Não “estás louca” nem “são invenções tuas”: como identificar o gaslighting

02 de dezembro 2023 - 18:38

Esta forma invisível e subtil de violência leva a vítima a duvidar da sua própria memória e a questionar constantemente a sua sanidade. Por Alejandra Mateo Fano.

PARTILHAR
Foto de David F. Sabadell/El Salto.
Foto de David F. Sabadell/El Salto.

Fez no dia 25 de novembro 20 anos que teve início um novo projeto da comunicadora e ativista feminista Pamela Palenciano, com o nome de No solo duelen los golpes. Inicialmente concebido como uma exposição fotográfica, que foi evoluindo conceptualmente até se tornar o monólogo feminista de referência em Espanha, despertou a consciência de milhares de jovens e adultos ao colocar em cima da mesa um tema até então pouco visível: a violência psicológica de género e as múltiplas formas em que se expressa nos casais.

De facto, graças ao Inquérito Europeu sobre a Violência de Género, sabemos que 4.646.050 mulheres com idades compreendidas entre os 16 e os 74 anos são ou foram vítimas de violência psicológica em Espanha, em algum momento das suas vidas. A prevalência desta violência parece diminuir com o aumento da idade das mulheres – 38,4% das mulheres entre os 18 e os 29 anos e 19,0% das mulheres entre os 65 e os 74 anos sofreram este tipo de violência –, embora isto não implique necessariamente que as mulheres mais velhas tenham sofrido menos violência do que as mulheres mais jovens, uma vez que se deve ter em conta que a perceção da violência diminui com a idade, bem como a capacidade de identificar a violência sofrida devido à falta de informação e, sobretudo, devido à educação recebida, etc.

Baseada na biografia da autora, que conta ter sofrido abusos durante seis anos da sua vida, Pamela provocou, espetáculo após espetáculo, centenas de mulheres a sentirem-se profundamente identificadas com a pessoa que se deslocava pelo palco contando, com humor e sobriedade, a violência que o seu ex-companheiro exerceu diariamente até a deixar “morta em vida”. Muitas delas, ao verem-se refletidas na personagem, conseguiram ter força suficiente para finalmente saírem de relações abusivas e até mesmo denunciar quando se aperceberam que, possivelmente, “não estavam loucas” nem “eram umas exageradas”. Hoje, 20 anos após o seu nascimento, o poder transformador do monólogo continua a ser tão brutal que não deixou de ser representado por toda a Espanha.

Uma das formas de violência que Pamela destaca recorrentemente no seu trabalho é o chamado gaslighting. Este tipo de abuso, que está sempre interligado com muitas outras formas de violência que se desenvolvem em paralelo por parte do agressor, longe de ocorrer de forma isolada, continua a ser largamente desconhecido: isto já que a maioria das mulheres que o experimentam assumem-no simplesmente como uma dinâmica normal na relação e são incapazes de o identificar como violência. A comunicadora feminista Beatriz Villanueva explicava, num artigo publicado na Pikara Magazine, que “o chamado gaslighting é um mecanismo de violência psicológica com o qual o agressor altera a perceção que a vítima tem da realidade, fazendo-a duvidar da sua memória, da sua perceção ou da sua sanidade”. O termo é retirado de um filme de 1944 chamado Gaslight, baseado na peça de Patrick Hamilton, em que uma das personagens principais, o marido, tenta convencer a mulher de que ela se está a lembrar de coisas incorretas, que está a imaginar coisas. Ela começa a ouvir ruídos estranhos à noite que a aterrorizam, isso e a pressão do marido levam-na a acreditar que está a enlouquecer. Trata-se de uma forma de abuso demasiado comum e invisível que visa manter um controlo ativo e um poder sobre a outra pessoa e que afeta diretamente a identidade e a autoestima de quem sofre.

Montserrat Cabello, psicóloga clínica especializada em violência de género, enfatiza a componente de forte manipulação que caracteriza este tipo particular de violência. Reconhecer este traço é fundamental, por um lado, para distinguir a perfuração da psique de outras formas de abuso emocional como o silêncio assassino ou o reforço intermitente e, por outro lado, para compreender porque é que a vítima acaba por desenvolver uma relação de extrema dependência com o seu agressor: “a pessoa que exerce o gaslighting consegue confundir a sua vítima através de mentiras, julgá-la através de ataques constantes aos seus critérios, culpabilizá-la e atribuir-lhe a responsabilidade exclusiva por tudo o que acontece à sua volta”, começa por dizer a psicóloga. Quais são as consequências de todo este desgaste emocional e psicológico para a pessoa que o sofre? Algumas das sensações mais comuns são a confusão, o sentimento de dúvida sobre tudo, incluindo sobre si própria, a desorientação e a permanente interrogação e insegurança.

É precisamente por este motivo que esta violência psicológica baseada no género é designada também por perfuração da psique, dado que o agressor vai “perfurando” mentalmente, lentamente e pouco a pouco, a pessoa até esta se perder de si própria. As sequelas podem mesmo manifestar-se fisicamente, devido à somatização de todos estas sensações de desconforto emocional: Shea Emma Fett, em 10 Things I've Learned About Gaslighting As An Abuse Tactic, onde aborda em detalhe este mecanismo, refere a ansiedade, o cansaço e a falta de energia vital como as consequências físicas mais generalizadas neste contexto de abuso. Não é raro, portanto, que a pessoa se sinta desiludida, triste ou com medo devido ao impacto emocional da manipulação. Fett refere mesmo a presença de uma possível perda de memória a médio prazo, “é normal perder a memória quando se está a ser alvo de gaslighting, não se conseguir lembrar do que aconteceu em discussões relativamente recentes, aliás, esse é um dos sinais que se deve procurar para identificar que se está a ser alvo de violência”.

