está agora a estrear, e o “Sefarad” sobre a comunidade judaica em Portugal, principalmente na zona do Porto. E algumas pequenas coisas para televisão, como a última série do Francisco Manso, “O Nosso Cônsul em Havana”.

E também fizeste um “Fausto” nas marionetas.
Fiz um “Fausto” nas Marionetas do Porto que foi muito significativo para mim, porque foi um regresso à minha casa de sempre que é o Teatro de Marionetas do Porto, onde fui fazer – também a convite do Merino e na sequência do trabalho que fizemos com “O Velho Palhaço” – uma reposição do “Fausto”, com um novo elenco.
E a política entra como? Há pouco disseste que durante o FITEI te foste aproximando, mas depois foste assumindo cada vez mais responsabilidades.
Sim. Eu sempre estive na política, mas não numa estrutura partidária. Desde que acabou a Frente Socialista Popular, onde fui militante ativo, nunca mais estive ligado a nenhuma estrutura partidária. Mas nunca deixei de ser político e de ter a minha intervenção cívica. Aproximei-me do Bloco durante a minha direção do FITEI. Mesmo antes de ser militante, trabalhei em muitas coisas do Bloco, nomeadamente na organização do Desobedoc e outras iniciativas políticas e culturais. Participei ativamente na campanha «Virar o Porto ao Contrário», que foi uma campanha notável e que me fez lembrar muito alguns dos processos que vivi no pós-25 de abril onde tudo era muito definido através de processos assembleários, de discussão profunda dos problemas, com a participação das comunidades e dos seus representantes.
Essa foi a campanha autárquica de 2013…
… E nessa altura não era ainda militante do Bloco, ainda que tivesse sido candidato à Câmara Municipal com independente. Depois, obviamente, face ao trabalho que ia desenvolvendo e face à possibilidade de discutir... – mesmo quando eu não era militante do Bloco, senti-me sempre integrado na discussão dos problemas e temas que eram discutidos – isso fez-me aproximar ainda mais, pelas posições políticas com as quais me identifico profundamente. E a partir de uma determinada altura, resolvo ser aderente do Bloco.
Mas falavas da Frente Socialista Popular... Militaste? Era um partido, era um movimento?
Foi primeiro um movimento e depois um partido, que nasce duma cisão liderada pelo Manuel Serra no Partido Socialista, no primeiro congresso do PS já em liberdade, quando o PS adota uma via social-democrata e menos socialista e a ala esquerda do PS, digamos assim, sai e funda esta Frente que depois virá a ser um partido. Estive ligado desde a sua fundação na cidade do Porto até à sua descativação, numa altura em outros partidos de esquerda também se desintegram ou acabam.
E aí saíste da militância?
Saí da militância partidária. Não quer dizer que não tenha estado em movimentos cívicos e políticos, nomeadamente o primeiro referendo para a despenalização do aborto, as campanhas eleitorais da Maria de Lourdes Pintasilgo.... Continuei ativo, mas não em estruturas partidárias.
Foste também dirigente da Plateia...
Sim, fui dirigente da Plateia durante uns anos. Estava, precisamente, no FITEI quando fui eleito para a direção da Plateia sucedendo a duas presidentes que fizeram um trabalho notável naquela estrutura, que foram a Catarina Martins e, depois, a Ada Pereira da Silva. Estou dois mandatos consecutivos na Plateia, a seguir a dois mandatos da Catarina e outros dois da Ada. Depois de mim, voltou a Ada Pereira da Silva a fazer mais dois mandatos.
Entretanto, começaste a escrever um livro sobre um momento crucial da vida teatral do Porto, que é a seguir ao 25 de abril. De onde veio essa vontade?
Foi também uma das coisas que surgiu sem contar. Aqui há uns anos o João Pedro Vaz comissariou no Teatro S. Luiz um ciclo de teatro do Porto em Lisboa e convidou-me para falar sobre a história do teatro no Porto. Na altura, não aceitei, disse-lhe que não era a pessoa indicada para o fazer, não tinha competência para fazer uma conferência sobre esse tema. Depois pensei melhor e, num segundo encontro, disse-lhe que poderia falar de um período que conheci muito bem, porque o vivi intensamente, quer como ator, quer como animador cultural, que foi o período pós 25 de Abril e o aparecimento na cidade do Porto de um conjunto de estruturas a fazer um teatro novo e diferente que nunca tinha existido na cidade.
Quando dizes que acompanhaste de perto queres dizer exatamente o quê?