Ao mesmo tempo, enquanto elas se vão tornando cada vez mais pequenas, mais dependentes e inseguras, os agressores crescem exponencialmente com esta espiral de violência que os alimenta por dentro: a cada dia ostentam mais poder e controlo sobre a outra pessoa à medida que vão gerando isolamento, tanto em relação a si próprios como em relação ao seu ambiente social. Esta necessidade de domínio responde quase sempre à personalidade narcísica que caracteriza habitualmente os homens que perfuram a psique: “o gaslighter tem-se apenas a si próprio no centro da sua vida, os seus gostos, passatempos, os seus problemas, os seus medos estão em primeiro lugar e assumem sempre o papel de vítimas dentro da relação, pelo que é comum que ela acabe por pedir desculpa por contar os seus próprios problemas ou simplesmente por expressar o que sente”, defende Beatriz Villanueva no seu artigo.

A violência invisível

É preciso compreender, explica Cabello, que “se trata de algo tão subtil que identificá-lo no início é realmente complicado porque se desenvolve de forma muito lenta e progressiva”. Para além disso, normalmente, tanto a violência física como a psicológica nunca são a única forma de tratamento numa relação. Se fosse esse o caso, todas as mulheres rejeitariam o parceiro num ápice, porque fugimos do que nos agride. No entanto, quando existe gaslighting, tanto o cuidado como o romantismo e as formas de manipulação são forças que atuam ao mesmo tempo de forma irregular, ou seja, combinam-se momentos idílicos de uma comédia romântica de Hollywood com momentos de desprezo absoluto. Isto leva inevitavelmente à instabilidade da vítima, que já entende o abuso como parte inerente da relação e, em vez de problematizar o que está a acontecer, tende a esperar pelo momento em que receberá carinho depois da tempestade. Tudo isto se conjuga com o facto de que, como alerta Beatriz Villanueva, “o abusador te coloca num pedestal, pode até endeusar-te no início para te fazer sentir a mais especial, mas na realidade tu não existes, só ele é que importa”.

Pamela Palenciano demorou quase o dobro do tempo que durou a sua relação com o ex-agressor a sarar as feridas emocionais que este lhe causou, até conseguir transmiti-las através do teatro. Até lá, viveu um autêntico inferno: “Ele perfurou a minha mente até eu me sentir uma merda pelo simples facto de existir, lixou a minha identidade, uma vez que a minha relação com ele aconteceu durante a minha adolescência e eu cheguei a assumir que os meus gostos não tinham valor e que o amor implica necessariamente violência”. De repente, acrescenta, depois de um período de tempo marcado por sucessivas piadas, silêncios e comentários depreciativos, “deixas de ter qualquer mecanismo de defesa para reagir e ficas a pensar 'Quem sou eu?’” Daí o perigo desta violência, que acontece muito paulatinamente, num contexto de enamoramento e de dependência progressiva. “Quando o vínculo é mais duradouro, a violência perpetua-se no tempo e a anulação é brutal”, defende a comunicadora. Neste sentido, Cabello também sublinha a intensidade das relações em que um dos parceiros faz gaslighting, “vive-se uma intensidade e um isolamento muito grande por parte da vítima, pelo que, pouco a pouco, o nível de violência vai aumentando até que a pessoa fica muito danificada e é muito difícil sair da relação”, sustenta.

Psicóloga e comunicadora concordam com o seguinte: Nenhuma mulher está a salvo de ser uma potencial vítima de gaslighting. “Todas nós, por termos crescido, sido socializadas e educadas numa sociedade patriarcal, somos suscetíveis de nos envolvermos em dinâmicas abusivas”, assinala Montse. As relações heterossexuais – embora as homossexuais e bissexuais acabem muitas vezes por reproduzir os mesmos mecanismos de violência que os casais hetero – estão inseridas num contexto de desigualdade estrutural entre homens e mulheres. Neste panorama sociocultural marcado por mandatos de género, os homens são educados para a agressividade e, em muitos casos, para a própria violência, enquanto às mulheres é inculcado o valor da obediência e da submissão. Tudo isto, somado a um aparato cultural constituído por produtos literários, cinematográficos e até artísticos que reforçam e perpetuam o falso mito do amor romântico, dá origem ao cocktail perfeito para persistam números aterradores. Shea Emma Fett já afirmava que “o gaslighting está a ocorrer culturalmente e interpessoalmente a uma escala sem precedentes, e isto é o resultado de um quadro social em que fingimos que todos são iguais, ao mesmo tempo que tentamos preservar a desigualdade”. Por isso, conclui Montse, “independentemente do perfil da mulher, seja ela feminista, hiperinteligente ou mesmo rica, todas nós somos suscetíveis de o viver”.

Num sistema concebido para fazer com que as mulheres coloquem o amor e o parceiro no centro das nossas vidas para poder completar-nos, e no qual somos ensinadas a preservar o bem-estar dos outros acima de tudo, a cuidar e a não causar desconforto, é quase impossível não normalizar a violência. Pamela culpa o movimento feminista pela sua falta de envolvimento na hora de exigir uma verdadeira mudança por parte dos homens, a quem nunca foi diretamente pedido que renunciassem aos seus privilégios de género: “no feminismo, centramo-nos em empoderar as raparigas, parece que não nos podíamos meter nas coisas dos homens em relação às mudanças que tinham de levar a cabo para assumir a sua posição de poder no patriarcado e, de alguma forma, esperávamos que houvesse paralelamente um movimento de masculinidades subversivas e igualitárias e não o houve, há muito menos homens realmente desconstruídos do que pensamos”, explica com resignação.


Texto publicado originalmente no El Salto. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.