Na altura eu criei uma companhia de teatro no Porto: o Teatro Amador de Intervenção (TAI). Era um grupo que, em 1977, procurava fazer animação cultural partindo do teatro. Era, basicamente, uma estrutura de animação cultural mais do que, se calhar, criação teatral.
Quem escrevia as peças, quem interpretava e quem encenava?
Na primeira fase do TAI, foi convidado o Fernando Múrias, um encenador que veio do TEP, que tinha trabalhado com o António Pedro. Em causa estava uma colagem de textos pensada por ele e que ele também dirigia. A ideia era termos uma criação que servisse também para a formação dos atores. Isto é, a primeira atividade era montar uma peça que fosse antecedida pela formação dos atores que a iam fazer. Porque nenhum de nós era ator.
Então tu conheceste de perto esse movimento porque tinhas fundado o TAI...
E não era só por isso. Quando fundei este grupo, existia no Porto uma estrutura oficial que nos apoiava: o Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ), uma reciclagem pós 25 de Abril do que era a Mocidade Portuguesa, que fazia parte da Secretaria de Estado da Juventude. Fui convidado para ir para o Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis devido ao reconhecimento do trabalho que desenvolvia no TAI. O Nelson Cardoso, quando foi nomeado delegado regional do Porto do FAOJ, convidou-me a integrar a equipa de animadores culturais do Fundo. Ele conhecia o trabalho que desenvolvi no TAI porque nós íamos lá pedir apoios logísticos e financeiros. O Nelson Cardoso foi ainda buscar outros quadros às companhias e às estruturas que existiam na cidade: o João Paulo Seara Cardoso e o Fernando Costa do Teatro Ensaio de Gaia; do Realejo trouxe o Victor Valente... Éramos contratados por uma estrutura distrital ligada ao FAOJ, que se chamava Casa da Cultura da Juventude do Porto. O João Paulo Seara Cardoso acabou por integrar mais tarde o TAI. Ele desenvolveu um projeto com marionetas, a partir das formas animadas portuguesas tradicionais – a principal e mais conhecida é o Teatro Dom Roberto – e estava a fazer uma recolha nacional de todas as formas tradicionais de marionetas em Portugal para fazer um espetáculo a partir daí. Com o apoio do FAOJ conseguimos fazer essa recolha. O João Paulo entrevistava os velhos bonecreiros e fantocheiros de Portugal inteiro, eu filmava e gravava as entrevistas. Mais tarde, este projeto deu origem a dois espetáculos: As Mãos e o Resto e A Trupe Maravilha. Eu e o João Paulo já nos conhecíamos anteriormente, tínhamos trabalhado juntos e participado em festivais.
Durante muitos anos foste uma figura chave no TAI...
Sim. Durante muitos anos fui o principal dinamizador do TAI. É claro que, já numa segunda fase, é o João Paulo que passa a dinamizar o TAI do ponto de vista daquilo que hoje chamaríamos direção artística. Eu estava também dedicado a outras coisas: ao cinema independente, ao cinema de autor, à vídeo-arte... E o João Paulo dedicou-se a tempo inteiro ao FAOJ e ao trabalho que tínhamos no TAI, principalmente na área das marionetas.
Quais eram os outros grupos que existiam à época?
Logo a seguir ao 25 de Abril, aparecem grupos por todo o lado. Grupos independentes, nos bairros, nas diversas zonas da cidade e nas zonas periféricas, nas associações de moradores, nas próprias empresas... Houve uma explosão de grupos, sendo que a maior parte deles faziam teatro muito panfletário. Alguns desses grupos surgem, inclusive, no seio de outros que já existiam e que se dedicavam a um teatro mais formal, mais convencional. Algumas pessoas, sobretudo jovens, querem começar a fazer outro tipo de teatro, mais experimental. São dezenas de grupos, só na zona do Porto que aparecem e desaparecem nessa altura. Muitos trabalhavam em garagens, lojas abandonadas, armazéns e outros espaços similares. Depois, com o passar do tempo, já em 1975, 76 e 77, alguns destes grupos começam a ter preocupações artísticas e de produção, ainda que mantendo sempre uma preocupação política e social. Começam, portanto, a surgir aquilo a que o encenador brasileiro José Caldas chamou «o movimento dos grupos semiprofissionais». Estes grupos independentes, surgidos logo após o 25 de Abril, começam a procurar formação, a convidar encenadores de referência com quem tinham afinidades artísticas ou de outro género e a apresentar projetos artísticos já com alguma qualidade. Por outro lado, continuam a trabalhar junto das comunidades. Tiveram sempre essa preocupação, até porque as entidades públicas que mais subsidiavam estes grupos, para além do FAOJ, eram as juntas de freguesia. Neste movimento, alguns grupos acabam por se destacar, como o TAI, o Realejo, o Roda Viva, entre outros. Eu escolhi para o meu livro dez grupos. Ou melhor, dez mais dois.
Na altura víamos aquilo como uma emergência, como uma necessidade absoluta, um ativismo que era fundamental fazer. Olhando a esta distância, percebo melhor o que ficou do ponto de vista artístico com as pessoas que se formaram nestes grupos e que ainda hoje trabalham na área teatral, no Porto e não só.
Existiam referências culturais ou artísticas comuns entre os grupos que constituíam esse movimento?
Havia pontos comuns, que eram essencialmente o trabalho com as comunidades e o desenvolvimento de novas formas de fazer teatro. São alguns desses grupos, que introduzem no Porto, e, em certos casos, em Portugal, o teatro de luz negra, dignificam o teatro de marionetas fazendo espetáculos para adultos, introduzem o café-teatro.
Que papel tiveram estes grupos na mudança de mentalidades da sociedade portuense durante aquele período? Qual a importância que lhes davas à época e que dás agora?
Na altura víamos aquilo como uma emergência, uma necessidade absoluta, um ativismo que era fundamental fazer. Olhando a esta distância, percebo melhor o que ficou do ponto de vista artístico com as pessoas que se formaram nestes grupos e que ainda hoje trabalham na área teatral, no Porto e não só. Quase todos estes grupos deram para a profissão futuros atores, encenadores e produtores, como a Ana Martins, que sai do TAI e veio a ser diretora do Andanças durante algum tempo. Do Vai de Roda saiu, por exemplo, o João Lóio, a Filomena Gigante, o Francisco Beja, a Isabel Alves Costa...
O que mudou no teatro do Porto com estes grupos?
Mudou muita coisa. Repara, a própria Seiva Trupe, companhia profissional criada antes do 25 de Abril, nasce por uma cisão do TEP – Teatro Experimental do Porto. E, mesmo antes da Seiva Trupe, há uma outra tentativa, que é o Grupo de Teatro Independente António Pedro, também a partir de uma cisão no TEP, do qual faziam parte, por exemplo, a Manuela de Melo e a Márcia Breia, e que acreditavam que o TEP fazia um teatro ultrapassado, que não tinha a ver com o seu tempo. Quer o Grupo de Teatro Independente António Pedro, quer a Seiva Trupe nascem com a necessidade de fazer um teatro que crie um novo público. É evidente que a geração que vem a seguir, muito nova, vem trazer uma lufada de ar fresco e apresenta não só coisas novas como processos de criação absolutamente novos. Começam a fazer textos coletivos, encenações coletivas, colagem de textos, teatro de rua, teatro de luz negra, marionetas, teatro para a infância e juventude...
Que idade tinhas nessa época?
Eu era um dos mais velhos desse movimento. Já tinha 28 anos. Eu e o Arantes Ferreira éramos os mais velhos no TAI. No Realejo era o Victor Valente, três anos mais novo do que eu. O resto do pessoal era bastante mais novo.
Quando é criado o TAI, que experiência teatral tinhas?
A minha experiência teatral era absolutamente frustrante. Fiz teatro uma vez num grupo musical que existia no Porto, onde eu tocava bateria. Um dia decidimos fazer uma peça de teatro e aquilo foi um desastre. Pensei que nunca mais fazia teatro na vida, porque não tinha qualquer jeito. Em 1977 iniciei um curso não oficial de cinema, de realização, em França. Quando terminei o primeiro módulo do curso, fui convidado a integrar o TAI. O encenador, que estava também a dar a primeira formação, tinha a ideia de fazer uma cenografia audiovisual e as pessoas que estavam no grupo sugeriram o meu nome.
Até que ano ficaste no FAOJ?
Fiquei dez anos. Saí para assumir a direção de produção do Coliseu do Porto em 1989, onde estive três anos. Nesta altura, quatro elementos do TAI – eu, o João Paulo Seara Cardoso, a Ana Queiroz e o Carlos Magalhães –, juntamente com o João Lóio e a Rosa Ramos, já tínhamos fundado o Teatro de Marionetas do Porto.
As histórias de que estamos aqui a falar entram no espetáculo da Visões Úteis?
Sim, pontualmente. O espetáculo fala sobre este movimento e conta algumas histórias que se passaram neste período. Mas não se centra exclusivamente nisto.
Contrariamente ao que acontece com muitas pessoas da minha geração, que ficam desencantadas e deixam de participar ativamente para contrariar esse desencanto, eu procurei, e procuro, com o meu ativismo, lutar contra este desencanto.
Como é que foi o trabalho, a apropriação dos meios para o espetáculo?
Foi um processo muito curioso e muito divertido. A ideia nasceu de um desafio que o Carlos Costa me fez uma vez que me deu boleia após um espetáculo. Eu tinha feito uma espécie de stand-up no Entre Margens, em Lamego, a convite do Nuno Ricou, onde contava histórias sobre coisas me que tinham acontecido no teatro. Correu muito bem e fui logo contratado para ir a mais dois sítios. O Carlos desafiou-me a desenvolver aquele projeto e a fazer um espetáculo sobre isso. Hesitei novamente. Um dia recebi um telefonema do Carlos a dizer que tinham um projeto no Visões Úteis, em paralelo com o acolhimento a um artista emergente, para o acolhimento de um artista sénior. Convidou-se a ser o primeiro nesse projeto e a fazer o espetáculo sobre a minha vida e as minhas histórias. Aí já não hesitei, respondi que podiam contar comigo durante os dois anos. Em conversa, sinalizei que não queria que fosse algo só sobre a minha vida, e sugeri que o Visões Úteis não participasse só na produção, mas também na dramaturgia, e que integrasse na equipa um criativo jovem, com vinte e tal anos, para ter um olhar contemporâneo e não serem só as memórias do ator velhinho. Aí surge a Sara Barros Leitão. Muito curiosamente, quase em simultâneo. Eu fui ver o espetáculo que a Sara fez sobre o arquivo do TEP e gostei imenso do trabalho dela. Pensei logo que ela seria a pessoa ideal para integrar o projeto. Ela aceitou e foi genial. O processo desenvolve-se a partir de conversas absolutamente informais. Primeiro, juntávamo-nos uma vez por mês, depois uma vez por semana e, dois meses antes da estreia, todos os dias. Eu ia contando histórias sobre a minha experiência no teatro, mas também sobre a minha vida, as coisas que me marcaram, como é o caso do 25 de Abril, que está muito presente no espetáculo.

Desde o 25 de Abril muita coisa mudou. Como é que vês a situação atual em Portugal? O que é que mudou, o que é que melhorou, o que não mudou ou piorou?
No 25 de Abril é evidente que mudaram radicalmente muitas coisas. Não foi só o aspeto da liberdade, mas também questões de ordem económica, e não só. E a luta de classes, que sempre existiu, fica clara ali. Podemos assumi-la livremente. Pouco tempo depois do 25 de Abril tivemos o 25 de Novembro, e há uma regressão muito grande. Ainda que se mantenham liberdades fundamentais, que agora estão a ser atacadas, pelas mais diversas formas, houve um retrocesso enorme no que respeita aos ideais de Abril, às possibilidades que a Revolução nos proporcionou. Eu vejo com algum desencanto a situação atual em Portugal. Mas, contrariamente ao que acontece com muitas pessoas da minha geração, que ficam desencantadas e deixam de participar ativamente para contrariar esse desencanto, eu procurei, e procuro, com o meu ativismo, lutar contra este desencanto. Aproximei-me do Bloco essencialmente porque tinha um discurso sobre a política cultural com o qual me identifico. E noutras áreas da nossa sociedade. Eu sinto necessidade de participar nas ações quer do Bloco, quer nas ações unitárias, com o agudizar da crise no tempo do PEC do Sócrates e na crise social que se adivinhava e que viria a culminar com a troika. Dei comigo a pensar que, estando desencantado, não poderia ficar em casa a curtir o meu desencanto. Tinha de ir para a luta. Não seria um cidadão inteiro se não tivesse uma participação ativa.
Quais são os teus projetos futuros?
A nível político, neste ano tenho tido menos atividade do que tinha há uns anos atrás. O facto de ter tido muito trabalho profissional, no teatro, no cinema e na televisão acabou por me impedir de ter uma participação tão ativa como tive há quatro ou cinco anos. Mas quero continuar a exercer a minha militância no Bloco, nomeadamente com as responsabilidades autárquicas que tenho. Do ponto de vista artístico, tenho dois ou três desafios. Um deles agrada-me profundamente, que é voltar às marionetas do Porto com uma criação de raiz dirigida pelo Roberto Merino. A experiência que tive com ele e com o “Fausto“, nas marionetas do Porto, correu muito bem. Foi um bom regresso a uma casa onde sempre estive, mas agora como ator. Será uma trilogia. Fiz o “Tartufo”, o “Fausto“ e agora vou fechar a trilogia com um clássico grego.